AGRÔNOMOS têm visões diferentes sobre as liberações anunciadas pelo governo e sobre a real necessidade de uso dos pesticidas na agricultura

Frutas e verduras fresquinhas, com cores vivas e folhas verdes. Normalmente é isso que os consumidores buscam nas gôndolas dos supermercados e nas bancas das feiras. Poucos se importam se, para chegarem ali nestas condições, bergamotas, maçãs ou pés de alface, de couve-flor ou brócolis foram ou não submetidos a vários banhos de produtos químicos que deixam resíduos e podem afetar a saúde de quem os come. A discussão não é nova, mas tem períodos agudos e de latência. A autorização do governo para a venda de novos agrotóxicos reacendeu o debate sobre o assunto e a busca de respostas para uma questão crucial: é possível produzir em grandes quantidades sem o uso dos chamados “venenos agrícolas”?

O Diário Oficial da União registrou, em julho, a liberação de 51 tipos de agrotóxicos no mercado brasileiro. Conforme levantamento do Greenpeace, desde o início do governo Bolsonaro (PSL), 290 substâncias foram permitidas para uso. O número consolida tendência de aumento na aprovação destes produtos desde 2010, sob governo Lula (PT) – com exceção dos anos de 2013 e 2015, na gestão Dilma (PT), quando houve desaceleração na entrada de novos componentes à lista de autorizados no País.

Em 2018, último ano do mandato de Michel Temer (MDB), o País atingiu recorde na liberação de agrotóxicos: 422. O Ministério da Agricultura considera outras 28 substâncias publicadas no Diário Oficial em 1º de janeiro de 2019 como provenientes da gestão passada, totalizando 450. E ainda existem 560 pedidos de registro aguardando autorização para uso no país.

José Lotário Stoffel já produziu citros no modelo orgânico e no convencional. Ele acredita que o uso adequado dos defensivos químicos pode ser um aliado importante dos agricultores

Numa primeira análise, é difícil não cair na tentação de imaginar que caminhamos rapidamente para uma catástrofe. Não há dúvidas de que estes venenos são perigosos, mas o risco não está na quantidade de produtos e, sim, no uso inadequado. A opinião é do engenheiro agrônomo José Lotário Stoffel. Como agricultor, ele experimentou de tudo, da produção orgânica, ainda nos anos 80, à convencional. Estas experiências o levaram a analisar o tema com menos paixão e mais razão. Segundo Stoffel, há situações em que os agrotóxicos podem ser importantes aliados, sem maiores riscos ao ecossistema. “Desde que seu uso seja moderado e respeitando as indicações de especialistas no setor”, ressalva.

Para o engenheiro agrônomo, não é correto discutir os defensivos químicos de forma isolada. “A própria agricultura em si, desde os primórdios, é uma interferência do homem na natureza”, explica. O fato de o ser humano ter se tornado preponderantemente carnívoro, obrigou a sociedade a fazer altos investimentos na produção de proteínas. Estes processos exigem grandes quantidades de cereais e água. “Os agrotóxicos são importantes para garantir a produção no tempo e na quantidade necessários, para que haja alimentos para todos”, observa.

Stoffel alerta, contudo, que não se pode abrir mão de cuidados com o solo e o lençol freático. O uso de agroquímicos também não deve ocorrer em volume que deixe resíduos nos alimentos. “São controles que precisam ser feitos. As pessoas devem procurar entender que, em geral, o produtor usa as quantidades que lhe são recomendadas, pois esses defensivos são caros e oneram a produção. Ninguém está disposto a rasgar dinheiro”, sublinha. “Além disso, em nossa região, as famílias do agricultor consomem o que é produzido nas propriedades.”

