As obras tiveram início no dia 28 de maio e o prazo para o término é em 27 de julho, período que o Movimento terá para comprovar o valor histórico do local

História. Obras realizadas numa importante esquina da cidade geram polêmica

Nas últimas semanas, uma das principais ruas do município, a Ramiro Barcelos, se transformou em um grande canteiro obras. Enquanto os serviços de revitalização de alguns trechos da calçada no Centro da cidade segue o cronograma, o Movimento de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de Montenegro (MPPHM) luta para preservar a identidade histórica da esquina onde funcionava a antiga Estação Rodoviária de Montenegro.

Ao todo, três pontos da rua estão em obras: as esquinas da Ramiro Barcelos com a Santos Dumont, Osvaldo Aranha e a José Luís. De acordo com a vice-diretora do MPPHM, a arquiteta e urbanista Letícia Kauer, no dia 30 de outubro do ano passado foi enviado à Prefeitura Municipal de Montenegro um ofício. No documento, a entidade solicitava uma reunião com o poder público para que alguns projetos de revitalização fossem discutidos. Porém, até a semana passada o movimento não obteve retorno. “Nesse documento constava vistas em vários processos”, disse Letícia.

“A proposta era dialogar com o município, de modo a colaborar com o projeto sem alterar o memorial descritivo dos materiais e a identidade dele, como também, tentar resgatar de forma conjunta a identidade da esquina da Ramiro Barcelos com a Santos Dumont, uma vez que esse lugar conta uma história muito relevante para o município”, salienta a vice-diretora da MPPHM.

A esquina em questão, onde hoje está a Chocolândia, há décadas atrás funcionava a Estação Rodoviária de Montenegro. Para a surpresa dos integrantes do movimento que aguardavam retorno para discutir o projeto, na manhã do dia 28 de maio, foram surpreendidos com o início da obra de revitalização do trecho. “A nossa proposta inicial era tentar sentar com a prefeitura e ver a possibilidade de se fazer algum tipo de marcação e fechamento diferenciado para essa esquina”, relata Letícia, acrescentando que o projeto poderia preservar o chanfro de 45 graus ou o recuo da calçada.

As especificações no local tem um motivo. Quando ainda era rodoviária, o recuo e o chanfro de 45 de graus da calçada – diferente dos demais que possuem 90 graus – serviam para facilitar a entrada, saída e o estacionamento dos ônibus da antiga rodoviária. A vice-presidente da entidade conta que no ano passado, quando Argus Machado ainda estava à frente da Secretaria Municipal de Obras públicas (SMOP), ocorreu uma promessa de que ele marcaria uma reunião, junto ao setor de planejamento da prefeitura e o MPPHM para discutir e analisar a situação. “Cobramos de várias formas por esse momento, mas nunca tivemos resposta e fomos completamente ignorados”, desabafa Letícia.

Para o presidente da MPPHM, o professor de história Ricardo Agádio Kraemer, as alterações no trecho irão apagar uma parte importante do passado de Montenegro. “Há alguns anos atrás a rodoviária era o coração da cidade, e isso será apagado da memória material do nosso município”, lamenta Kraemer.

Prédio da antiga Estação Rodoviária de Montenegro, na década de 50, e, hoje em dia. Passado e presente se encontram na esquina que já foi uma das mais importantes da cidade. Foto: arquivo Museu Histórico de Montenegro

“Ponto de integração do interior com a cidade”, assim era a antiga rodoviária no Centro
Há 15 anos, o promotor de Justiça aposentado, Ernesto Lauer, dedica uma parte do seu tempo aos estudos sobre o passado de Montenegro, um hobby que lhe garante um mergulho diário na história local. Com exatidão, ele recorda como era a antiga rodoviária do município, inaugurada em 1955. “Todo mundo que vinha do interior, tanto para ir ao médico, banco ou fazer compras, se concentrava ali, era um ponto de integração entre o campo e a cidade”, relembra Lauer.

“Realmente foi um local muito movimentado, e do outro lado da rua [onde hoje funciona o Supermercado Mombach], normalmente ficavam aqueles vendedores ambulantes e a ‘Cobra Catarina vai fumar’ [atração comum na época feita por artistas de rua], de pessoas que diziam ter uma cobra na mala e gritavam ‘a cobra vai fumar!’, mas ela [a cobra] não aparecia e nunca fumou”, brinca o montenegrino, que na época era menino. “Aquilo atrai muito gente curiosa que ficava em volta na esperança de ver a cobra.”

Conforme o aposentado narra os fatos e os acontecimentos do passado de Montenegro, a precisão das datas e a riqueza dos detalhes deixam claro o encanto do pesquisador nato pelas memórias da Cidade das Artes. “Eu conheci o Dr. Niquinho Rosa que foi uma das primeiras pessoas a escrever sobre Montenegro, mas seu antecessor foi Campos Neto em meados dos anos 30”, observa Lauer. “Isso acabou me incentivando e eu comecei a estudar alguns livros que ele me emprestava sobre o Rio Grande do Sul, e de repetente passei a escrever também”, acrescenta.

