A um passo da vida adulta, adolescentes devem pesar muita coisa para tomar a melhor decisão sobre o seu futuro

“O que você quer ser quando crescer?” É certo dizer que todas as pessoas já ouviram esta pergunta. A resposta, na infância, sai fácil. Expressa uma visão sonhadora do mundo e do futuro. Com o tempo, o questionamento ganha tons mais complexos. E é no final do Ensino Médio, à beira da formatura, que a questão vira realidade e a sociedade cobra uma resposta concreta. Nesta época, somam-se dúvidas, expectativas e pressões na cabeça de adolescentes dando o primeiro passo para a fase adulta.

Prestes a se formar, William Souza está confiante na escolha. foto: Acervo Pessoal

Cada um tem sua forma de lidar com a situação. William Souza, prestes a se formar na Escola São João Batista, já teve vários sonhos de profissão. Quando pequeno, dizia que queria ser bombeiro. Aos 12 anos, o amor pela culinária despertou o desejo de ser chefe de cozinha. Hoje, com 19, ele já está matriculado para cursar Publicidade e Propaganda na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Foi a experiência profissional que teve enquanto estudava que forneceu a base para a escolha.

“Desde 2013, eu trabalho com foto e vídeo. De lá pra cá, me interessei pela área de publicidade em vídeo para TV e internet”, conta o estudante, que atendia a eventos sociais e empresariais com a atividade. Ele revela que o desejo inicial que teve foi cursar “Realização Audiovisual”, mas a questão financeira, com o custo das mensalidades, precisou ser pesada e influenciou a opção pelo outro curso. Durante o Ensino Médio, o incentivo da escola pela procura de algo que o agradasse no futuro também foi essencial.

A orientadora educacional da instituição de ensino de William, Ana Cristina Maciel Picolatto, explica que a escola oferece uma série de alternativas para auxiliar na escolha dos alunos. Em uma parceria com as universidades Unisc, Unisinos, Feevale e Univates, todos são levados aos campus, para que conheçam os locais. Algumas realizam, lá, feiras de profissões, onde os visitantes podem conhecer um pouco mais sobre cada curso e o leque de atividades abertas em cada formação. A oportunidade também serve para a eventual decisão de que um curso superior não é a melhor escolha.

“Nessas feiras, tendo mais acesso aos cursos, eles vão se situando melhor”, conta Ana Cristina. Os custos e a realidade de que, ainda hoje, as universidades não são acessíveis a todas as pessoas, também são levados em conta. A profissional está sempre aberta a dar orientações e conselhos com base em seus 24 anos de experiência na área. Apesar disso, ela observa que os alunos preferem buscar respostas em outros meios, principalmente na internet, enquanto se localizam nos desejos para o futuro.

Apoio dos pais deve respeitar limites do jovem
O futuro publicitário William Souza conta que, de início, seus pais não eram grandes fãs da profissão escolhida por ele. “Meus pais ficaram meio preocupados com o futuro na carreira”, relata. Recebendo informações e sabendo mais sobre as opções abertas com o curso, o casal se tranquilizou. “Ambos passaram a acreditar mais em um futuro promissor com ele.”

A orientadora educacional Ana Cristina Maciel Picolatto afirma que os pais precisam ser cautelosos com os adolescentes nesta fase de transição. “Eles estão passando por muita pressão, é mudança da adolescência para a vida adulta, a necessidade de trabalhar, a escolha entre fazer uma coisa de que gostam e algo que tenha um bom mercado de trabalho”, coloca. “Os pais têm que possibilitar a escolha de maneira natural, o que normalmente eles não fazem.”

Como mãe, Ana Cristina optou por não pressionar. “Eu vejo aqui, no técnico, que muitos só estão fazendo porque os pais também fizeram. O certo é que eles reúnam o maior número de informações possível, mas façam um direcionamento mais light”, aponta a orientadora. Ana explica que, apesar da quase inevitabilidade de criar um filho sem criar expectativas sobre o seu futuro, é preciso que se compreenda que o momento é só dele e que é dele que deve partir a decisão.

