UffenBerg começou a ser produzida em 2018, em Alto Feliz. FOTO: Divulgação/UffenBerg

Microcervejarias ajudam a diversificar a economia no Vale do Caí e criam oportunidades

Das 21 cidades da região – incluindo Triunfo na lista –, 10 possuem em seu território cervejarias registradas junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O número total de empreendimentos registrados que transformam a mistura de água, malte e lúpulo na bebida alcoólica mais consumida no Brasil no Vale do Caí é 13, ou seja, existe uma cervejaria na região para cada grupo de quase 19 mil habitantes. O dado não leva em consideração as chamadas cervejarias ciganas, empresas legalmente constituídas que não possuem estrutura produtiva própria e que tocam sua produção em cervejarias terceirizadas devidamente registradas.

Embora tenha uma longa tradição cervejeira – Linha Nova é considerada o berço das cervejarias no Rio Grande do Sul –, o crescimento do ramo das microcervejarias no Vale do Caí é recente. Apesar de a Cervejaria Barley, de Capela de Santana, existir desde 1992, grande parte dos empreendimentos voltados para as cervejas especiais na região surgiu na última década num movimento que acompanhou o mercado nacional e, pode-se dizer, transformou o Vale da Felicidade no Vale das Cervejarias.

Para a gestora de projetos do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Francine Oliveira Danigno, as pequenas cervejarias trazem excelentes retornos para as cidades nas quais estão inseridas, sendo o principal deles no turismo. “Além de trazer novas pessoas pra comprar no município e, portanto, gerar empregos e renda para a área de hospitalidade, as pessoas que vão às cervejarias geralmente acabam comprando e se alimentando no comércio local, o que favorece a todos”, aponta.

Além disso, Francine salienta que a venda da cerveja na própria cidade em que a empresa produtora está localizada faz a renda do Município circular internamente. Outro ponto importante observado pela gestora são os eventos promovidos pelas microcervejarias, que não divulgam apenas suas marcas, mas também as comunidades nas quais estão inseridas.

O presidente da Associação Gaúcha de Microcervejarias (AGM) e sócio da Cervejaria Malvadeza, de Porto Alegre, Diego Gomes Machado, observa que o fenômeno que ocorre no Vale do Caí é algo que se repete em outras regiões do Estado. “Inicia-se, normalmente, com um ou duas plantas instaladas, vemos as operações ciganas surgindo e, depois, surgem outras fábricas e isso forma um núcleo, um pólo econômico setorial na região”, explica.

“Ficamos muito felizes em saber que o Vale do Caí tem mostrado crescimento expressivo no quesito da cerveja”, afirma. Ele pondera que a colonização alemã e os festivais com cervejas artesanais na região têm grande influência no desenvolvimento do setor no Vale do Caí.

Espaços do mercado ainda estão sendo ocupados
Sobre o mercado cervejeiro no Brasil, a gestora de projetos do Sebrae, Francine Oliveira Danigno, diz que está estabilizado após amplo crescimento até 2017. Ela entende que, agora, a modalidade empresarial está numa fase onde haverá poucos novos entrantes, seja por ser um mercado saturado ou pelo alto investimento requisitado para a divulgação e crescimento de uma nova marca.

Essa perspectiva não assustou Marcelo Sauthier e seus três sócios: Abel do Carmo, Wilmar Müller e Rafel do Carmo. Movidos pela paixão pela cerveja, eles deram início, no ano passado, à produção da UffenBerg, cervejaria localizada em Alto Feliz, após constituírem a empresa em 2017 depois de realizar minuciosa pesquisa de mercado. O objetivo deles é poder fazer e oferecer cerveja de qualidade.

Questionado se acredita ainda haver mercado para microcervejarias, Marcelo diz crer que sim. “Um ponto positivo é que vários consumidores estão optando em consumir um produto de melhor qualidade, a cerveja artesanal feita seguindo regras de utilização de malte, água, lúpulo e fermento”, afirma. A grande porção de consumidores que bebem cervejas industrializadas é vista por ele como um público a se conquistar.

Além da produção de oito estilos diferentes, a UffenBerg também conta com um pub junto à sua fábrica. Com a abertura do espaço aos finais de semana, os três sócios que tocam a produção contratam, no mínimo, duas pessoas para auxiliar no atendimento aos clientes, gerando também empregos na cidade.

Setor cervejeiro pode ajudar a impulsionar o turismo
A presença de cervejarias artesanais na região acaba por atrair pessoas de diversos pontos do Estado e até de fora do Rio Grande do Sul. “Muitas cervejarias possuem seus próprios espaços para consumir o produto e estão prontas para receber os turistas. Com diversos estilos, do tradicional ao inovador, elas estão conquistando cada vez mais entusiastas da cerveja artesanal”, analisa a coordenadora da Governança Regional de Turismo do Vale do Caí, Michele Martins Nunes. Para ela, o surgimento de uma rota cervejeira na região, além de estimular o crescimento das empresas locais produtoras da bebida, também iria estimular a diversificação do turismo e fortalecer a marca “Vale da Felicidade”, relativa às festividades, gastronomia e bem-estar da região.

