Com muita fé, comemoração é tradição e faz parte da história de Montenegro

A festa em honra de Nossa Senhora dos Navegantes ocorre em Montenegro há mais de 100 anos. Por tradição, ela acontece sempre no primeiro final de semana de fevereiro, próximo data oficial de homenagens à santa, que é dia 2. Já neste sábado (3), por volta das 16h, a imagem de Nossa Senhora sairá da Capela de Porto dos Pereiras – que tem o seu nome – e será levada, em procissão, até a Catedral São João Batista, no Centro.

NESTA IMAGEM, de 1971, uma das edições da procissão quando ela ainda ocorria pelo Rio

No domingo, a Catedral sedia uma missa em sua honra, das 7h às 8h. Após, uma procissão acompanha a imagem até o Cais do Porto das Laranjeiras, em um dos momentos mais celebrados e emocionantes da tradicional festa. É ali que muitos fiéis fazem pedidos e dão graças a Nossa Senhora. Do Cais, a procissão segue – agora em um percurso mais longo – até a localidade de Porto dos Pereiras. Lá acontece uma nova missa, às 10h, e é feita a devolução da imagem para a capela que lhe foi designada no município.

Às 11h30, começa a ser servido um almoço e, na parte da tarde, as bandas San Diego e Musical Cia Ideal devem animar os presentes que, com alegria, celebram este momento de fé. As refeições estão sendo vendidas por R$ 30,00 e podem ser adquiridas pelo número (51) 999.284.899 com antecedência. Todo o valor arrecadado é revertido em melhorias para a capela e o pavilhão da localidade.

Trabalhando com dedicação para celebrar Nossa Senhora
O casal José de Souza, 55 anos, e Maria Isabel de Souza, 53, trabalha há anos na manutenção da Capela Nossa Senhora dos Navegantes, em Porto dos Pereiras, e na organização da festa de fevereiro. Eles realizaram a atividade por cinco anos, pararam por quatro e assumiram novamente a função já há mais cinco anos. “É porque a gente gosta e pela fé. Se não fosse a fé, nós não estaríamos aqui”, explica José.

Nos últimos dias, eles têm trabalhado incessantemente para a realização do evento. “A gente procura fazer o máximo que a gente pode e a comunidade por aqui é muito unida. Todos se ajudam”, afirma Maria Isabel. Ela conta que, além do almoço e do baile, também está sendo vendida uma rifa – com itens doados por empresários locais – que será revertida em fundos para a capela. Serão sorteados um forno elétrico, um multiprocessador, uma batedeira, um liquidificador e uma torradeira.

Antes da festa do final de semana, ocorre o tradicional tríduo, que é uma série de três missas na capela para convidar a comunidade para a celebração. “São uma preparação da comunidade, nas três semanas antes. Para cada uma, nós convidamos um padre diferente”, explica José. Neste ano, as duas primeiras aconteceram nos dias 18 e 25 de janeiro. A última está marcada para esta sexta-feira, às 20h.

Envolvido nas edições anteriores, José conta que, em média, cerca de 3.000 pessoas se reúnem no domingo de celebração. A comunidade de Porto dos Pereiras comparece em peso e muitos dos demais montenegrinos também. O organizador aponta, ainda, que moradores de cidades vizinhas, como Novo Hamburgo, Capela de Santana, Brochier e Pareci Novo também costumam participar das festividades. “É uma festa muito tradicional”, avalia, orgulhoso, o organizador.

Conduzindo pelo mar da vida

HÁ DEZ ANOS que o casal se dedica ao cuidado da capela e à promoção

Pároco da Catedral São João Batista, padre Diego Knecht explica que a devoção e as festividades de Nossa Senhora dos Navegantes datam da época das grandes navegações saídas de Portugal e Espanha. “Eles pediam a interseção de Nossa Senhora para chegarem ao seu ‘porto seguro’. Com isso, ela ficou conhecida como a estrela do mar, aquela que conduzia e iluminava o caminho”, conta.

O padre relata que os barcos da época, normalmente, continham inscrições com a imagem da santa e também mantinham aceso um lampião durante toda a viagem, para demonstrar a sua presença. Foi essa devoção relacionada às navegações que levou à criação das paróquias dedicadas a Nossa Senhora dos Navegantes em todo o Brasil – colonizado pelos portugueses – principalmente nas cidades que se desenvolveram próximas do mar ou de rios, como é o caso de Montenegro.

