Quanto vale uma vida? Se não tem uma resposta na ponta da língua, parabéns: você é humano e cada um sente a perda de uma forma. Dificilmente as estatísticas de morte no trânsito causam algum tipo de comoção naqueles que não testemunharam a partida de um filho, pai, irmão ou amigo preso entre as ferragens ou jogado no asfalto. Somente aqueles que sentem o vazio deixado pelo ente querido podem descrever esta dor e, ainda assim, nem sempre em palavras. Existem sensações para as quais a Língua Portuguesa ainda não concebeu vocábulos.
Quando alguém morre no trânsito, é comum usar o termo tragédia para descrever a situação. Só que, conceitualmente, tragédia é algo inesperado, acidental, que não pode ser evitado, diferente da maioria das colisões e dos atropelamentos. A causa mais frequente está longe de ser o acaso. Não, mesmo! Nas rodovias e nas ruas, as pessoas morrem porque alguém foi imprudente ou desrespeitou as leis. Geralmente, fez as duas coisas e, agindo desta forma, assumiu o risco de matar.
Esta semana, muitos montenegrinos acompanharam, com vivo interesse, o julgamento do motorista que colidiu com a moto pilotada pela jovem Kellen Bock, de 18 anos, em Campo do Meio, em novembro de 2017. Ela voltava da prova do Enem quando a Honda Biz em que transitava – na sua pista – foi colhida por um carro. Segundo testemunhas, o motorista havia bebido, dirigia em alta velocidade e não tinha habilitação. E, mais grave, fugiu do local sem prestar socorro à vítima.
Ainda que se exclua do processo o uso de álcool e o “pé de chumbo”, que parece não terem sido definitivamente comprovados, restam o fato de o acusado estar na contramão, de não possuir CNH e de ter fugido. São, sem sombra de dúvidas, motivos suficientes para condená-lo e, depois de cumprir sua pena, garantir que ele não provoque outras mortes. Contudo, graças a leis frouxas e injustas, ele pegou menos de oito anos de prisão. E como quase dois anos da pena já foram cumpridos por Evandro, o restante será “pago” no regime semiaberto. Em síntese, ele saiu do tribunal livre, com o compromisso de dormir diariamente no Albergue da Susepe.
Não houve justiça para Kellen e nem para seus familiares. Tampouco para a sociedade, que recebeu um recado perturbador: uma vida no trânsito vale muito pouco, na verdade, menos de dois anos na prisão. O Ministério Público não tem culpa e nem mesmo o Judiciário, a quem compete o restrito cumprimento da lei. A responsabilidade é de quem faz as regras, nossos deputados e senadores omissos e preguiçosos e, agora, o nosso presidente da República, que pretende tornar a fiscalização ainda mais débil, desativando pardais.
Quanto vale uma vida? Vale todos os sorrisos que a jovem Kellen Bock não pode dar, os abraços dos quais seus familiares sentem falta, as palavras de conforto que os amigos deixaram de ter. Vale o sofrimento daqueles que não a terão como madrinha de seus casamentos ou de seus filhos, ou sua simples companhia numa festa ou sessão de cinema. A vida de Kellen Bock vale todo o bem que ela poderia ter feito na profissão de biomédica que havia escolhido. Sua morte e a pena “leve” imposta ao seu algoz levaram para o túmulo um pouco da esperança de todos que ainda sonham com um país mais justo. Enfim, é uma dívida que nunca será paga.

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