A psicóloga Melissa Araújo e a coordenadora Giane Campiol explicam a iniciativa

Educação. Projeto de inclusão da Prefeitura traz estrutura de acompanhamento e reforço para garantir que os alunos consigam alcançar o pleno rendimento na escola

“Meu nome é Cauana. Eu tenho 13 anos. Sou bonita e sou sentimental, por isso me emociono quando assisto a novela (Carinha de Anjo). Fico preocupada nas provas, mas sou esperta e sempre estudo. Quando estudo com a minha família, fico muito feliz.” Este texto foi escrito em aula por uma aluna do sexto ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Esperança. Cauana Vogt nasceu e vive com microcefalia. Cada palavra escrita por ela, à mão, em seu caderno caprichado, é uma verdadeira conquista.

Atualmente, cerca de 70 crianças do primeiro ao nono ano do Ensino Fundamental, que tem dificuldade de aprendizagem, são atendidas.
CRÉDITO: Reprodução/Internet

A realidade da menina é comum a de muitos jovens montenegrinos. Mesmo que não partilhem da mesma dificuldade – alguns têm autismo, déficit de atenção, são hiperativos ou sofrem da alguma deficiência intelectual ou física – os primeiros passos no Ensino que, como o próprio nome diz, é Fundamental, são desafiadores. E é pensando neles e em suas famílias que a rede municipal de ensino conta com algumas ferramentas para tornar a escola cada vez mais inclusiva.

“São muitos os casos. Nossa preocupação é eliminar as barreiras para que estas pessoas se sintam incluídas. Nós focamos em acessibilidade e inclusão”, resume a coordenadora do Projeto de Inclusão da secretaria municipal de Educação e Cultura (Smec), Giane Campiol. Ela é a responsável pelo alinhamento das atividades junto dos diversos profissionais que atuam na iniciativa.

Dentro do programa, dez escolas contam com salas de Atendimento Educacional Especializado (AEE’s), 30 monitores fazem acompanhamento direto e individual às crianças e uma estrutura da Secretaria oferece um laboratório de aprendizagem, uma psicóloga e uma psicopedagoga, além de encaminhamentos, via Secretaria da Saúde, para fonoaudiólogos e neurologistas. São ações importantes, com resultados visíveis.

Um Centro à disposição da população

Professora Maria da Glória conduz as atividades do Laboratório

Hoje, dez escolas possuem salas próprias de Atendimento Educacional Especializado (AEE’s). Estas instalações contam com incentivo do Ministério da Educação, que as equipa, enquanto o município arca com o local e o profissional que acompanha os alunos. Nestes espaços, ocorrem os atendimentos dos menores com dificuldades, sejam elas causadas por doenças e transtornos ou não.

Já para as instituições que não possuem uma AEE – ou onde esta se mostrou ineficaz – existe o Centro Multidisciplinar de Atendimento Especializado (CEMAE). Esta estrutura da Prefeitura fica na Rua Apolinário de Moraes, nº 1705, no mesmo prédio da secretaria municipal de Meio Ambiente. Ela existe desde o ano passado.

Ali, três salas foram disponibilizadas para a Smec. Uma para o atendimento da psicopedagoga Viviane Cruz; uma para o atendimento da psicóloga Melissa Araújo; e uma para o Laboratório de Aprendizagem conduzido pela professora Maria da Glória Esswein. 10% das vagas disponíveis são oferecidas à rede estadual, que não possui iniciativas do gênero.

Melissa, a psicóloga, explica que sua parte é atuar nas questões emocionais que representam dificuldades na aprendizagem. “Tem questões de depressão infantil. Alguns precisam aprender a conviver e lidar com certas questões”, coloca. Nestes atendimentos, os pais costumam acompanhar os filhos. Nos casos em que há um problema psicológico não relacionado ao aprendizado, é feito o encaminhamento para outro profissional via secretaria de Saúde. O mesmo é feito para as especialidades de fonoaudiologia e de neurologia.

