Ensaio de gestante era mostra de um amor que segue vivo para sempre. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL DO CASAL

Mãe de anjos homenageia companheiro, um pai que também merece todo o carinho

Convencionalmente, o Dia dos Pais é data de estar perto, de trocar carinho, de agradecer, de reconhecer. Para muitos, porém, também é data de lembrar daqueles que já se foram. É parte da vida. Parte não só dos filhos recordando dos pais que partiram, mas também parte dos pais que, por algum golpe do destino, tiveram suas crianças levadas de si muito cedo. O termo “Pais de Anjos” se refere a esses pais, que jamais deixam de ser pais, ainda que seus filhos não estejam mais com eles neste mundo.

Nesta semana – correndo com a produção de reportagens e homenagens para a data celebrada neste domingo – a reportagem do Ibiá foi procurada por uma mãe de dois anjinhos. Sandra Claudia Dombrovski, de 33 anos, natural do estado do Paraná, mas moradora de Montenegro, quis homenagear o companheiro de sua vida, o montenegrino Jonathan de Almeida Vargas, de 28 anos.

Ambos passaram, juntos, por uma situação praticamente inimaginável. Daquelas que muita gente prefere afastar da mente, com medo de a simples ideia vir a tornar o medo real. O casal perdeu, cedo demais, os filhos gêmeos Agatha e Brayan. Ela já nasceu sem vida. Ele foi de encontro à irmãzinha poucas horas após o nascimento. “A dor é avassaladora, mas o amor supera tudo. Nós fomos escolhidos por eles para sermos pais”, declara Sandra, cheia de um sentimento grande demais para ser abalado pela morte.

Ao pedir para recordar sua história nesta data – uma história que, acima de tudo, é de força e de muito amor – Sandra lembra de um pai que atravessou, forte, ao seu lado, toda a difícil situação: da alegria da gravidez à tristeza dos primeiros indicadores da saúde dos pequenos, ainda na gestação. Lembra de um pai que, apesar de toda a bagagem que a lembrança traz, merece, tanto quanto os demais, ter a data do domingo lembrada também em sua homenagem.

“Ele que teve que devolver seus filhos, mas que ainda carrega consigo o maior amor do mundo, que é o amor de pai, desse pai incrível, o melhor pai de todos”, diz ela, sobre o companheiro. A história a seguir – ainda muito viva na mente e no coração de ambos – aconteceu entre o município de Montenegro e o Hospital Fêmina, em Porto Alegre, no fim de 2017 e início de 2018. Ela é narrada por Sandra.



“Nós estávamos tentando engravidar há mais de 5 anos. Quando descobri a gravidez foi o dia em que Montenegro foi atingido por um vendaval que destelhou várias casas (no fim de 2017). O Jonathan chorou de felicidade… enfim pai!!

Fui ao médico e na primeira ultra ele não pode ir comigo. A primeira frase do médico foi ‘São dois!’. Eu perguntei ‘como?’; e ele virou a tela e apontou: 1, 2…Sim! Gêmeos. Eu saí do médico muito feliz. Mandei mensagem para o Jonathan. “Tenho uma surpresa!!”. E logo ele me respondeu: ‘São gêmeos!’. Não sei como ele adivinhou. Mostrei a ultra e perguntei como ele soube. ‘Sou pai’, ele disse.

O tempo passou e a barriga foi crescendo. O nosso amor também. Ele conversava e os gêmeos pulavam.

No dia da morfológica, descobrimos a Agatha, a nossa princesa. E quando estávamos esperando outra menina, aparece o ‘pipi’ do nenê. O doutor perguntou a ele qual seria o nome. ‘Brayan’, disse o Jonathan, sem nem pensar. Estávamos realizados! Dois filhos e, ainda mais, um casal.

Tudo indo bem. Eu ficando uma bola.

