De acordo com a OMS, um a cada seis idosos sofreu algum tipo de abuso durante o ano passado CRÉDITO: Reprodução/Internet

Desafios impostos pela velhice tornam os idosos propensos a abusos físicos e emocionais. Dados preocupam

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um dado preocupante: um em cada seis idosos sofreu algum tipo de abuso no ano passado. São quase 141 milhões de indivíduos que, no mundo todo, sofreram com situações como restrições físicas; foram privados de dignidade e deixados com a roupa suja; foram medicados em excesso ou não medicados; e, principalmente, foram “deixados de lado”, sofrendo negligência emocional.

BEATRIZ Disconzi, presidente do Conselho Municipal do Idoso, que fomenta uma velhice ativa

E não é preciso ir longe para constatar a veracidade do levantamento. De acordo com o Conselho Municipal do Idoso, Montenegro não foge à regra. “Nós recebemos muitas denúncias. Tem bastante casos de abuso emocional e físico na cidade”, lamenta a presidente da entidade, Beatriz Mendes Disconzi. Agindo como uma ponte entre denunciantes e as autoridades competentes, o Conselho vê de perto a realidade do idoso montenegrino.

“A maioria que faz a denúncia de algum caso quer permanecer no anonimato e cabe a nós verificar o que é verdade. 80% destas denúncias são reais”, conta. Os principais casos de abuso têm membros da família ou cuidadores como agressores. “O Conselho procura fazer visitas, conversar com o idoso e os familiares e aí faz os encaminhamentos, seja para o CRES, o Ministério Público ou a Delegacia”, afirma a presidente Beatriz.

É por orientação da própria OMS que, em países em desenvolvimento, uma pessoa passa a ser classificada como idosa aos 60 anos de idade. Em países caracterizados como desenvolvidos, a idade é 65. Em relação à expectativa de vida, no entanto, o Brasil viu, nos últimos 80 anos, o indicador pular de 45 para 75 anos de idade. E muitos vivem além disso. Uma pessoa que, há algumas décadas, morria de velha aos 60, 70 anos, hoje segue viva em uma sociedade que ainda está se adaptando a sua inesperada presença. Diante disso, surgem alguns dilemas.

MICHELLE Bertoglio Clos é assistente
social e doutora em gerontologia biomédica

Mesmo vivos, esses indivíduos, aos poucos, vão perdendo sua autonomia e precisando, cada vez mais, do apoio de terceiros. Esse apoio nem sempre vem. Dados do Disque 100 – o canal de denúncias de violações aos direitos humanos – confirmam que, em 2017, 75% das violências contra os idosos aconteceram dentro da própria casa deles. “É um número preocupante, considerando que as denúncias contra familiares tendem a não ser formalizadas pela insegurança vivida pelos idosos. A família ocupa um espaço conflitante, pois ora é protetora, ora é violadora”, opina a assistente social e doutora em gerontologia biomédica, Michelle Bertoglio Clos.

A especialista aponta ainda para dados da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, que atestam as duras condições em que vivem alguns idosos. Dentre as principais denúncias recebidas estão maus-tratos, abandono, apropriação de bem, omissão de assistência, discriminação, ameaça, injúria, lesão corporal, perturbação da tranquilidade e estelionato. São violações diretas ao Estatuto do Idoso, que foi criado em 2003 na busca por garantir e guardar os direitos destes indivíduos. Ele é precedido por uma Política de 1994, que era muito mais branda, mas, como esclarecem os números, ainda não é cumprido integralmente.

Será que o idoso está, realmente, mais ativo atualmente?
Existem muitos casos de idosos que passam dos seus 60 e seguem como membros ativos da sociedade. O apresentador Silvio Santos, por exemplo, continua trabalhando ativamente com 87. Por aqui, nas páginas do Jornal Ibiá, várias histórias de idosos “indo contra a maré” e até trabalhando após a aposentadoria já foram contadas. Elas merecem, afinal, um bom destaque e a busca por uma velhice ativa é, inclusive, preconizada pela OMS.

O próprio Conselho Municipal do Idoso trabalha com atividades que incentivam uma maior qualidade de vida a essas pessoas. Há programação para a Semana do Idoso e, agora, está sendo firmada uma parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc) para a realização de diversas atividades recreativas que, de acordo com a entidade, devem começar em agosto. Pensar em um idoso “ativo”, no entanto, não pode ser visto como regra.

No grupo entre 60 e 64 anos – dos idosos “jovens” – 35,5% não conseguem realizar atividades instrumentais para usar transporte público, preparar alimentos ou até cuidar de animais; 16,2% não conseguem realizar atividades básicas, como alimentação ou banho; 54,8% sofrem de hipertensão; 24,6% têm diabetes; 32,9% têm alguma doença articular. Os dados são de 2017, divulgados por um estudo da Organização Pan-Americana de Saúde, que realizou o levantamento em sete centros urbanos do mundo. No Brasil, a representante foi São Paulo.

“A mídia retrata idosos ativos que estão nas ruas, nas academias, na praia. Não estamos falando desses velhos e sim daqueles que já nem saem mais de casa”, ressaltou a professora Yeda Aparecida de Oliveira, uma das coordenadoras do estudo, durante a divulgação dos resultados. “As pessoas demoram a procurar assistência quando estão com problemas nas articulações, acreditando que se trata de uma condição normal do envelhecimento. Não se dão conta de que vão restringindo suas atividades. Elas deixam de se locomover e a vida passa a girar em torno da casa”, lembra a acadêmica, indicando que, pela idade, esses indivíduos ainda viverão anos nestas condições precárias.

As condições de vida e a situação externa em que as pessoas envelhecem também são determinantes. A tendência identificada é que pessoas mais pobres sintam o peso de velhice mais cedo e de forma mais impactante.