“Não entre na faculdade em 2018”

 

 

 

 

 

 

 

Este slogan deu título a uma publicação do gaúcho Henrique Souza, 22, no Facebook. A postagem angariou mais de 149 mil curtidas e foi compartilhada mais de 65 mil vezes, sendo replicada em diversos veículos de comunicação. No último semestre de um curso superior de Psicologia, o estudante escreveu o texto sugerindo que os alunos se formem no Ensino Médio, mas reservem os seis meses seguintes para atividades de autoconhecimento, antes da faculdade.

“Muita gente tá saindo do ensino médio e entrando na faculdade sem ter a MÍNIMA certeza do que tá fazendo. E pior: sem ter a MÍNIMA experiência prática com o mundo real. Eu cometi esse erro em 2013, quando entrei na psicologia da UFRGS. No primeiro ano de faculdade, tomei antidepressivos pela primeira vez na vida. No segundo ano, quase pedi transferência pra Ciências da Computação. Eu tava exausto e confuso”, contou. “Eu me perguntava se algum dia isso ia passar ou se ser adulto era isso aí mesmo. Insônia, boleto e conformismo”, escreveu.

“Em 2014, eu comecei a trabalhar na Organiza! Empresa Júnior. Ao mesmo tempo, entrei na organização do TEDxUFRGS. E em um laboratório de pesquisa. E virei monitor. Tudo voluntário e tudo ao mesmo tempo. E por incrível que pareça, essa foi a melhor coisa que eu já fiz pela minha vida. Foi a melhor coisa que eu já fiz pelo meu autoconhecimento”, ressaltou. “Foi a experiência que me deu CERTEZA de que eu detestava a faculdade, mas amava comportamento humano. Que eu detestava fazer listas, mas amava treinar pessoas. Que eu não era bom de memória, mas levava jeito pra criação.”

Henrique também dá sugestões. “Eu quero que tu faça voluntariado, entre no coral, dê aulas de inglês, faça um Instagram com dicas de moda e trabalhe no bar do teu tio. Tudo de graça e tudo ao mesmo tempo”, apontou. “Eu quero que tu saia de casa 8 da manhã e volte 8 da noite porque tu passou o dia inteiro envolvido com cinco projetos paralelos.” Com centenas de mensagens de apoio, o estudante fez um grupo no Facebook para receber depoimentos e histórias, criando uma comunidade de troca de experiências que auxiliam os adolescentes neste período de incertezas.

“Entre na faculdade em 2018”

Momento esperado com muita ansiedade, formatura marca o fim do Ensino Médio. foto: Reprodução/Internet

Na democrática rede social, o texto de Henrique foi “respondido” pela carioca Lola Ferreira. A publicação também teve grande alcance e aponta que, sim, se pode entrar na faculdade logo após o Ensino Médio. “Não é um erro. Você tem o direito de entrar, trocar de curso, achar a faculdade um saco, descobrir que quer fazer outra coisa. Mas entre. Você vai conhecer gente, livro, festa, cidade. Ver que dá pra trabalhar sem ser só para ganhar um salário mínimo, ser diferente de tudo o que você viu a vida inteira. Vai ver que dá pra trabalhar, ganhar um dinheiro e pagar tua cerveja ou Coca-cola no fim do mês”, escreveu.

“Na faculdade, você vai descobrir inúmeras coisas, nas disciplinas obrigatórias ou no banco da lanchonete. Tu vai poder experimentar mil coisas, tu vai fazer projetos paralelos e ao mesmo tempo saber que não vai mais passar necessidade. Com diploma é difícil, mas sem diploma, nem te conto. Tu é pura potência, não só potencial. O mundo real te chamou desde o minuto que tu chorou na maternidade. […] Cada realidade é uma, foca na tua que o resto se ajeita. E te falar: o sorriso no rosto da tua mãe quando tu contar que foi aprovado vale a pena”, conclui.

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