Regional Sindical contou com 42 representantes de Montenegro, Brochier, Maratá, Bom Princípio, Harmonia, Tupandi, São José do Hortêncio, São Sebastião do Caí e outras. Foto: Arquivo Pessoal

19ª Marcha das Margaridas, em Brasília, foi pelo respeito e pelo apoio às trabalhadoras

Desde as 7 horas da manhã da quarta-feira, dia 14, as ruas da Capital do Brasil foram tomadas pelas “Margaridas”. Entre elas, 42 flores do Vale do Caí, unidas a mais de 100 mil mulheres do campo, das florestas e das águas Latinas. A presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Montenegro, Maria Regina da Silveira, define a Caminhada das Margaridas como a busca por garantias e por respeito. “A gente só quer nossos direitos. Nenhum direito a menos”.

Montenegro foi representada por Neida Teresinha da Cunha, Maria Regina da Silveira, Graciela dos Santos e Jaciara Maria Müller. Foto: Arquivo Pessoal

Dedicar à terça-feira à preparação do evento e ainda se reunir tão cedo no dia seguinte não foi nada para quem tem como rotina despertar na madrugada, esteja frio ou calor, para se dividir entre tocar uma das atividades da propriedade e cuidar dos filhos. Maria descreveu o ânimo daquela multidão para marchar oito quilômetros sob o calor e a longa estiagem em Brasília. “Só quem participa consegue imaginar o que é a força da mulher”. Irmanadas estavam ainda indígenas, quilombolas e estrangeiras.

Despesas é dividida entre os sindicatos e as agricultoras representantes. Foto: Arquivo Pessoal

“Todas as raças. Todas as etnias”, reforça a presidenta. E a luta é, inclusive, pela manutenção daquilo que já foi conquistado, como o Pronaf Mulher. A reivindicação do benefício através de linhas de crédito se sustenta por uma nova realidade do campo. Maria argumenta que não é anormal encontrar propriedades da região onde o homem está totalmente dedicado à citricultura (ou outra principal), enquanto a mulher toca culturas paralelas.
Exemplo são os integrados de frango, em Tupandi, Harmonia, Montenegro; morangos, em Bom Princípio; mel, em Ivoti; e Lavanda nas cidades de Morro Reuter e Dois Irmãos. A tarefa é divida com a educação dos filhos, que neste caso, de certa forma, têm o benefício de poder ficar em casa e não em uma creche. “As crianças já ficam perto das mães e já conseguem pegar o amor pela terra; e, provavelmente, a sucessão rural”, defende.

Violência também é perturbação

A luta da mulher do campo coaduna com a da cidade na pauta “violência doméstica”. A reivindicação também estava nas mãos e nos rostos das Margaridas. Seja pela violência externa, acentuada pelo fato que acabam ficando sozinhas na sede da propriedade; seja aquela agressão quer parte do seio familiar, inclusive através de palavras. “Ainda existe um pouco de escravidão no campo. Exemplo, ‘lugar de mulher e no tanque e no fogão’”, ilustra Maria. Ela reitera que as mulheres não aceitam mais isso, conscientes de que podem contribuir muito com a sociedade.

Mulheres da regional sindical se caracterizam pelas cores laranja, preto e rosa. Fotos: Arquivo Pessoal

O grupo de 42 agricultoras reuniu representantes da Regional Sindical Vale do Caí, composta por 17 entidades, mas que abrange também alguns municípios mais distantes, como Ivoti e Dois Irmãos. As despesas correram por parte dos sindicatos, mas também muito pelas filiadas, o que limitou bastante a participação. Do Rio Grande do Sul partiu uma caravana de cerca de 500 pessoas para defender o lema nacional “Margaridas na Luta por um Brasil com Soberania Popular, Democracia, Justiça, Igualdade e Livre de Violência”.

América homenageia heroína

Margarida Maria Alves Foto: Arquivo GGN

A Marcha das Margaridas é o maior evento de mulheres da América Latina. Ele leva esse nome em homenagem a Margarida Maria Alves, grande liderança de defesa dos direitos de trabalhadoras e trabalhadores rurais da Paraíba, assassinada em 12 de agosto de 1983. A morte foi encomendada por fazendeiros da região, tendo sido executada por pistoleiros que usaram espingardas calibre 12 para atirar no rosto da vítima, na porta de casa e na frente de seu filho e de seu marido. Ela era presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, e o crime foi motivado pelas denúncias de abusos e desrespeito aos direitos dos trabalhadores nas usinas da região.

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