A venda de artesanato pelas ruas da cidade é fonte de renda e faz parte da cultura indígena

Assunto foi abordado durante reunião ontem, quando a Funai também esclareceu algumas das diferenças culturais

AMORETI Tavares, da Prefeitura; cacique André Fongue; Jorge Carvalho, da Funai, e Lucianita, do Conselho Tutelar

A necessidade de um espaço na Praça Rui Barbosa para os índios venderem seu artesanato em Montenegro esteve em pauta ontem. A desinformação sobre a cultura e hábitos indígenas também foi motivo do encontro organizado pelo Conselho Tutelar e que contou com a participação de representantes da Prefeitura, Polícia Civil, cacique dos Kaingangs, e da Fundação Nacional do Índio (Funai).

A coordenadora do Conselho Tutelar, Lucianita Moreira Menezes, abriu a reunião observando a necessidade de um local destinado à exposição e venda do artesanato. Ela salientou, porém, que era preciso uma definição imediata, lembrando que outras reuniões já abordaram o assunto sem que houvesse uma ação concreta. Embora a sua insistência, essa definição ficou para a próxima semana. A partir da ata do encontro, será formatado um ofício com essa reivindicação e encaminhado à Prefeitura e à Câmara Municipal.

Foi mencionada a possibilidade de venda de outros produtos indígenas, além do artesanato já conhecido dos montenegrinos. Essa medida, no entanto, dependerá de análise legal. O diretor de fiscalização da Secretaria Municipal da Indústria e Comércio (Smic), Jackson Santos, esclareceu que há queixas dos lojistas em relação à venda por ambulantes na cidade, mas afirmou que essas reclamações não incluem o trabalho artesanal dos índios. Representando o prefeito Luiz Américo Alves Aldana, Amoreti Tavares, afirmou que a Prefeitura está aberta ao diálogo e obsrevou a importância de tudo ser bem detalhado no documento.

O coordenador da Funai, Jorge Carvalho, afirmou que 36 mil indígenas recebem acompanhamento da fundação no Rio Grande do sul. Eles vivem em terras repassadas pela União, mas em quantidade insuficiente para seu sustento. Em Tabaí, de onde vem boa parte dos índios que circulam em Montenegro, são seis hectares para 20 famílias. “É pouco”, analisa Carvalho.

Com pouca terra para plantar, o artesanato é uma alternativa de renda. E nesta época, devido à proximidade da Páscoa, há maior demanda principalmente por cestas, razão pela qual deve aumentar a circulação de indígenas na cidade. “É quando eles aproveitam para vender mais”, observou o técnico da Funai.

“Os índios não terceirizam cuidado com os filhos”
O coordenador da Funai, Jorge Carvalho, relatou alguns aspectos sobre a cultura e costumes dos povos indígenas que nem sempre são entendidos pelos demais cidadãos. A circulação de pais com suas crianças pela cidade, vendendo artesanato pelas ruas e sentando nas calçadas tem chamado a atenção dos montenegrinos há muito tempo e levantado dúvidas. “Os índios não terceirizam o cuidado com os filhos”, observa. Por isso, quando vão trabalhar vendendo artesanato, eles levam as crianças junto. Ou seja, na sua forma de vida, não há possibilidade de deixá-los em uma creche ou mesmo com alguém na aldeia.

Também foi esclarecido que sentar na calçada e acomodar a criança em cima de um cobertor, por exemplo, não significa falta de cuidado. Para os índios, essa é uma forma natural de zelar por suas crianças, que acompanham e aprendem a trabalhar com os pais desde muito cedo.

Por desconhecimento sobre essas diferenças culturais, o Conselho Tutelar já recebeu cobranças de uma atitude perante a situação das crianças. Lucianita Moreira Menezes esclarece, no entanto, que essa situação está dentro dos costumes indígenas. Além disso, acrescenta que, havendo necessidade de uma abordagem junto a essas crianças ou seus pais, não cabe aos conselheiros, mas à assistência social do município.

Tendo em vista a tendência de maior circulação dos índios com artesanato nesta época de Páscoa, Carvalho esclarece que isso não significa que as crianças ficam sem frequentar as aulas. Em consideração aos costumes indígenas, elas têm um calendário escolar diferenciado, tendo em vista este período quando índios, não só em Montenegro, mas também em outras cidades, costumam trabalhar mais com seu artesanato.

Saiba Mais
A partir dos relatos e necessidades apresentadas na reunião, será redigido um documento para ser enviado à Prefeitura e à Câmara.

O texto deverá abordar a definição de um espaço na Praça Rui Barbosa para venda do artesanato indígena.

Também foi mencionada a possibilidade de um local para que eles possam dormir enquanto estiverem na cidade ou para que guardem seu artesanato, evitando que tenham que carregar diariamente quando voltam para casa.

Também foi cogitado verificar se existe a possibilidade legal deles receberem algum tipo de auxílio de Montenegro, como cestas básicas, mesmo morando originariamente em outros municípios.

 

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