Michele é coordenadora da Governança Regional de Turismo

Conforme Michele, que é diretora de Turismo de Montenegro, a Governança Regional de Turismo está trabalhando no Plano de Ação Turístico Integrado. Ali, representantes dos 20 Municípios que integram a entidade estão elaborando um inventário dos atrativos de cada localidade, no qual estão inclusas as cervejarias artesanais. A partir da elaboração desse material começará o trabalho de criação de novas rotas turísticas. “A proposta de uma rota cervejeira está sendo pensada pelas próprias cervejarias e a Governança está à disposição para todo auxílio que for necessário”, garante a coordenadora.

Na última quarta-feira de março, Feliz, a Capital Estadual da Cerveja Artesanal, sediou um encontro que contou com a presença de representantes de diversas cervejarias do Vale do Caí. O secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Feliz, Claudio Rodrigo Vieira, conta que durante a reunião foi abordada a possibilidade da criação de uma rota englobando os empreendimentos cervejeiros da região. “Citei a ideia e ela encantou.

Aposto em uma evolução (do projeto) em ritmo acelerado”, afirma. Ele ressalta que Feliz, Linha Nova, São Vendelino, Alto Feliz e Vale Real já fazem parte da Rota das Cervejas Artesanais do Estado.

Consumidores procuram identificação com a marca
O presidente AGM entende que há alguns anos existe um ciclo de mudança no comportamento do consumidor de cerveja no Brasil. Para Diego, hoje, os consumidores não buscam meramente um produto. “Quem vende somente um produto, a meu ver, está fadado ao insucesso. Hoje, a população busca uma experiência”, avalia.

Diego Gomes Machado é o presidente da AGM

Além dessa busca por novas sensações – que na cerveja pode ser o aroma, o amargor ou, até mesmo, um gosto mais frutado –, Diego entende que os consumidores buscam marcas com as quais eles possam se identificar. “Focando no cliente primordialmente, ao invés de focar no lucro, eu creio que o mercado (cervejeiro) ainda vai ter alguns bons anos de crescimento”, aposta.

É nesse nicho que o empresário Diego Krein busca se inserir. Proprietário da Krein Bier, de Montenegro, ele diz que seu principal objetivo foi sempre identificar a cervejaria com o Município. “A gente faz a cerveja fresca para ser servida aqui na cidade, no máximo nas cidades da região que fazem limite com Montenegro”, assegura. Inclusive, uma linha de rótulos sazonais homenageia locais de destaque da Cidade das Artes.

Falta de incentivos está entre as principais dificuldades
O Sebrae trabalha com projetos de desenvolvimento de cervejarias artesanais desde 2015. De lá pra cá, a entidade identificou que as principais necessidades dos empreendimentos cervejeiros são semelhantes, independente da região: melhoria na gestão do negócio, desenvolvimento na logística e implementação da área comercial com decisões estratégicas quanto ao tamanho do mercado que deseja atuar e regiões de atendimento. “Também é uma necessidade latente das empresas desse segmento a redução de impostos e saber como lidar com a competitividade das grandes empresas desse mercado”, alerta Francine.

Diego Krein observa que acesso aos insumos para a produção ainda é uma dificuldade

Em São Sebastião do Caí, há uma tentativa de mudar essa realidade. Foi aprovado na última segunda-feira de março (25), na Câmara de Vereadores, um Projeto de Lei do Executivo que institui um programa de incentivo a microcervejarias, cervejarias artesanais, brewpubs e cervejeiros caseiros. Entre os estímulos previstos aos novos investimentos estão o auxílio financeiro para aquisição de terrenos, construção de prédio ou aquisição de equipamentos; pagamento de aluguel de prédio destinado ao empreendimento; reembolso de despesas com consumo de água, energia elétrica e outros; execução de serviços de terraplenagem e restituição de parcela do retorno do ICMS, IPVA e/ou ISSQN.

Lúpulo é responsável por dar o amargor da cerveja

O presidente da AGM vê com bons olhos a iniciativa do Executivo caiense. “A gente crê que outras cidades do Estado e até do Brasil podem se espelhar no que São Sebastião do Caí está tentando fazer”, afirma Diego, que esteve junto com outros membros da diretoria na cidade na última semana de março para conhecer o projeto. Ele reforça que através de programas de incentivo é possível desenvolver o microempreendedor, fomentar o empreendedorismo e a competitividade das pequenas cervejarias.

No Vale do Caí, Mapa tem registro de 13 empresas que transformam a mistura de malte, lúpulo e água na bebida alcoólica mais consumida no Brasil

Outra dificuldade enfrentada pelas cervejarias artesanais tem a ver com os insumos necessários para a produção. “Os maltes especiais são todos importados, os lúpulos só têm fora (do País)”, aponta Diego Krein. O cervejeiro observa ainda que há vezes nas quais é necessário mudar a receita de um produto por não haver o lúpulo específico dela – insumo que dá o amargor da cerveja – no mercado. O empresário salienta ainda que, por serem importados, o preço dos produtos está sujeito à cotação do dólar, o que influencia diretamente no preço da produção.

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