Com a perda da força da navegação no município, no entanto, o Padre Diego explica que a devoção assumiu uma outra conotação entre os fiéis. Hoje a santa que conduz o povo para que possa navegar com segurança e iluminação pelo mar da vida. E é a esta crença que muitos se apegam.

Festa se funde com a história

A imagem de Navegantes tem um
lugar especial na casa de Lourdes

Porto dos Pereiras, como diz o nome, nasceu às voltas de um porto. Ali, os produtores de frutas – principalmente de citros – carregavam as embarcações e iam até Porto Alegre para comercializar os produtos e, assim, ganhar a vida. Na época, não existia Ceasa e o tráfego por terra não era vantajoso, pois as estradas existentes tinham más condições. Era uma comunidade de navegantes e, por isso, a devoção a Nossa Senhora ali se enraizou.

Quando começaram os investimentos nas vias terrestres, o transporte fluvial foi perdendo espaço. Mas a fé na santa seguiu e, por muitos anos, a própria procissão continuou pelo Rio Caí. “Era muito bonito, ela vindo pelo rio”, relembra a aposentada Lourdes Mello da Silveira. De seus 81 anos de vida, 58 foram vividos em Porto dos Pereiras. Em todos estes anos, ela acompanhou as celebrações.

Saudosa, ela recorda o caminho da santa, que, toda enfeitada, saía da Igreja Matriz (atual Catedral São João Batista) e ia até o Cais do Porto das Laranjeiras, onde era colocada em uma embarcação. Nos festejos, muitos seguiam em seus próprios barcos, dando graças. Lourdes e a família também participavam, todos juntos.

A aposentada conta que, quando o esposo – hoje falecido – era criança, foi o pai dele um dos construtores da Capela Nossa Senhora dos Navegantes. Em parceria com vizinhos, o senhor Comerindo Veríssimo da Silveira trazia material de sua pedreira para a construção. Todo o material era transportado com carretas de bois.

A missa e as festividades da santa, por muitos anos, ocorriam em campo aberto. “Era muito lindo. Quando solteira, eu já tinha ido uma ou duas vezes. Depois eu ia com a criançada, tudo pequeno. O vô ajeitava a carreta e a gente ia para a festa nos potreiros”, relata Lourdes. Ela o marido tiveram sete filhos.

As histórias da família e a da festa de Navegantes se misturam e vão muito além da construção da capela. Por anos, o casal, e depois alguns dos filhos, ficou responsável pela organização do evento. Duas filhas, até hoje, cantam na igreja – prática incentivada pelos pais quando ainda eram pequenas.

Hoje, uma imagem antiga de Nossa Senhora dos Navegantes, que era levada de casa em casa na comunidade, foi destinada ao lar dela. Ali, ganhou um lugar especial, à vista para todos os que visitam a residência. “Foi uma alegria quando deixaram ela aqui”, declara. “Eu sempre fui devota e tenho muita fé nela.”

Caminhada de agradecimento por graças alcançadas

JOSÉ pediu pela saúde da filha e da neta

São cerca de 6 quilômetros entre o Cais do Porto das Laranjeiras e a Capela Nossa Senhora dos Navegantes, em Porto dos Pereiras. Alguns acompanham a imagem de carro. Muitos, no entanto, fazem o percurso a pé. São fiéis que caminham, orando em agradecimento por alguma graça alcançada e também pedindo por saúde, paz e luz em suas vidas.

O auxiliar de serviços gerais José Inácio Steffens foi caminhando nos últimos três anos. Em 2017, ele conta, foi o mais marcante de todos. Sua filha, grávida, teve problemas de saúde e apresentou risco de aborto. Muito devoto, o morador de Porto dos Pereiras pediu com fervor à Nossa Senhora pela saúde da filha e da neta, ainda no ventre. Tudo acabou bem.

NO REGISTRO, de 1925, fiéis seguiam pela Rua Ramiro Barcelos em direção ao cais

Durante a procissão do ano passado, lá estava José, aos 49 anos, acompanhando a pé a imagem de Navegantes. Ele empurrava a sua bicicleta e, em cima dela, a neta Sofia o acompanhou – a maior graça que ele poderia pedir. “Eu vim a pé, com ela sentadinha na bicicleta”, lembra. “Viemos bem tranquilos. Eu tô acostumado na lida, então não foi difícil de caminhar.” O montenegrino se surpreende, no entanto, que muitas pessoas de mais idade também façam o percurso. Todos movidos pela fé.

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