Até que no dia 27 de fevereiro, numa ecografia de rotina, eu ouvi a terrível frase: ‘Infelizmente, a menina não tem batimentos’.

Morri um pedaço nessa hora. Estava com um bebê vivo e o outro não…

Eles estavam em sacos gestacionais separados, estão eu mantive os dois no ventre. O Brayan precisava crescer. Tinha só 900 gramas. Ai começou nossa luta. Foram exatos 30 dias de idas e vindas do hospital, remédios e mais remédios. O Jonathan sempre junto.

Até que dia 26 de março, bem no dia do aniversário do Jonathan, eu estava internada no Fêmina e ele e minha mãe foram nos visitar. Mas antes deles chegarem, eu entrei em trabalho de parto. Estava com 31 semanas.

Chovia muito. Eu com contrações. Na verdade, meu corpo entendeu que a Agatha não tinha vida e tentava expelir ela. Foi uma noite longa e dolorosa; e o Jonathan não saiu do nosso lado. Amanheceu e eu estava com pouca dilatação. Tomei o remédio de proteção neural e aguardei. Já era o fim da tarde quando o Jonathan falou com a médica e voltou a Montenegro para tomar banho, pois a cesárea era só para o outro dia. Mas antes dele voltar, me levaram para a sala de cirurgia. O Brayan queria nascer.

Não deu tempo do papai estar junto, mas acredito que foi melhor.

A cesárea começou bem, mas, ao abrir, duas médicas não conseguiram achar o Brayan. Ele subiu por ser pequeno. Me cortaram mais; e o doutor q estava próximo a minha cabeça se esticou e pegou o Brayan pelo braço.

Nessa hora, eu pedi a Deus para salvar meu filho e que me levasse, se preciso.

Nasceu. Eu ouvi dois choros e consegui ver ele com a enfermeira. Aqueles olhos de jabuticaba me olhando. Ele sabia que eu era sua mãe. Jamais vou esquecer esse momento.

Levaram ele e retiraram a Agatha para necropsia. Infelizmente, não a vi. Sinto falta de saber como ela era, mas, com todos os medicamentos, ela regrediu a poucas gramas. Meu corpo fez tipo um casulo para proteger o bebê com vida.

Quando eu fui para a sala de pós-parto, chegou o Jonathan com uma médica. Eu sabia que, por ele ser pequeno, o Brayan teria que ir para a UTI Neonatal. Mas aí a doutora falou: ‘Seu filho não vai durar essa noite’.

Meu mundo parou.

Falei para o Jonathan ficar com nosso filho e assim ele fez. Eu carreguei o Brayan por 31 semanas e o papai cuidou dele na UTI Neo.

Assim que uma enfermeira conseguiu me levar, eu fui ver nosso filho.O Jonathan estava lá ao seu lado. Ao ouvir minha voz, ele mexeu a perninha como fazia na minha barriga. Nosso amado! Cantamos, dei carrinho, rezei. Fiquei um tempo com eles e voltei ao quarto. O Jonathan ficou lá. De manhã, voltei a ficar com eles. Os médicos nos falavam o quanto era grave a situação. O Brayan tinha uma hérnia diafragmática congênita e estava com o pulmão esmagadinho.

Ficamos, o Brayan, eu e o Jonathan, juntos uns minutos. Só nós, nossa família, junto com nossa estrelinha, a Agatha.

De novo, cantamos, fizemos carinhos e, por fim, rezamos todos juntos.

Entregamos mais um filho a Deus. O Brayan partiu tranquilo. Sua maninha veio buscá-lo para não se separar dele.

Chamei o médico, nos tiraram da sala e, ao voltar, meu filho estava fora dos aparelhos, sem vida. Ficamos com o Brayan um tempo para nos despedirmos. Quanta dor e amor ao mesmo tempo! Eu queria poder parar o tempo para ficar com ele.