Registro do prefeito Germano Henke na inauguração da antiga Estação Rodoviária de Montenegro, em 1955. Foto: arquivo Museu Histórico de Montenegro

Valor cultural e comercial: quanto custa a preservação?
Além de salientar a importância da preservação do patrimônio histórico para a cultura de Montenegro, Ernesto Lauer também cita alguns dos desafios para os proprietários de prédios tombados, como por exemplo, a falta de incentivo por parte do poder público. “É preciso uma contrapartida do Estado, uma vez que esses imóveis automaticamente perdem o valor comercial devido a uma série de percalços burocráticos que eles possuem”, observa Lauer.
“São bens antigos, que têm um valor histórico e representam muito para Montenegro, mas no momento que eles são tombados, o proprietário tem um cerceamento sob seu domínio e o valor passa a ser outro para ele”, enfatiza o pesquisador. “A verdadeira memória deve ser preservada, ou seja, aquilo que realmente tem valor histórico, que não foi desvirtuado, mas isso envolve uma série de questões.”

Prefeitura solicita embasamento técnico

De acordo com a Smop, a execução da obra está em fase final, com prazo para término no dia 27 do mês que vem, e as alegadas modificações nas calçadas do local da antiga Estação Rodoviária se deram em data anterior ao projeto e foram de responsabilidade de seus proprietários, no entanto, esclarece o órgão, não houve nenhuma manifestação do MPPHM na época.

Para tratar sobre a viabilidade de reavaliação do projeto, no início da semana passada ocorreu uma reunião entre os integrantes do MPPHM e o secretário municipal de obras, Ronaldo Buss. Na ocasião, a prefeitura solicitou à entidade embasamentos técnicos que comprovem que o local questionado possui valor histórico para que assim, possa ser feito algum tipo de intervenção adequada na esquina da rua Ramiro Barcelos.

Ainda, foi estabelecido em comum acordo que para o terceiro Workshop da SMOP, a ser realizado no mês de julho deste ano, o movimento terá espaço para uma palestra aos técnicos e funcionários da SMOP. Outro ponto deliberado na reunião é que os processos decisórios devam ser subsidiados de dados técnicos e com recolhimento da competente anotação de responsabilidade técnica/registro de responsabilidade técnica(ART/RRT).

“A calçada é uma questão histórica”
Segundo o pesquisador Ernesto Lauer, a antiga Estação Rodoviária foi a terceira do município, e as especificidades na calçada faz parte da história do lugar. “As pessoas compravam o bilhete e embarcavam no ônibus estacionado nesse espaço, por isso que ela [a calçada] não é reta em ângulo 90 graus, caso fosse, tirava a visibilidade dos motoristas, pois muito desses ônibus pegavam a direita e seguiam em direção aos outros municípios”, destaca Ernesto Lauer.

Para o montenegrino, se o objetivo é manter o patrimônio histórico original, a calçada não pode sofrer alterações. “No momento que você constrói a calçada de maneira diferente, você desvirtua esse monumento histórico, pois ele era assim porque tinha uma finalidade”, argumenta. “Atualmente, nosso município possui demandas muito mais importantes para onde essa verba deveria ser destinada”, dispara Lauer.

Semanalmente, a estudante Elisa de Souza, 22, passa na esquina da rua Santos Dumont com a Ramiro Barcelos e não imaginava que nesse local, há décadas atrás, funcionava aquela que já foi a terceira rodoviária do município. “A única coisa que sabia era sobre o prédio ser tombado, mas é legal descobrir um pouco mais sobre a história da cidade”, disse Elisa.

“Acho que as modificações ao longo do tempo são necessárias em qualquer lugar, mas não podemos ignorar o fato de que preservar a memória também é importante”, salienta a estudante de administração.

 

Fluidez do trânsito será prejudicada, afirma MPPHM
Além do intuito de preservar a memória e história do lugar onde funcionava a antiga rodoviária de Montenegro, o MPPHM alerta para possíveis transtornos na fluidez do trânsito no local. De acordo com o presidente da entidade, o espaço que antes servia para o estacionamento e melhor viabilidade dos ônibus, até duas semanas atrás tinha outra função.
“Muitos condutores que circulavam na rua Santos Dumont em direção à Ramiro Barcelos aproveitavam o recuo desse trecho da via para se posicionar e virar à direita”, salienta Kraemer. “Para quem vai seguir reto ou entrar a esquerda esse espaço fará falta”, completa.
Conforme o diretor do Departamento de Transporte e Trânsito (DTT), Airton Vargas, apesar de ser comum entre os condutores, a prática é ilegal, já que a via é dupla e o posicionamento à direita acaba formando uma terceira faixa.
“Um dos principais objetivos do projeto de revitalização da calçada é justamente melhorar o fluxo do trânsito e garantir a segurança dos pedestres que circulam no local”, garante Airton Vargas.

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