O aplicativo de comunicação indicou a chegada de mais uma mensagem. Ao acessar o conteúdo, vi que havia recebido algumas fotos.
É difícil, muito difícil, traduzir uma emoção. Principalmente quando toca naquilo que temos de maior valor.
Em uma das fotos, um avião azul. Rodas grandes e amarelas. A hélice, fixada por um grande parafuso à mostra, também era colorida com a cor solar. Um pouco abaixo do piloto, dois grandes olhos concentrados à frente. O piloto tinha um sorriso simpático, vestia uma roupa vermelha tão berrante quanto a do seu capacete que (confesso) não era nada adequado parapilotar um avião totalmente aberto.
Lembrei das tantas vezes que voamos juntos nele, mesmo que comportasse apenas um passageiro. Não saberia dizer com precisão o número de horas de voo realizadas. No entanto, posso garantir, foram bem mais do que qualquer relógio possa definir. O pequeno avião azul transportou animais, caminhões e até prédios inteiros. Ganhou corridas de caças infinitamente mais potentes. Também era um dos brinquedos inseparáveis nos dias de febre.
O aviãozinho azul foi um dos primeiros presentes que meu filho recebeu na infância. Aquelas fotos do aplicativo tinham acabado de (re)mexer no baú das minhas lembranças. E estavam carregadas de sentimentos.
Cada um se deixa tocar pelas lembranças de uma forma muito única, pois toda lembrança carrega uma emoção.
Mostrei a foto para um colega. Contei que minha esposa estava organizando algumas caixas de brinquedo. Mostrei as outras fotos (da abelha, da tartaruga, do caminhão de bombeiros, do trenzinho) e falei um pouco sobre a história de cada um daqueles brinquedos. Instantaneamente, seus olhos se encheram de lágrimas. Não pude deixar de perceber seu esforço para segurá-las. Um esforço em vão.
Remexer nas memórias do passado traz as mais diversas sensações. Mas é importante lembrar que, a todo momento, estamos produzindo o material para este “baú da vida”. Quase uma cápsula do tempo. Independente do tema: filhos, trabalho, relacionamento.Seja lá o que for. Tempere o “agora” com muito afeto e carinho. Cedo ou tarde este momento será acessado. Por vontade própria ou por uma conversa despretensiosa com um colega.
Coincidência ou não, foi em um avião que meu filho partiu em busca de um sonho. Hoje, o pequeno avião azul e as suas lembranças ajudam a dar conta da saudade e dos mais de dez mil e setecentos quilômetros que nos separam.
E você, o que anda escolhendo para “guardar” nas memórias do tempo?
Paz e bem!

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