No CEMAE, uma das “ferramentas” mais procuradas é o Laboratório de Aprendizagem. Ali, a professora Maria da Glória Esswein, a Glorinha, recebe os alunos com um parecer de seu professor na escola, indicando seu perfil e suas necessidades. Em um primeiro encontro, uma entrevista com os pais também é realizada para o início do trabalho, que tem sua metodologia e tempo variando de aluno para aluno.

Os encontros, ali, são semanais e ocorrem no turno inverso ao da escola. Duram cerca de 45 minutos, mas podem ir mais longe, conforme a necessidade. “A gente dá conteúdo, dá jogos de atenção. É um ambiente alegre e acolhedor. Tem que estar sempre incentivando e mostrando otimismo para a criança. A palavra ‘conseguir’ tem muita força com ela”, conta Glórinha. Acompanhando de perto o desenvolvimento de cada um, a profissional só libera seus estudantes quando vê que eles já estão craques no conteúdo.

Formação específica para o tema

Fórum da Faders ocorreu no dia 28/02, no Teatro Therezinha Petry Cardona. CRÉDITO: Acom/Prefeitura de Montenegro/Divulgação

Preocupada com as iniciativas inclusivas dentro das escolas, a Smec trouxe a Montenegro, no final do de fevereiro, um Fórum da Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência e com Altas Habilidades no Rio Grande do Sul (a Faders). Com o tema “Interpretando Normativas para a Prática de Educação Inclusiva”, o evento contou com a presença de educadores e gestores da educação de todos os municípios do Vale do Caí.

Entre outros assuntos, foi abordado o público da Educação Especial, o papel do professor da AEE e a importância do monitor na escola.

Projeto de crescimento
Giane Campiol, da secretaria municipal de Educação e Cultura, revela que já foi encaminhado para a Câmara Municipal de Vereadores o projeto de uma estrutura maior para o Centro Multidisciplinar de Atendimento Especializado (CEMAE). A ideia é que todos os profissionais, inclusive com um fonoaudiólogo e um neurologista, fiquem no mesmo lugar. “É mais fácil de comunicar estando todos interligados, atuando juntos”, explica a educadora.

Outra iniciativa que deve ser posta em prática em breve é a criação de Rodas de Conversa, focando na orientação e na troca de experiências entre os pais dos alunos. Além disso, conta Giane, há um movimento para que todas as práticas existentes neste grande projeto de inclusão sejam oficializadas em lei, para que nada se perca na troca de uma administração para outra, como já ocorreu com outras iniciativas ao longo dos anos.

O relato de quem usa o serviço

Rozeli e Cauana são só elogios ao serviço e o acompanhamento que recebem

“Ela está evoluindo muito. Sem eles, eu não sei o que seria de mim. O amor que essas pessoas têm pela Cauana… são de uma dedicação… Eu fico tranquila porque eu sei que ela está bem cuidada”, afirma Rozeli Vogt. A dona de casa de 55 anos é mãe da menina cujo depoimento abriu a matéria. Tendo nascido com microcefalia, Cauana frequenta a escola com monitoria e também é atendida no CEMAE pela psicopedagoga e o Laboratório de Aprendizagem. Além disso, foi encaminhada para tratamento fonoaudiológico na rede pública de saúde.

A mãe conta que, na escola, a filha precisa do auxílio para tudo. No início, ela relata, ir para a aula sem um acompanhamento próximo era o mesmo que não ir. Em casa, hoje, por orientação das profissionais, o foco na educação continua, com ambas trabalhando nas lições. Cauana segue um cronograma de todos os seus horários, que está fixado em um cartaz na porta de seu quarto. E assim segue, crescendo, aprendendo e superando suas dificuldades.

Emocionada, a mãe Rozeli reforça o agradecimento a todos os que auxiliam a filha e fala de seu maior sonho para o futuro. “Só o que eu quero é que a minha filha seja uma pessoa respeitada e uma guria dedicada. Eu quero que ela seja bem independente”, coloca. Para a menina, que se descreve como “sentimental”, mas “esperta”, o desejo da mãe parece se tornar, dia após dia, cada vez mais palpável.

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