O tradicionalista Ubirajara Pires em dois momentos: hoje e declamando poemas nos festivais gaúchos

“Brotei do ventre da Pampa
que é Pátria na minha Terra.
Sou resumo de uma guerra
que ainda tem importância.

E, diante de tal circunstância,
Segui os clarins farroupilhas
E devorando coxilhas,
Me transformei em distância.
Sou do tipo que numa estrada
Só existe quando está só.
Sou muito de barro e pó.
Sou tapera, fui morada.
Sou a velha cruz falquejada
Num cerne de curunilha.
Sou raiz, sol farroupilha,
Renascendo estas manhãs,
Sou o grito dos tahas
Coejando sobre as coxilhas.”

Estes são os primeiros versos da poesia “Eis o Homem”, de Marco Aurélio Campos, que o tradicionalista Ubirajara Pires já declamou tantas vezes que perdeu a conta. É uma de suas favoritas, embora, há até pouco tempo, tivesse arquivadas na memória outras 63. Sabia todas, “de cor”, mas esta, em especial, sempre ocupou um cantinho especial no coração. Talvez porque ele, como o personagem do poema, já devorou muitas coxilhas e, aos 76 anos, continua sendo “raiz, sol farroupilha”.

Foi com a alegria de se ver reconhecido e a modéstia de quem acredita que outros “mereciam mais” que Pires recebeu uma grande notícia. Ele é o homenageado da Semana Farroupilha deste ano em Montenegro. Envolvido com a cultura rio-grandense desde os 13 anos, “Bira” foi instrutor de dança – com apreço especial pela chula – e declamador. Participou de várias entidades e 28 competições, onde conquistou 26 primeiros lugares. Um dos mais significativos foi o primeiro lugar no Festival Gaúcho de Arte e Tradição (antigo Fegart, hoje Enart), em 1983. Representando o CTG Estância do Montenegro, arrebatou a plateia e os jurados recitando “Canto de adeus para um peão de Estância”, de Apparício Silva Rillo.

O ingresso no meio tradicionalista se deu ao acaso. Em 1956, Bira tinha 13 anos e foi a uma festa, em Frederico Westphalen, na qual alguns convidados discutiam a criação de um CTG. “Meu nome consta na lista de fundadores da entidade, que recebeu o nome de CTG Alferes Epifânio”, recorda. A primeira ata foi redigida a lápis, num papel de pão. Na época, tudo era relativamente novo neste meio e o rapazola foi enviado a Passo Fundo para aprender as danças gauchescas. “Depois que o curso terminou, eu passei a ensinar aos outros”, explica.

No começo, o tradicionalismo era mal visto por muita gente. Bombacha era coisa de grosso. “Demorou muito para as pessoas aprenderem que, dentro dos CTGs, não se cultua apenas a história e as tradições, mas também as virtudes. Que ali as pessoas se respeitam”, afirma. Aliás, a mudança de status demorou a ocorrer. “Nos anos 80, eu e meus amigos, quando saíamos pilchados aqui em Montenegro, levávamos junto um relho, que a gente passava em quem debochava e ofendia”, revela.

Assim mesmo, como “resumo de uma guerra” na voz do poeta, Ubirajara é um dos pioneiros do cultivo das tradições. Não é refratário a novidades, mas despreza modismos. Não vê problemas em gays e lésbicas dançarem nas invernadas, desde que “se comportem” e não desfraldem bandeiras. Nada de “tchê music” e de passinhos de funk no meio do salão. Todos os ritmos, a indumentária e a linguagem que caracterizam o MTG são fruto de pesquisas históricas. “Conservá-las é o nosso papel”, define.

Pai, jogador de futebol, servidor público e radialista
Nascido na localidade de Coleiras Perdidas, em Palmeira das Missões, Ubirajara Pires campeou muitas léguas, “engolindo o pó da estrada”. Na infância, por contingências familiares, morou em Frederico Westphalen, depois em Santo Augusto e serviu ao Exército em Uruguaiana. Na juventude, jogou bola e foi um atacante agudo em equipes de Passo Fundo, Lagoa Vermelha e de Francisco Beltrão, no Paraná. Contudo, uma lesão tirou Bira dos gramados precocemente. Aos 25 anos, quebrou o joelho e teve de parar. “Eu era bom, marcava muito gol”, garante.

Em 8 de setembro de 1967, o tradicionalista “amarrou o pingo” pela primeira vez em Montenegro. Era funcionário da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) e, nesta condição, acabou pegando a estrada novamente em 1971. Foi cedido para várias prefeituras, como as de Ijuí e Tenente Portela. Nesse tempo, ajudava a fazer a contabilidade dos órgãos públicos, acumulando tarefas também nas cidades de Braga e Miraguaí. A volta a Montenegro ocorreu em 1982. “Aqui vão enterrar meus ossos”, espera.

Durante um baile de CTG, em 1972, Pires conheceu uma “prenda de Redentora”. O coração bateu mais forte pela jovem Nelci, a Kika”, e os dois acabaram casando. Ele, que “não cozinhava na primeira fervura”, já tinha um filho, Luiz Eduardo. E, da união, vieram mais quatro: Ubiraci, Cristina, Cristiano e Patrícia. Além disso, o casal ainda criou mais duas crianças, os irmãos Marcos e Maria Schons.

Depois de encerrar a carreira como servidor público, Pires ainda ocupou cargos na Prefeitura e, há oito anos, mantém um programa sobre tradicionalismo na Rádio Montenegro FM. O Charla Galponeira vai ao ar aos sábados, das 7h às 10h, promovendo a cultura gaúcha. É mais uma contribuição desse tradicionalista de quatro costados à história do Rio Grande.

Pinga-fogo
Convidamos o homenageado da Semana Farroupilha, Ubirajara Pires, a dar sua opinião, em poucas palavras, sobre alguns temas que fazem a temperatura subir dentro do Movimento Tradicionalista Gaúcho:

– Prêmios em dinheiro nos concursos: “Problema nenhum. São artistas e devem ser pagos.”

– Culto às revoluções: “Melhor cultuar as tradições”.

– Faca e revólver na pilcha: “Revólver, sou contra porque não faz parte da indumentária gaúcha. A faca, sim”.
– Cuia de porcelana: “Que barbaridade. A cuia tem que ser de porongo”.

– Enfeites no chimarrão: “Não me gusta”.

– Mate de leite: “Quando se coloca um pouquinho de funcho no leite para tomar, é bom”.

– Mulher de bombacha: “Um horror, mulher tem que usar vestido”.

– Teixeirinha: “Um grande nome da música regional gaúcha. Era bem afinadinho”.

– Guri de Uruguaiana: “Um horror. Pode parar…”

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