Quando pode, Jorge Almeida aprecia seu álbum, cheio das mais variadas recordações do atual Cetam. Por causa da Estação, ele veio morar por aqui em 1960, onde constituiu a família

Por anos, local mantinha Montenegro no centro da produção pecuarista gaúcha

Pesado, o álbum antigo é guardado com zelo. Intercala uma vasta seleção de fotografias, umas coloridas, outras feitas ainda antes da chegada dos equipamentos com cor. Tudo organizado em ordem cronológica, com dizeres escritos a punho que indicam as datas, as personalidades e os eventos retratados.

O material é um guia cheio de memórias, não só da história de uma família, mas de um tempo em que Montenegro estava no centro da produção pecuarista de todo o Rio Grande do Sul.

Quem guarda tudo isso é o alegretense Jorge Almeida. Reconhecido como cidadão montenegrino neste ano pela Câmara de Vereadores, ele dedicou grande parte de seus 80 anos de vida à antiga Estação Experimental de Montenegro. Começou de baixo, ainda muito jovem, e galgou até o mais alto posto da entidade, sendo seu diretor por anos.

As lembranças desse período, eternizadas no álbum pela câmera fotográfica da própria Estação, são guardadas com carinho em sua casa. Remetem a uma era de importante desenvolvimento.

Centro da pecuária gaúcha: uma realidade local há 90 anos
Lembra seu Jorge que a Estação ficava no que hoje é o Centro de Treinamento de Agricultores de Montenegro (o Cetam, da Emater). Tudo começou em 16 de março de 1929, há 90 anos, quando a cidade foi escolhida pelo governo estadual de Getúlio Vargas para ser sede do primeiro de cinco postos zootécnicos do Estado. A área era bem maior que a atual e foi batizada, inicialmente, de Posto Zootécnico das Colônias. Não é a toa que, por ali, todo o bairro foi nomeado de “Zootecnia”.

Cada posto instalado tinha uma linha de trabalho específica. O nosso era da pecuária. Técnicos foram à Europa e aos Estados Unidos comprar animais. Trouxeram para cá uma variedade de raças das mais reconhecidas mundialmente. Acredite! Em Montenegro se criou cavalo árabe, cavalo percheron, gado holandês, vaca normanda, vaca francesa, vaca jersey, porco landrace e porco wessex, só para citar alguns. Com as reproduções, o município acabou sendo pioneiro na criação de muitas dessas raças em solo gaúcho.

Nesse local ficavam os animais recém nascidos até estarem fortes para irem para o campo

O conceito da estrutura, em seus 353 hectares, era o fomento da área Rio Grande do Sul afora. Significava o melhoramento genético dos animais de toda a região. Pecuaristas compravam o gado, os cavalos e os porcos com um preço de fomento; ou traziam os seus próprios para cruza no posto de monta criado por aqui. Assim foram melhorando a qualidade da carne e do leite produzido no Estado e também fora dele. As principais bacias leiteiras do Paraná, por exemplo, nasceram com touro comprado em Montenegro.

Raças renomadas no mundo todo foram trazidas para cá, melhorando a genética

E não parou por ali. Com o passar dos anos, o Posto Zootécnico foi recebendo mais incentivos e mudou até de nome. Foi um punhado de nomeações no decorrer da história, mas a que mais pegou foi a de Estação Experimental de Montenegro. Esse foi escolhido quando a estrutura passou a focar, também, na área de pesquisas. Em 1942, ali começou a se fazer inseminação artificial com sêmen refrigerado. Em 58, a inseminação já era feita até com sêmen congelado importado dos Estados Unidos. Não era pouca coisa, não.

Estação foi referência até para o exterior
Não há como recordar os “anos de ouro” da Estação Experimental sem falar de sua importância até para países do exterior. As fotos guardadas na casa dos Almeida são preciosos registros, inclusive, de vistas de pesquisadores e estudantes de fora que vinham à Montenegro para ensinar ou conhecer técnicas daqui.

Registro mostra a visita de uma comitiva de fazendeiros americanos à Estação

Um dos destaques era um convênio com uma universidade de Hanôver, na Alemanha, que enviava especialistas para oferecerem cursos de Veterinária na Estação. As aulas eram dadas em alemão e traduzidas simultaneamente por um tradutor dentro da sala de aula. Também houve missões de fazendeiros americanos, de estudantes costa-marfinenses, dentre outras partes do mundo.

Em termos de infraestrutura, eram vários os prédios e “sessões” especializadas dentro da Estação. Tinha estação para avaliação de bovinos, locais para teste com pastagens, “creches” de animais, e até uma estação meteorológica para análises do clima. O local também foi pioneiro no uso de técnicas de ordenha mecânica, comuns hoje, mas raras naquela época. O curso de laticínios dado ali, aliás, era o único do país que abraçava a parte prática. As capacitações eram totalmente gratuitas.

Anos 60: começa a história dos Almeida no Vale do Caí
Natural de Alegrete, Jorge Almeida se formou Mestre Agrícola ainda jovem. De memória afiada, ele bem lembra do dia em que soube da oportunidade na Estação Experimental. “Eu tava em casa, em 59, apareceu um amigo meu e comentou que tinha esse concurso na Secretaria Estadual de Agricultura. Tinha todo o programa, então eu comecei a estudar”, relata.

A prova foi feita, com sucesso, em Porto Alegre. Nomeado, chegou em 17 de junho de 1960 em Montenegro para trabalhar como prático rural. “Se a gente comparasse com soldado, cabo e sargento, o prático rural seria o cabo”, explica. Almeida tinha apenas 21 anos de idade e foi colocado para morar em uma das casas de funcionários construída dentro da estrutura montenegrina.