A ameaça de transferência ao “asilo”
Conhecendo a realidade dos velhos em Montenegro, Beatriz Disconzi, do Conselho Municipal do Idoso, diz que é um comportamento comum que familiares usem o termo “asilo” como uma ameaça velada. “O idoso não quer ser abandonado. Ele quer seguir no convívio da família e eles acabam usando o asilo para ameaçar. Dizem ‘ah, tu continua incomodando e eu vou te colocar num asilo’”, aponta.

Pelo mundo, o levantamento da OMS que apontou para os abusos aos idosos indica que é justamente em instituições do tipo que a maioria dos casos acontece. Um número inadequado de cuidadores, o baixo salário e o treinamento deficiente influem para que a maior parte das violências ocorra nestes estabelecimentos. Para Beatriz, no entanto, a situação de Montenegro segue a linha contrária. As denúncias recebidas referem-se, principalmente, a situações ocorridas dentro das casas.

Para os “asilos”, a legislação brasileira evoluiu e, desde 2010, assume um controle mais rígido dos serviços oferecidos. O próprio termo mudou, também buscando excluir o aspecto negativo que a palavra “asilo” tem para as pessoas. Agora eles são “Instituições de Longa Permanência para Idosos”: as ILPI’s.

Para a doutora em gerontologia biomédica Michelle Bertoglio Clos, é possível identificar algumas causas para a opção pela internação do idoso em estabelecimentos do tipo. “Entre as razões, eu entendo que é quando o custo emocional é maior que o financeiro; quando há risco de morte sem dignidade; quando há perda de capacidade protetiva da família; e quando as necessidades dele se tornam tão complexas que o apoio se torna insuficiente. Não é algo certo ou errado”, coloca. Fazer a opção, no entanto, nem sempre é fácil.

101 anos de alegrias
Jorgina Iloni e João Bueno vivem na Casa de Amparo Mão de Deus. Eles já não têm familiares próximos. Vieram de Santa Rosa e viveram por anos em uma casa que funcionava como asilo clandestino no município. Os dois são companheiros. Ela tem 65 anos de idade e a saúde muito debilitada. João ostenta impressionantes 101 anos. Apelidado de Jesus, não toma nenhuma medicação controlada e não abre mão de fumar os seus cigarros. Na Casa, ele tem direito a quatro por dia. Apesar das dificuldades e da vida difícil, o sorriso dos dois evidencia uma persistente alegria de viver.

Por dentro de uma instituição de atendimento
“Antes, qualquer pessoa abria um asilo e não tinha qualidade nos serviços. Depois da alteração, toda instituição de idosos precisa ter sete frentes. Elas têm que ter um técnico de enfermagem; cuidadores; enfermeiras; se atende idosos em fase terminal, têm que ter um médico; tem que ter serviço de nutrição; lavanderia; e cozinheira”, explica a assistente social da Casa de Amparo Mão de Deus, Iana de Azevedo. Sem as frentes mínimas, os estabelecimentos não ganham seu registro para operar legalmente.

“Para abrir, tu tens que comprovar uma equipe de trabalho e isso é o que dá a qualidade”, completa Iana. A Mão de Deus foi inaugurada em 2010, oferecendo serviços extras, além dos obrigados por lei, como assistência social, uma recreacionista e uma psicóloga. Existem 72 vagas, ao todo, para os idosos, que são separados em alas. A primeira com os que têm maior autonomia, a segunda com um nível intermediário e a terceira com acamados e/ou em fase terminal. Quase com capacitação máxima, apenas cinco internados têm lucidez plena.

Lá, os idosos que chegam por busca espontânea de algum familiar têm idade média de 80 anos. A desigualdade é clara quando comparada com indivíduos com baixas condições de vida, que sofriam abusos em casa ou que foram moradores de rua. Estes são repassados pela Assistência Social da Prefeitura ao estabelecimento. Do grupo, a idade média é de 60 anos e a saúde já é mais fragilizada.

IANA é assistente social na Casa de Amparo Mão de Deus

Como é de praxe esta aquisição de vagas por parte do Poder Público, Iana conta que a fiscalização e a participação da Vigilância dentro da Casa é rigorosa. Para quem não tem condições de pagar por uma ILPI – que custa de um salário mínimo e meio a dois, dependendo das necessidades do idoso – o Estatuto determina que 70% da aposentadoria seja destinada à estadia. Como a maioria vive com o recebimento de apenas um salário mínimo, é o município que provém a diferença de custos se comprovado que a família realmente não tem condições de dar este atendimento.

Sobre os casos de busca espontânea pela internação, a assistente social reconhece que há uma dificuldade. “É difícil para o familiar identificar que está na hora de tomar uma medida. Daqui a pouco, é mais fácil fechar os olhos para a necessidade, não por maldade, mas por amor. Na primeira dificuldade, é muito difícil de já se pensar em colocar em uma ILPI. Ele fica pensando nisso por muito tempo”, avalia. Iana explica que é preciso refletir se o idoso está sendo realmente bem atendido em casa em comparação aos cuidados que ele poderia estar recebendo em uma Casa como a Mão de Deus.

A profissional adiciona que é uma preocupação da assistência social do estabelecimento que se mantenha um vínculo dos idosos com os familiares, sendo fomentadas visitas e passeios fora da Casa. Lá dentro, ela conta, busca-se garantir um mínimo de autonomia aos indivíduos. Se existe a capacidade de pegar uma xícara – mesmo que o conteúdo possa derramar –, por exemplo, isso é incentivado. “Tirar o que eles ainda conseguem fazer está violando aquela capacidade mínima. Não permitir isso é estar tirando um direito dele”, pontua. Iana indica que os idosos chegam na casa inseguros, mas, com o tempo, têm boa adaptação.

 

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