Pompom, a cadelinha de Mayara, chegou a ser levada ao veterinário, mas não resistiu

Como já ocorreu em anos anteriores, casos mais evidentes são no bairro Ferroviário e aumentam em agosto e setembro

A matança de animais por envenenamento voltou a preocupar montenegrinos, que temem pela vida dos seus pets. O problema é mais evidente no bairro Ferroviário. São cães e gatos que, mesmo dentro dos seus pátios, acabam sendo mortos. A polícia está apurando a situação.

A estagiária Mayara Nascimento sofreu com essa situação no mês passado, já pela segunda vez em sua vida. “Minha cachorrinha, a Pompom, passou mal na pet shop, onde ela teve uma convulsão. O próprio pessoal da pet levou ela para o veterinário, mas ela não resistiu. Constataram que era envenenamento”,conta. Seu gato foi encontrado morto no mesmo dia.

Na selfie, Mayara e o gato Mingau, uma das vítimas dos envenamentos

Moradora do Ferroviário, Mayara passou por situação parecida em 2013, quando acordou e encontrou seu cão, sua gata e seu gato mortos por envenenamento. Um outro cãozinho que tinha ainda viveu mais uma semana, mas também morreu. Foi já nessa época em que ela procurou aprender mais sobre o assunto e como agir nestes casos.

Ela afirma que a principal alternativa, caso se constate o envenenamento, é induzir o vômito do animal com, por exemplo, carvão vegetal ativado. “O carvão entra no organismo, suga o veneno e faz o cão vomitar. Se acontecer, tem que dar o comprimido e correr para o veterinário”, aconselha. Desta vez, no entanto, o conhecimento não adiantou. Mayara relata que o último caso ocorreu durante à noite, quando seus animais receberam um salsichão que continha estricnina. Na mesma semana, de acordo com ela, sete envenenamentos ocorreram nas proximidades.

O veterinário Ilone Rodrigues Pereira afirma que a estricnina é a substância mais comumente utilizada para matar os animais. Ela é um alcalóide extremamente tóxico, usado, por exemplo, para matar ratos. “Os sintomas começam com uma salivação. O animal fica inquieto e sofre uma parada respiratória. Normalmente, é aí que o dono percebe o envenenamento e, nisso, o veneno já entrou na circulação”, explica. “É difícil pegar antes e a cura é uma incógnita. Às vezes tu acha que o animal está curado e ele acaba falecendo”.

Ocorrência maior em animais com tutores
“Todo ano, por essa época de agosto e setembro, há uma concentração maior destes casos. Isso a gente vem notando já há uns três anos ou mais”, aponta a presidente do Grupo Cachorreiros e Gateiros, Márcia Elisa de Mello. De seu contato com o meio, ela também considera o bairro Ferroviário como o grande foco destas ocorrências.

Rodrigo Matheus Corrêa sentiu a morte de três animais de estimação

O comerciante Rodrigo Matheus Corrêa, morador do local, acrescenta que, dentro deste período, somente os animais com donos são as vítimas. “Os cães de rua, a gente que mora no bairro conhece. Não são eles”, completa. Ele recorda que, no ano passado, ocorreram cerca de 17 envenenamentos. No último agosto, três de seus animais de estimação foram mortos. “Os bichinhos são como filhos da gente. Os nossos a gente adotou da rua, cuidava bem, levava no veterinário e daí vem os caras e fazem isso”, desabafa.

Emocionado, ele recorda os momentos de agonia de sua cadelinha após ter sido envenenada. “Eu cheguei em casa e dois já estavam mortos. A outra veio me receber como sempre vinha. Eu passei a mão nela e daí ela saiu correndo para o pátio. Eu só ouvi tipo um grito. Ela ficou correndo em volta da casa, daí veio pra mim com os olhos arregalados. Não escutava. Babava muito. Ela correu mais um pouco, até parar num canto. Começou a ter convulsão. A gente tentou dar carvão vegetal, mas ela já não engolia”, relata. A cadela faleceu logo depois.

Rodrigo aponta ainda a sua preocupação com as crianças no bairro, que poderiam também pegar e ingerir algum alimento envenenado. Muitos moradores acabaram recorrendo à instalação de câmeras em suas residências na tentativa de refrear os envenadores.

Polícia investiga e alerta para o registro de BO
A Polícia Civil está acompanhando a questão de perto, mas ressalta a dificuldade nas investigações, visto que as pessoas não fazem a ocorrência dos casos. “Tem que vir aqui e dar um depoimento. Pode até ser anonimamente, mas a pessoa lesada ou alguém que viu alguma coisa precisa fazer a denúncia”, frisa o inspetor Borba, que tem conduzido as investigações. Mesmo com uma grande quantidade de casos expostos via redes sociais, apenas um BO foi registrado e há também só uma denúncia, oficializada por uma representante da Amoga que havia recebido relatos dos envenenamentos.

Já foram ouvidos dois indivíduos suspeitos, com o cumprimento de um mandado de busca na residência deles, a partir destes registros. Não foi localizada nenhuma evidência no local que pudesse apontar a culpabilidade deles. Em depoimento, ambos negaram qualquer envolvimento com os casos. As investigações seguem.

A polícia não confirma a constatação deste “padrão” dos casos em agosto e setembro, mas reconhece a prática de sacrifício animal em ritos religiosos, que é um ato, por exemplo, dos adeptos da Quimbanda, conceito religioso de origem afro-brasileira presente na Umbanda. Os investigados ouvidos confirmaram em seu depoimento que frequentam centros da religião, mas alegam que não participam de nenhum ritual neste sentido.

Cercada de polêmicas, a lei respeita as crenças individuais e não considera estes atos religiosos como crimes. Os envenenamentos dos animais de estimação de terceiros e os maus-tratos, sim, são casos de polícia.

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