Faixas ao longo do trajeto revelavam fim da paciência e apontavam culpado

Cansados. Agricultores aproveitaram a presença de autoridades para pedir estradas e certificado

Inúmeros agricultores foram à abertura oficial da safra de citros no Rio Grande do Sul em 2019, que aconteceu sexta-feira, 24, em Montenegro. Todavia, a presença do grupo na localidade de Santos Reis não foi festiva. Na verdade, foi bem ao contrário. Com seus tratores, implementos e máquinas estacionados na via de acesso, protestaram contra a situação das estradas, que classificaram de abandonadas.

A ação não impediu o deslocamento de ninguém. Mas, os organizadores sugeriram que os convidados deixassem o interior no sentido oposto ao que vieram, passando por Vapor Velho e Linha Catarina, saindo na Costa da Serra pela ERS-411. Acontece que o trecho até a propriedade dos anfitriões, a família Kauer, recebeu reparos nos últimos dias. Os produtores rurais queriam então, mostrar a real situação das vias que usam diariamente e por onde escoam a riqueza econômica e agrícola de Montenegro, maior produtora de citros do Estado.

O prefeito, Carlos Eduardo Mülher, o “Kadu”, foi visto apenas quando já estava no local da cerimônia mas, ainda assim, foi interpelado por um grupo de agricultores. Sob pressão, argumentaram que duas patrolas estão estragadas e qualquer operação de conserto requer burocracia. Também falta material para manutenção, devido a não haver saibreras em número suficiente no município.

As desculpas foram recebidas com ceticismo, ao lembrarem que há tempos – inclusive outros governos – ouvem a respeito de falta de maquinário e saibro. Diante do grupo que cercou as autoridades, o recém-empossado secretário de Desenvolvimento Rural, Ari Müller, estipulou prazo de 60 dias para que as estradas do interior estejam em bom estado. Foi então retrucado por uma agricultora, que questionou porque ele estava iniciando essa contagem somente naquele em que estava sendo cobrado, e não antes.

Secretário promete resolver em 60 dias
O secretário Ari Müller pode ter iniciado um atrito com o Legislativo, ao orientar os agricultores a cobrarem dos vereadores. Ele declarou que a culpa também era deles, pois pensavam apenas em pedir o impeachment do prefeiro Kadu. O atual presidente da Câmara, Cristiano Braatz, ficou muito irritado, acusando secretário de irresponsável.

Outra demanda foi a emissão do certificado CFO, exigido para a venda da frutas fora do Rio Grande do Sul. Ao contrário de outras cidades onde a prefeitura tem profissional capacitado para assinar o laudo, na maior produtora de bergamotas do Sul, cada agricultor precisa desembolsar mais de R$ 1 mil e pagar sue próprio certificado. Ari Müller disse que o governo está sensível a esta demanda e trabalha em um convênio com o Cis-Caí para contratar um agrônomo certificado. O debate se acalorou quando o representante do grupo Leandro Zweibrücker, de Linha Catarina, recebeu a palavra no palanque das autoridades.

Ele foi enfático e duro nas colocações, sempre encarando o prefeito Kadu. Refutou a colocação de Ari Müller de que os colonos deveriam emitir mais notas para poder alcançar o CFO. Ele diz que, ao contrário, o certificado é que permitirá mais emissão de notas. Depois, informalmente, o secretário teria desdito, falando que foi mal interpretado.

Anfitriões pediram união
Os anfitriões, Charles e seu pai, Claudio Fernando Kauer, falaram em manter essa união. O jovem ressaltou que agricultor era uma classe desunida, mas naquele dia ele estava vendo algo diferente. Então conclamou a todos para que, através da recém criada Associação de Citricultura do Vale do Rio Caí (Acevarc), mantivessem essa coesão para outras pautas, como o preço da bergamota verde, por exemplo, que neste ano estava sendo comprada por apenas R$ 4,00 a caixa. O pai dele então desafiou o grupo para, em 2020, fecharem as entradas das fabricas que espremem a fruta verde. Ele se colocou à disposição para participar, inclusive na busca da valorização das frutas maduras.

Boas expectativas de colheitas
Mas enfim, a safra gaúcha de citros foi aberta, e com grandes expectativas, em termos de Estado, de região e de Montenegro. De acordo com o assistente técnico regional em Sistema de Produção Vegetal da Emater/RS-Ascar, Derli Bonine, o Rio Grande do Sul deve colher 450 mil toneladas de citros; sendo 153 mil toneladas de bergamotas, 285 mil toneladas de laranjas e 12 mil toneladas de limões. O Vale do Caí é a maior região produtora, onde a líder Montenegro projeta alcançar 46 mil toneladas.

“Na realidade, a safra deverá ser muito semelhante a do ano passado que foi muito boa”, projeta Bonine, referindo-se ao todo. As condições climáticas até o presente momento foram favoráveis já a partir do início da floração, em agosto de 2018. A chuva regular e a ausência de geadas tardias e granizo propiciou um bom desenvolvimento das frutas. Esse cenário também permite esperar qualidade em termos de tamanho e sabor.

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