Oscar Bessi, coluna, O meu aniversário que não era meu, facebook

Na última quarta-feira, acordei bem cedo, como de costume, e fui realizar minhas atividades matinais rotineiras. Que não vão muito além de colocar o lixo na rua, renovar as rações de gatos e cachorros, fazer um belo café preto e ler os jornais. Depois disso, gosto de dar uma espiada rápida nas redes sociais antes do trabalho. Não necessariamente nesta ordem, que nunca fui um homem de ritos e, volta e meia, altero toda a minha rotina. Só não dispenso o café preto. Ao abrir meu whatsapp, fui surpreendido por um grande número de felicitações. No início, achei que me confundiam com um bombeiro, era o dia deles. Depois, me dei conta de que me parabenizavam pelo meu aniversário. Que aniversário, se nasci em setembro?
– Mas está no facebook! – disse uma amiga. E estava mesmo. Comecei a me desculpar, dizendo que havia algum engano. As pessoas respondiam com o print da página, alguns até indignados: “Como assim, não é teu aniversário? Tá no face!”.
Ah, é. Se está “no face”, é verdade. Até o meu nascimento ele pode saber mais do que eu. Bah. As redes sociais estão terminando mesmo com o conceito de verdadeiro e falso. Não adianta nem eu, que sei por saber a vida toda, e tenho mil documentos comprobatórios, dizer que não nasci em 03 de julho. Se o facebook disse, azar o meu. Ele é que está certo. Sou um fake de mim mesmo.
Redigi um aviso. Pedi desculpas, informei não saber o que havia acontecido. Outra amiga, solidária, me disse que aconteceu o mesmo com ela. O facebook alterou a sua data de nascimento e lhe causou alguns transtornos. O chefe dela imprimiu o aviso e cobrou explicações de uma dispensa pra sair mais cedo que ela pedira, meses antes, tendo como justificativa o próprio aniversário. “Que bonito, hein. Ainda bem que o face te desmascarou!”. Mesmo ela mostrando carteira de identidade, certidão de nascimento e CNH, o chefe olha torto pra ela até hoje. O face é o face.
Foi divertido ver que parentes, que sempre souberam que eu e minha mãe fazemos aniversário no mesmo dia, não se deram conta e me parabenizaram também. Feito amigos de trabalho, que compraram bolo e salgadinhos em anos anteriores para uma festinha de final de expediente. No fundo, não fazemos mais parte da memória afetiva das pessoas. A rede social terminou com a intensidade. Mas o maior barato foi ver que o facebook anunciava que eu estava completando 26 anos de idade. Ou seja, teria a idade da minha filha mais velha, segundo a rede social. E eu nem podia retrucar “26 anos? Só de serviço!”, porque até de serviço tenho bem mais do que isso. Mesmo assim, parabéns cheios de palavras gentis. Somos falsos, hoje em dia? Não. Apenas supérfluos. Nas relações humanas, no conhecimento, na opinião. Qualquer um critica, ofende ou elogia sem se importar se conhece bem o tema ou o fato sobre o qual discorre. Se o ego ou o umbigo manda, é pau, ou babação. E qualquer um é teu amigo sem nem prestar atenção na tua cara de velho que não pode, de jeito nenhum, ter só 26 anos. A verdade é virtual. E a mentira evapora. É um novo mundo.

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