Depois de passar meses digerindo acusações de recebimento de propina e de ser sistematicamente chamado de incompetente pelos vereadores da oposição – e até do governo quando acham que não estão sendo vistos – o prefeito Kadu Müller reagiu. Na sexta-feira anterior ao Carnaval, escoltado por secretários e diretores, ele fez um pronunciamento para a imprensa na Estação da Cultura. Num tom mais agressivo que o costumeiro, revidou alguns ataques, ameaçou processar quem o está “difamando” e disse que a Câmara é “fraca”. Sugeriu que os vereadores estão aceitando os pedidos de cassação porque não conseguem fazer um trabalho que lhes garanta a reeleição. Em síntese, que não têm luz própria. No fim, usou um adágio popular que permite várias interpretações: “O boi bravo só vê o pano vermelho e não o homem com a espada por trás dele”. Quinta-feira, na sessão da Câmara, alguns vereadores fizeram o óbvio: colocaram o chapéu que pairava no ar. Tudo muito previsível e enfadonho.

Nomes aos bois
Os que reclamaram foram Felipe Kinn da Silva (MDB), Valdeci Alves de Castro (PSB), Érico Velten (PDT) e o presidente da Câmara, Neri de Mello Pena, o Cabelo (PTB). Provavelmente, são justamente estes os vereadores a quem o prefeito se referia. Posando de vítimas, alegaram que o chefe do Executivo errou ao generalizar. Com o perdão do trocadilho infame, acreditam que Kadu deveria ter dado nomes aos “bois”.

Ruminantes
A propósito, é sempre bom esclarecer que a comparação de alguns opositores a bois bravos não é literal. Até onde se sabe, o prefeito não está dizendo que suas excelências são quadrúpedes ruminantes. Pena que, enquanto Kadu e vereadores gastam energia se enfrentando “na arena de touros” do discurso político, quem toma um “Olé!” é a população.

Bateu, levou
A verdade é que “chumbo trocado não dói”. Esses mesmos legisladores cansam de usar a tribuna para bater no governo, como se todos os setores e seus responsáveis fossem ineficientes. Até utilizam expressões como “tem CC que…” ou “tem secretário que…” sem dar os nomes. Basta ouvir os áudios das sessões.

Logo ali
Quanto à frase sobre o “boi bravo”, o vereador Felipe Kinn da Silva sugere que ela pode ser vista como uma ameaça aos representantes da oposição na Câmara. Verdade. Não precisa ter mais de dois neurônios para concluir que é mesmo. Obviamente, não se trata de algo físico, como se Kadu tivesse uma espada, tal qual um toureiro, mas que certas atitudes terão consequências, não restam dúvidas. Talvez ali em outubro.


 

Saída estratégica
Na quarta-feira de Cinzas, o vereador Cristiano Braatz (MDB) comunicou à imprensa que está se afastando da “folia”, ou melhor, do processo de Impeachment do prefeito Kadu Müller. Sorteado para integrar a comissão encarregada do processo, ele renunciou supostamente para preservar a “lisura” da instrução. Como tem um processo contra o advogado do prefeito, Cristiano acredita que suas ações poderiam ser consideradas retaliação, comprometendo a imagem do grupo e da própria Câmara. Assim, sem novo sorteio, a vaga foi entregue a seu colega de partido, Felipe Kinn da Silva.

Críticas – Assim que a notícia ganhou as redes sociais. Braatz virou alvo de uma saraivada de críticas. O “bom-mocismo” do vereador foi intepretado basicamente de duas maneiras. Um grupo entende que seu argumento é “fraco” – a palavra da moda nos últimos dias. Como ele é vereador de oposição e o advogado está do outro lado, eventuais embates seriam naturais. Um segundo grupo foi ainda mais duro, sugerindo que o legislador está “envolvido” em alguma irregularidade e, por isso, preferiu se abster da investigação. Enfim, o tiro saiu pela culatra.

