Idete mostra a foto dos pais, com quem aprendeu o ofício de parteira

AMOR ao próximo. A história da senhora que trouxe crianças ao mundo e auxilia idoso antes da partida

Durante as calamidades é comum aparecerem pessoas interessadas em fazer uma boa ação e ajudar ao próximo. O mesmo costuma ocorrer em épocas que mexem com o lado emocional da sociedade como, por exemplo, o Natal. Contudo, encontrar um ser humano que dedicou praticamente a vida inteira a cuidar do outro é coisa rara.

Em Montenegro, mais precisamente na rua Jari, no bairro Municipal, dona Idete da Silva, de 88 anos, mostra que não é preciso ser alfabetizada, dentro de quatro paredes de uma escola, para dar lição de vida. Como parteira perdeu as contas de quantos viu nascer. Hoje em dia, zela pelos idosos do seu bairro para que eles tenham um fim de vida mais humanizado.

Idete é mãe de cinco, gerados em seu ventre, um adotado formalmente, e dezenas de “filhos do coração”. Viúva, ela dedica seus dias a fazer o bem a quem precisa, seja de um carinho ou de algo material. Para ela, a dedicação ao próximo é o grande segredo de sua vitalidade e saúde. “Eu nunca fico parada. Mente vazia atrai maus pensamentos”, comenta.

Com as mãos cheias de álbuns fotográficos, ela recorda o tempo em que estas eram usadas para fazer partos, oficio que aprendeu com os pais. Seu Teófilo de Azeredo era autorizado, pelo setor de saúde do Município, a prestar o serviço às grávidas. No começo ele levava a esposa, até que um dia resolveu convidar a filha para assistir o processo. Após ver vários bebês serem “trazidos ao mundo” pelo pai dela, incentivada por ele, Idete resolveu fazer o mesmo.

Ela tinha 35 anos quando realizou o primeiro parto. Ser chamada pelos maridos das vizinhas quando elas entravam em trabalho de parto era algo normal. Antes de se mudar para a cidade, Idete morou em localidades como Serra Velha e Sobrado. No interior, muitas vezes a cama dela serviu de maca para o nascimento dos bebês. Em contrapartida, passou muitas noites dormindo apenas com o pelego que usava para cobrir seu cavalo. Isso porque o meio de transporte usado para ir até as casas era o animal e quando ficava tarde ela se encostava em qualquer canto da residência e descansava por lá mesmo.

Nisso tudo, a única queixa de Idete é não ter contado quantos partos fez. “Teve uma vez que três mulheres começaram a sentir contrações no mesmo dia. Uma ganhou por volta das 15h a outra às 20h e a última ficou para o dia seguinte. Duas eu levei pra minha casa, pra cuidar melhor”, lembra.O conhecimento aumentou e ela chegou a auxiliar conhecidos médicos da cidade. A confiança dos profissionais era tamanha a ponto de permitir que fizesse tudo sozinha.

A mãe de muitos filhos sempre estendeu os braços para mais um
Idete sempre foi apaixonada por crianças. Ela teve cinco filhos: Edi, Eri, Judite, Ciro e Vera da Silva. Contudo, em seu coração e em sua casa, sempre existiu espaço para mais alguns. Certa vez ela soube que um recém nascido havia sido deixado no hospital. A mãe do pequeno combinou de dá-lo para um casal, mas quando a criança nasceu o acordo foi desfeito.

Foi então que Idete decidiu que teria seu sexto filho. Naquela época, a burocracia para adoção não era tão grande e ela saiu do hospital com o bebê nos braços. O nome dado a ele foi Joni. “Eu tenho um amor tão grande por ele e ele por mim. Todos os meus filhos são especiais, mas com ele tenho uma relação diferente”, destaca.

As memórias de dona Idete estão registradas nos vários álbuns de fotografias que ela guarda há décadas

Acompanhar o crescimento dos filhos nunca impediu Idete de ajudar quem precisava. Ela não freqüentou escolas, mas usou livros para se auto-alfabetizar. E quando aprendeu a ler e escrever, resolveu compartilhar conhecimento. Ela reuniu crianças com dificuldade de aprendizagem e passou a dar aulas de reforço para eles. “Eles já estavam há cinco anos na escola e não conseguiam aprender a ler. Eu tinha que fazer alguma coisa”, conta.
Os alunos de Idete eram recebidos embaixo de uma árvore da espécie salseiro. A falta de conforto não impediu que as crianças entendessem o método de leitura da voluntária. A senhora conta com orgulho que uma das meninas continuou estudando e se tornou professora.

Quando se mudou para a cidade, Idete logo fez amizades. Não demorou muito para que conhecesse e fosse conhecida por, praticamente, todos no bairro. Ela começou a fazer parte dos grupos de orações da Igreja Católica e a se envolver com ações comunitárias. Nessa nova fase, as festas para crianças passaram a ocupar seu tempo. Contudo, quando um adulto ficava doente ou precisa de um apoio emocional ela batia na porta para levar consolo e uma oração, como faz até os dias de hoje.

Independência e solidariedade
No auge dos seus 88 anos, Idete mantém sua total independência. Ela não precisa de ajuda para nada, ao contrário, presta serviço voluntário ajudando a cuidar de muitos idosos do bairro. Ela já cuidou de uma senhora de 92 anos. “Todos os dias eu ia à casa dela, dava banho e tratava um problema que ela tinha na perna. Uma vez ela quis me pagar, mas eu não fazia por dinheiro”, lembra a aposentada. Durante os dois últimos anos de vida, a senhora contou com total atenção de Idete.

Atualmente, a voluntária se divide para dar atenção a todos os idosos, do bairro, que precisam. “Faço mingau, café, cuido dos ferimentos e conversamos muito. Eles se distraem e eu também”, detalha. Para Idete, não existe tempo feio quando alguém precisa de ajuda. “Se por algum motivo eu estou em casa chorando, quando saio pelo portão abro um sorriso. A gente não deve mostrar cara feia para os outros”, conclui.

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