Fez de tudo um pouco por aqui. Trabalhou com ração, foi transferido para o aviário – aves também passaram a fazer parte da linha de trabalho da Estação -, foi também para o setor de gado leiteiro e, após, transferido para o posto de capataz geral. No cargo, colocado para gerenciar colaboradores de mais idade e experiência, precisou enfrentar o preconceito de ainda ser muito jovem, mas conseguiu se impor.

Seu Jorge conheceu a montenegrina Wanda Barreto na cidade e os dois se apaixonaram. O casamento já foi em 1965 e, por seis meses, o casal recém formado seguiu vivendo em uma das casas de funcionários da Estação. “Em 66, eu fiz vestibular para Medicina Veterinária pela UFRGS, passei, e nos mudamos”, recorda. Os dois passaram a morar em Viamão para que ele estudasse em Porto Alegre até a formatura, em 69. O emprego em Montenegro estava lhe esperando.

Uma das conquistas de Jorge, como diretor, foi a reinauguração do setor de Laticínios da Estação. No registro, a cerimônia, com ele ao centro, de óculos. As crianças são suas filhas. O álbum também retrata a própria família

De volta, Almeida passou a atuar como veterinário, mas ainda recebendo como prático rural por dois anos. Ele ainda lembra do dia em que, enfim, o jogo virou. Foi chamado na sala do diretor para conseguir o merecido aumento. “Cheguei em casa e disse para a mulher: tamo rico”, recorda, entre risos. Foi quando o casal comprou o primeiro carro zero.

O convite para ser diretor veio anos depois, em 1978. Foi um reconhecimento que, até hoje, enche a família de orgulho: os quatro filhos e quatro netos que Jorge e Wanda tiveram. “Na época, eu era o funcionário mais antigo e tinha bastante experiência nisso aqui”, ele avalia, olhando o seu álbum de recordação. Assim, o casal foi viver na casa do diretor dentro da Estação. O cargo foi ocupado por oito anos, até 1986.

“Nós reformulamos toda a Estação”, Almeida destaca. “Eu recebi ela com 73 vacas, deixei com 150 vacas leiteiras e 150 sem raça definida para o curso de inseminação. Quando eu saí, tínhamos formado em torno de 5 mil alunos em técnicas de inseminação. Deixei 29 cavalos e 850 suínos; mandei construir 80 prédios, entre galpões e casas para funcionários; arrumamos os 30 quilômetros de cerca e reformamos toda a rede elétrica e hidráulica.” Que memória!

Passa o tempo e a desestruturação ainda entristece
A Estação, é evidente, era motivo de orgulho aos montenegrinos. Muitas escolas locais aproveitavam o local como fonte de aprendizado, levando os alunos para conhecerem as diferentes atividades em prática na estrutura. Lá, ainda havia produção de queijo, manteiga e até doce de leite, que eram adquiridos pela comunidade de toda a região. A área ali era predominantemente rural e demorou uns bons anos até que a cidade alcançasse o local, formando-se o bairro Zootecnia.

Estação meteorológica fazia um acompanhamento apurado das temperaturas, do vento e da precipitação de chuva pela região

Mas, com o tempo, tudo foi terminando. Na avaliação de Jorge Almeida, que já não era mais diretor no “começo do fim”, foi uma vontade de governo o término, movida por questões financeiras. O primeiro passo neste sentido foi a entrega da Estação, que saiu das mãos da Secretaria de Agricultura e passou para a, hoje também extinta, Companhia Riograndense de Laticínios e Correlatos, a Corlac. Isso foi em 1987.

“Aí foi um camarada para lá e desestruturou tudo”, conta Almeida, sem esconder o descontentamento. “Mandou desmanchar prédios, vendeu animais. A Corlac mudou totalmente a filosofia da Estação.” O ex-diretor revela que os dirigentes não foram nem consultados para a cessão da estrutura. O local acabou mais segmentado para a área de laticínios e não durou muito neste formato. Passou dois anos e a área já passou aos cuidados da Emater.

Nisso veio um segundo movimento do governo estadual que desestruturou mais ainda o local. É que em 1991, o governo Collares decretou que parte daquelas terras fossem repassadas a um grupo de famílias vindas do Alto Uruguai que não tinha onde morar. Eles chegaram aqui já para se instalarem e foi toda uma polêmica. Ubirajara Rezende Mattana era prefeito de Montenegro e lutou, na época, pela manutenção da estrutura em seu tamanho completo. Não teve sucesso. O grupo recém chegado ficou e, assim, foi criado o Assentamento 22 de Novembro, que existe até hoje. Sobraram menos de 200 hectares para o que era a Estação.

“Eu reconheço que cada pessoa precisa ter um lugar onde morar, mas a Estação era um ambiente bem formado e com uma finalidade importante”, lamenta seu Jorge. Ele avalia que, em grande parte, o advento das novas tecnologias tirou o trabalhou de muitos que lidavam no campo, gerando o desemprego e, por consequência, a falta de moradia.

Mas ficou o que ficou. Em posse da Emater, nasceu o Cetam. “Foi outra mudança de filosofia”, coloca o ex-diretor. “Até, em alguns aspectos, é bom. A região tem muitos agricultores na agricultura familiar e que aproveitam isso.” A área, hoje, oferece cursos mais didáticos, com fomento ao pequeno produtor em áreas como a piscicultura, a apicultura e a produção de leite.

Uma iniciativa muito válida, ainda que apenas uma sombra de tudo o que foi aquele local. Seu Jorge, aos 80 anos, tem o álbum para provar isso.

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