Quanto à composição dos agrotóxicos, ela é variada. Um dos mais comuns na região, empregado no manejo dos pomares, visa o controle das moscas e sua estrutura se assemelha a dos inseticidas domésticos. Em termos de risco, a aplicação ao ar livre é muito menos perigosa do que dentro de casa e não há notícias de que alguém tenha se intoxicado pela inalação do produto num quarto ou na sala. Lógico que existem alimentos mais suscetíveis à contaminação. Culturas de ciclo longo, como os citros, representam menor risco, pois o hiato que separa a pulverização do consumo geralmente é maior. Já nas hortaliças e nos legumes, com processos produtivos mais curtos, o perigo é potencialmente maior. “Sem dúvida que o ideal seria produzir tudo de forma orgânica, mas entendo que existem situações em que a própria atividade se tornaria inviável no aspecto econômico”, afirma Stoffel.

Além das pragas, os agricultores ainda precisam lidar com outras ameaças, especialmente as ligadas ao clima, o que torna a produção de alimentos uma atividade de altíssimo risco. Nesse contexto, afastar insetos e doenças por meio dos agrotóxicos costuma ser a forma mais simples de reduzir os riscos. Para coibir os abusos, o remédio é pressionar o governo a investir em mecanismos de controle e na disseminação da informação. “O consumidor precisa saber o que está comprando, para fazer uma escolha consciente”, defende o engenheiro agrônomo.

Uma nova molécula
Segundo o Ministério da Agricultura, a liberação de novos agrotóxicos no Brasil não significa que esteja ocorrendo uma invasão de venenos na produção primária. Por trás disso, existe uma guerra comercial entre os grandes fabricantes, que movimentam bilhões de Reais no “celeiro do mundo”. Neste ano, foram registrados muitos agrotóxicos, sendo apenas uma molécula nova. O restante, conforme o MA, são genéricos, ou seja, versões mais acessíveis de pesticidas já testados e comercializados em larga escala no Brasil há anos.

A ministra Tereza Cristina chegou a dizer, em entrevistas à imprensa, que a liberação beneficia os produtores das mais diferentes culturas, pois há uma tendência de queda nos preços dos defensivos por conta do aumento da concorrência. “É incorreto afirmar que os produtores vão utilizar mais substâncias no campo. Como resultado das liberações de genéricos, eventualmente, o que pode ocorrer é uma substituição de produtos”, alega.

Felipe Jasinski defende o cultivo orgânico e acredita que, com o tempo, as barreiras impostas pelos países que compram a produção nacional vão obrigar o agricultor a reduzir o uso de agrotóxicos na maioria das culturas

“Todas as culturas podem ser convertidas para o sistema orgânico”
Entre os profissionais da Agronomia, o uso de produtos químicos nas lavouras sempre provocou enfrentamentos. Se, de um lado, há quem os considere aliados para garantir a produtividade e a renda nas propriedades, não faltam engenheiros condenando seu uso em qualquer circunstância. Neste segundo grupo, milita o paranaense Felipe Ricardo Godoi Jasinski, que atualmente mora em Montenegro e atua na certificação orgânica de propriedades rurais.

Felipe inicia a defesa de sua posição com um argumento lógico. “Os agrotóxicos não tratam a causa dos problemas”, explica, ressaltando que as pragas danificam as lavouras porque o solo já não possui os nutrientes necessários, o que torna as plantas mais suscetíveis aos ataques. “Nesse contexto, o veneno surge para acabar com o inseto ou com os microorganismos que comprometem a produção, mas não corrige o ecossistema e, na próxima safra, tudo se repete”, aponta. A tendência, inclusive, é de que a situação piore, pois as pragas adquirem resistência aos agroquímicos, o que obriga o produtor a, ano após ano, lançar mão de artigos mais tóxicos.

No sistema de produção orgânica, o processo inicia pelo meio ambiente, com a identificação das carências de nutrientes que podem ameaçar as culturas. “Então se faz a correção primeiro e isso produz plantas mais fortes, naturalmente mais resistentes. A vantagem é que haverá menos custos na produção, porque os venenos são caros, e as frutas e hortaliças estarão livres de resíduos tóxicos, perigosos à saúde”, ensina Felipe. Além disso, o preço ao consumidor tende a ser maior, pois vem crescendo o número de pessoas dispostas a pagar mais por frutas e verduras “limpas”.