Mas o levaram e eu fui para o quarto. Todos os médicos foram falar comigo, mas eu não queria nada. Nem remédios, nem comida. O Jonathan voltou a Montenegro e cuidou dos preparativos para o enterro. Minha cunhada ficou comigo.

Quando fomos vestir o Brayan na funerária estavam meu pai, minha mãe, os dindos dos gêmeos, eu e o Jonathan. Doía a alma estar lá, mas tivemos a honra de vestir nosso filho e pegar ele mais uma vez.

Foi o Jonathan quem colocou o sapatinho dele. Eu tentei, minha mãe também, mas ele queria o papai. Arrumamos ele com seus bixinhos e muitas flores e levamos ele de carro (um antigo, que certamente ele gostaria, como gosta o pai dele) para o cemitério.

O padre fez uma benção e vi meu filho a última vez.

– – –

O que ficou, pra nós, foi um imenso amor. Nós aprendemos muito com eles. Nos fizeram pais e nós ainda temos o maior amor do mundo, amor que só cresce, mesmo distante.  Temos um céu de distância dos nossos filhos, mas eles vivem em nós…

Carregamos eles nos nossos corações. E o Jonathan, que fez tudo pelos seus filhos, merece muito um FELIZ DIA DOS PAIS… Ele que sempre esteve presente, extremamente carinhoso e preocupado, que sempre foi dois beijos antes de sair, um para cada bebê…

Ele que teve que devolver seus filhos, mas que ainda carrega consigo o maior amor do mundo, que é o amor de pai, desse pai incrível, o melhor pai de todos…

O pai dos anjos, Agatha e Brayan.”



Um amor que fica:

“Eu sou muito feliz por ter sido abençoado por Deus para ser pai de dois anjinhos”

Muito tocado pela lembrança, Jonathan conta que não há melhor presente do que ser lembrado como o pai que é. “Eu começo a falar e me dá vontade de chorar, mas eu sou muito feliz em dizer que eu tenho dois filhos. Eu sou muito feliz em poder dizer que sou pai”, declara. Cheio de carinho, ele recorda que, mesmo antes da notícia da gravidez, por vezes ouvia barulhos que eram como os de crianças correndo e brincando dentro da casa que divide com Sandra.

Em suas recordações, ele bem lembra também do dia e da notícia de que Agatha já não tinha batimentos cardíacos. “Era uma dor tu estar ali conversando, fazendo um carinho na barriga, e a gente saber que um estava ali e o outro já não estava mais”, confidencia. Quando Brayan veio e com ele mais notícias difíceis, Jonathan conta que ainda mantinha as chamas da esperança acesas. “Eu fiquei ao lado dele o tempo todo. Desde a hora em que eu consegui entrar na sala, até o último momento. Eu disse que queria fazer tudo, que era o único momento em que eu poderia estar com o meu filho.”

O casal tatuou os nomes dos filhos nos pulsos. Uma forma, segundo o pai, de homenageá-los

E foi o que esse paizão fez, tendo que lidar com uma dor que não era só sua, mas também da companheira, dia após dia e ano após ano. “Eu tenho que ser forte para ela. Eu sempre converso com ela. Às vezes, ela vê que eu estou triste e ela também me apoia bastante. É um apoiando o outro para nós seguirmos a vida e, se Deus quiser, mais adiante, tentarmos ter filhos de novo”, comenta.

O sonho, ele adianta, é não só ter crianças suas, de sangue, mas também adotar. “A gente também quer dar carinho e oportunidade para uma criança que não tem família. Mas mesmo tendo, nossos ou adotados, os nossos anjos jamais vão ser esquecidos ou substituídos. Eu sou muito feliz por ter sido abençoado por Deus para ser pai de dois anjinhos”, diz. De uma força enorme e corações maiores ainda, ele e a companheira dividem a esperança de um futuro de muito amor, iluminado, agora, pelas duas estrelinhas que brilham no céu e lhes acompanham. Para sempre.

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