Clareiras foram abertas e lotes separados com arame. Moradores já acionaram as autoridades, mas nada foi feito

SUSPEITO. Indivíduos estão separando lotes em área verde durante a madrugada

A área verde que faz esquina entre as ruas João Corrêa e Pedro José Francisco, no bairro Senai, está sendo invadida. A situação vem de alguns meses, mas se acentuou nas últimas semanas, para preocupação de quem vive no Loteamento Via II, que é vizinho da área. Contam os moradores que o local vem sendo rondado por veículos suspeitos. Da noite para o dia, o trecho de mata nativa amanheceu cercado por diferentes lotes, separados por arame farpado. O serviço é feito durante as madrugadas e já há relatos de tentativas para sua comercialização.

Todo aquele espaço pertence à Prefeitura. Lembram os moradores que parte foi de uma doação da incorporadora responsável pelo loteamento que, pelo parcelamento do solo, destinou ao Município o espaço para a manutenção de área verde e também uso institucional (a construção de uma escola ou posto de saúde, por exemplo). Outra parte, no mesmo espaço, é uma área de preservação permanente, visto que o trecho é cortado pelo Arroio São Miguel, e não pode receber edificações.

O lixo largado irresponsavelmente na área de preservação também é motivo para preocupação

Nesta segunda-feira, 3, A.P. (ele pede para não ser identificado) foi chamado em casa, em Porto Alegre, avisado de que seu terreno, que faz divisa com a área, estava sendo invadido. Alguém passou e ouviu gente martelando por ali no início da noite e avisou o proprietário por telefone. Ele veio à Montenegro e foi ao local acompanhado da Brigada Militar. Chegaram pelas 23h. Os invasores desapareceram no meio do mato e não foram localizados.

“Quando a polícia saiu, eles já vieram de carro para observar o que tinha acontecido”, conta um dos moradores do Loteamento Via II, que observou a movimentação. “Vieram, deram uma olhada e foram embora.” Os veículos avistados nesse tipo de atividade chamam à atenção. Têm vidros escuros, placas que não permitem a identificação do município de origem e são de marcas notavelmente mais caras.

No dia seguinte a situação desta semana, a luz do sol chegou para revelar novos mourões e cercas no espaço. Um dos “lotes”, nesta terça-feira, 4, já estava com um amontoado de pedras que evidenciava a futura construção de alguma edificação.

O cidadão que vive no Loteamento também teme se identificar e ser vítima de alguma represália. Há pouco mais de quinze dias, sua residência foi roubada e levaram televisor, computador e outros pertences. “Se foi esse pessoal ou não, a gente não sabe. Mas aqui no bairro todo mundo se conhece e sabe quem são os moradores. Hoje, a gente já não pode nem deixar mais uma casa sozinha”, lamenta.

Trecho já consolidado evidencia problema social
Seguindo na rua João Corrêa, após o trecho em questão, parte da área verde já foi invadida e forma uma pequena comunidade, que está consolidada há mais de meio ano. Bem próxima ao Arroio São Miguel, a área havia sido limpa de vegetação para o desassoreamento do corpo hídrico. Acabou sendo a porta de entrada para quem precisava de um lugar pra viver. Hoje, seis famílias estão por ali.

“Meu irmão chegou primeiro, aí eu peguei um pedaço pra construir. Depois veio meu outro irmão”, conta a jovem Franciele da Paz, que está há oito meses em uma casa construída na área de preservação. Ela diz que não sabe quem são as pessoas que estão separando os lotes no trecho ao lado e garante que não ouviu nada sobre tentativas de comercialização.

Com pouco mais de 20 anos, Franciele mora com Luana da Silva, que está grávida e perto de ter o bebê. A ida para o local foi questão de necessidade. “Emprego não tá fácil. Montenegro ta muito desvalorizado e uma família não consegue pagar um aluguel”, desabafa Luana. Nenhuma das duas trabalha. Elas contam que estão na lista da secretaria de Habitação da Prefeitura para receber um lar do Município. Nada de serem atendidas.

Por quatro vezes, elas já foram abordadas pela fiscalização municipal, que pediu que elas se retirassem do local invadido. Elas não têm para onde ir, então seguem por lá. O futuro delas e dos outros – alguns moram em casinhas de madeira, outros apenas em barracas de plástico – está nas mãos da Justiça. É que o Município, após as notificações, ajuizou uma ação pedindo a reintegração de posse.

“A gente só quer um canto para ficar, mais nada”, lamenta Luana, temendo os próximos desdobramentos. “Se tivéssemos condições, não iríamos querer passar por tudo isso de, a qualquer momento, a Prefeitura poder vir e retirar a gente. Ao invés de ajudar, só querem diminuir quem não tem condições.”

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