Fuga? – Pessoas ligadas ao prefeito acreditam que a decisão tem a ver com a defesa prévia. Para elas, o advogado Jorge Fernandes foi tão competente em mostrar que não há provas para cassar Kadu, que Cristiano preferiu deixar a comissão para não ter de continuar defendendo a cassação, como seus colegas de oposição esperam.

Votações – O advogado Jorge Fernandes ficou surpreso com a decisão do vereador. “Se não se sente à vontade com a minha atuação na defesa do prefeito e como vou continuar esse trabalho, pela lógica, o vereador deve se abster de todos os próximos encaminhamentos do processo”, alfineta. Em poucos dias, os vereadores serão obrigados a se posicionar pela continuidade ou não do processo. Será que Cristiano caiu em sua própria armadilha?


 

Possibilidades
O cenário político montenegrino já sente a aproximação do verdadeiro furacão que serão as eleições de outubro. Esta semana, será aberta a chamada “janela partidária”, período de 30 dias em que os vereadores poderão trocar de legendas sem o risco de perda dos mandatos. E todos estão de olho em Talis Ferreira, que vai deixar o minúsculo PL para aderir a um dos grandes. A princípio, seria o Progressistas, mas a fragilização do governo, por conta do processo de Impeachment e das cobranças da população, podem afastá-lo da sigla do prefeito Kadu Müller.

Cenários – Diante disso e de outros fatos, vale a música de Lulu Santos: “tudo que se vê não é, igual ao que a gente viu há um segundo”. A coluna entra na brincadeira e sugere algumas provocações:
1 – E se, ao invés do Progressistas, Talis fosse para o PSB e concorresse a prefeito tendo Rose Almeida como vice? Quinta-feira, antes da sessão da Câmara, em tom de brincadeira, eles até toparam fazer uma foto. Ensaio para os “santinhos”?
2 – No MDB, o nome mais lembrado até aqui era o do médico Valdir Kleber, mas ele não quer concorrer a prefeito. E se o partido lançasse novamente o ex-vereador Roberto Braatz para a disputa?
3 – O PTB anunciou como seu pré-candidato o ex-vereador Gustavo Zanatta, mas a ausência dele nas atividades partidárias e em eventos pela cidade vem gerando desconforto. E se a legenda resolvesse apoiar o ex-prefeito Percival de Oliveira, do Republicanos?
4 – E se o PT, que muitos consideram carta fora do baralho, lançasse o nome do professor de História Rodrigo Dias como candidato ao Palácio Rio Branco?
5 – E se o prefeito Kadu Müller ficasse mesmo impedido de concorrer, quem seria o candidato a prefeito pelo Progressistas? Joel Kerber, Ronaldo Buss…?

Baixo impacto – Como se vê, muita coisa ainda pode acontecer e o encaminhamento do processo de Impeachment do prefeito é apenas uma delas. Ainda que Kadu seja cassado, o impacto disso sobre as próximas eleições provavelmente é menor do que muita gente imagina. Tirando os vereadores de oposição e algumas lideranças políticas, pouca gente está interessada no assunto porque Impeachment deixou de ser novidade.


 

RAPIDINHAS
O mês de fevereiro terminou e nada de a Administração Municipal encaminhar para a Câmara de Vereadores o projeto de lei com o reajuste anual do funcionalismo. Os professores devem receber 12,84% (piso nacional) e os demais servidores, 4,48% (repasse da inflação).

Está demorando mais do que a comunidade gostaria o desfecho da ação que barrou a instalação do estacionamento rotativo pago. A velocidade da tramitação no Ministério Público e no Judiciário não é a mesma do dia a dia da população.

O vereador Valdeci Alves de Castro (PSB) sugere que a Prefeitura institua o registro de ponto para os ocupantes de cargos de confiança (CCs). A ideia é tão boa que é difícil acreditar que ainda não se faça o mesmo na Câmara. Os assessores dos vereadores, incluindo o do próprio Valdeci, não registram a entrada e a saída. Deveriam!

O ex-coordenador do Procon Municipal, Fábio Júnior Barbosa, assinou ficha no MDB e é pré-candidato a vereador.

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