Felipe admite, porém, que simplesmente suspender o uso dos agrotóxicos de uma hora para outra seria trágico para agricultura. As pragas dizimariam as culturas e haveria fome. “O correto é a adoção de processos de conversão, mais ou menos longos, dependendo de cada situação”, sugere. “Todas as culturas podem ser convertidas, mas é necessário planejamento”, alerta.

Sobre as liberações feitas pelo governo ao longo do ano, o engenheiro agrônomo entende que representam um equívoco. Ele admite que, em alguns casos, com a multiplicação de marcas, pode até haver redução nos preços, mas teme que, justamente por isso, também mais agricultores se sintam estimulados a adotá-los. “Tanto a adubação quanto o enfrentamento das pragas pode ser feito com produtos e tecnologias limpas, mas essas informações são pouco difundidas”, lamenta.

Aliás, Felipe observa que muitos agricultores usam veneno demais por falta de orientação. Como as estruturas públicas de extensão rural – como a Emater – têm cada vez menos profissionais, o produtor acaba acatando as recomendações dos vendedores de defensivos. “E estes têm interesse em vender cada vez mais”, ataca.

Com tempo, o engenheiro agrônomo acredita que o uso dos defensivos químicos na agricultura brasileira diminuirá. Não por um aumento da consciência ambiental, que o próprio governo sabota ao abrir caminho para novos venenos, mas por causa da pressão internacional. “Diversos países para os quais já vendemos nossa produção estão levantando barreiras. Vamos aprender da forma mais difícil: pelo bolso”, projeta.

Nos pomares de citros, característicos da região, há uso intensivo de agrotóxicos. Por outro lado, a produção orgânica vem crescendo

Saiba mais
– Segundo documento elaborado pelo Greenpeace, dos 51 itens autorizados em julho, 18 são extremamente ou altamente tóxicos.

– Levando em consideração os 290 produtos liberados em 2019:
41% (118) são considerados extremamente ou altamente tóxicos.
32% são proibidos na União Europeia

– Levando-se em conta os sete primeiros meses do ano, 2019 tem recorde na aprovação de agrotóxicos no Brasil. O ano que teve maior volume até então, 2018, teve 229 substâncias aprovadas pelo governo – 21% a menos do que no período atual.
– O número de agrotóxicos aprovados por ano no Brasil, desde 2010, é este para o período janeiro e julho (em parênteses, o consolidado de cada ano):
2019: 290 produtos;
2018: 229 produtos entre janeiro e julho (422 no ano);
2017: 195 produtos (405 no ano);
2016: 103 produtos (277 no ano);
2015: 86 produtos (139 no ano);
2014: 61 produtos (148 no ano);
2013: 66 produtos (110 no ano);
2012: 93 produtos (168 no ano);
2011: 61 produtos (146 no ano);
2010: 45 produtos (104 no ano).

Existem alternativas
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) defende que um controle efetivo de pragas implica em uma criteriosa análise de cenário e na busca por soluções mais eficientes. Isso geralmente resulta na utilização de uma combinação de tecnologias. Ou seja, os defensivos são uma das opções à disposição dos agricultores, mas não são a única.
Um bom exemplo é o manejo integrado de pragas, que reduz aplicações de defensivos em quase 50%, segundo dados da própria Embrapa. Outras ferramentas combinam os métodos de controle cultural, mecânico, físico e biológico. Alguns exemplos:
– capina;
– rotação de culturas;
– destruição de restos da cultura contaminada por pragas;
– alteração da época de plantio ou colheita;
– a poda ou desbaste;
– adoção de cultura armadilha;
– destruição de hospedeiros alternativos;
– uso de armadilhas físicas;
– manutenção dos inimigos naturais;
– controle biológico.
O defensivo agrícola, segundo os técnicos da Embrapa, deve ser usado quando um ou mais desses métodos não se mostrarem eficientes o bastante para evitar a perda de produtividade. E, mesmo assim, cercado de cuidados.

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