Rua Julio de Castilhos com a Doutor Flores

Triste rotina. Cheia do Caí e previsão de chuva forte novamente nesta semana voltam a provocar transtornos

Barco virou meio de transporte para quem teve casa alagada em ruas como a Júlio de Castilhos

Principal curso d’água da região, o Rio Caí é motivo de alegria, mas também de muita preocupação para quem vive em Montenegro e arredores. Temporais mais fortes costumam ter efeito imediato não só para quem vive perto dele. Com o mau tempo presente no Estado desde a metade da semana passada, a Defesa Civil Municipal entrou em alerta e, em regime de plantão, atende as famílias que precisam de ajuda.
Toda a região próxima do Rio Caí, como o Centro e o Industrial, entre outros bairros, tiveram ruas interditadas por terem sido invadidas pela água. Em São Sebastião do Caí, a cidade contabiliza prejuízos com a alta do rio. No sábado, o manancial chegou a subir 0,70cm por hora, deixando ilhados moradores do bairro Navegantes, entre outros. O ginásio municipal se transformou em casa temporária para dezenas de famílias.

Na João Pessoa, perto do rio, rua ficou encoberta

A preocupação dos atingidos e de quem trabalha com na área está voltada à semana que começa. A meteorologia está em atenção. Isso porque depois de uma segunda-feira em que as chuvas devem dar trégua, novas trombas de água são esperadas para terça e quarta-feira. Alguns institutos anunciam precipitações de até 100mm em dois dias, índice superior ao mês inteiro em muitas cidades.
Experimentada com a triste situação, a força-tarefa de funcionários e voluntários trabalha para oferecer um pouco de conforto no ginásio Azulão, local onde os atingidos estão temporariamente. Comida, roupas, colchões, produtos de higiene e limpeza tentam lembrar às famílias que a vida pode seguir (quase) normal.
Com o seu ar infantil, as crianças, no Azulão, se divertem com os brinquedos doados, quase não lembrando que todos estão longe dos seus lares.

Marciano não vai para o Azulão por causa de seus cavalos. Ele e parte da família dormem na rua enquanto o rio não retorna ao seu leito

Famílias dormem na rua devido aos bichos
Ficar em casa não é alternativa para Marciano Lima da Silva, 27 anos, e parte de sua família. Ir para o Azulão também não. Morador da Rua Otaviano Moojen, no Industrial, ele foi expulso de casa pelo rio. Parte da família foi para casa de parentes em Capela de Santana. Os que ficaram dormem na rua, de olho no nível do Caí. Catadores de material reciclável, eles dependem da ajuda dos cavalos. E abandoná-los para poder se alojar no Azulão é algo impensável. “Não dá pra deixar os animais e ir pra lá. A gente vai dormir nas carroças. E cuidar porque, se chover mais, a água chega até aqui”, diz.
Ficar na rua é apenas uma das preocupações dos sete homens que acampam na esquina da sua rua com a José Luiz. Os pensamentos estão também na segurança dos familiares. “Minha filha, de três anos, está com a mãe, em Capela. Vai voltar só quando o rio baixar”, conta o catador. Há, ainda, o medo pela casa. “A gente tem galinha. Tem porco. Precisa ir ver como está tudo. E, enquanto isso, continua tentando catar o que pode. Pra continuar sobrevivendo”, finaliza.

Celeste de Oliveira levou sua família para o Azulão no sábado

Um condomínio chamado Azulão
Com tantas pessoas, é preciso organização e boa vontade de todos para que a convivência prossiga em tranquilidade. E é o que se vê no Azulão, apesar de quase duas dezenas de famílias lá habitarem, divididas em cubículos repartidos por lonas. Cerca de dez voluntários ajudam, selecionando doações, preparando refeições e prestando auxílio. “Não podemos evitar a enchente, mas sim facilitar o período que estiverem aqui”, diz Marcelo Silva, coordenador da Defesa Civil do Município.
Muitos dos que lá estão já tratam a morada improvisada como algo comum, que, apesar de doloroso, repete-se quase todos os anos e divide as famílias. Alguns vão se abrigar no Azulão, enquanto outros ficam em casa para protegê-la dos ladrões. Marli da Silveira, 43 anos, ocupa uma dessas “casas de lona” com a filha e dois netos, uma de apenas três meses. Ela não sabe quanto tempo ficará fora de casa. “Vim ontem (sábado) preparada para ficar aqui até a água voltar ao normal. O marido não quis vir. Tem medo de roubarem a casa”, diz Marli olhando a neta que dorme tranquilamente em seu carrinho, alheia ao tumulto à volta.
Outra mãe que tenta proteger a família no Azulão é Celeste de Oliveira, 35 anos. Ela foi para o abrigo com os dois filhos menores, de sete e nove anos. Levaram poucas coisas, por isso a alegria deles foi a chegada das doações de brinquedos. “Eu vim porque uma das minhas filhas tem muito medo. Ela fica nervosa quando vê a água do rio subindo. Pelo corte da luz também. Por isso, quando soube do alerta da Defesa Civil, sabendo que a água entra na minha casa, já liguei e vim pra cá, no sábado mesmo”, conta a moradora do bairro Industrial.

Rodovia chegou a ser bloqueada no Pareci
Nas estradas, a principal preocupação ficou em Pareci Novo, na ERS-124, entre os km 6 e 7. A Polícia Rodoviária Estadual precisou bloquear a estrada às 6h de domingo depois do asfalto ser invadido pela água. Quem precisava chegar a áreas próximas ou mesmo no Caí precisou fazer o desvio por Portão, através da ERS-240.
Somente no meio da tarde de ontem, com o recuo do rio, é que o tráfego foi liberado, inclusive, para veículos leves.

Nascido no meio d’água
O aposentado Cirino Enick, 58 anos, nasceu na rua Apolinário de Moraes. Acostumado com a cheia do rio, vive em uma casa de dois pisos justamente para não ser surpreendido pelo vizinho gigante. Ontem à tarde, acompanhado da filha, ele percorria de barco a rua Júlio de Castilhos para levar a garota, que preferiu não ser identificada, até a casa de uma amiga a fim de facilitar o deslocamento ao trabalho hoje. “Não tem por que não gostar da cheia. Eu nasci na enchente, me habituei e para mim não faz mal”, completa o morador, acrescentando que foi morar no local por iniciativa própria, enquanto o rio sempre teve o seu curso. Sem medo de ficar no imóvel, garante que ontem mesmo o rio começaria a baixar.
Ele revela a tática para saber se haverá transbordamento na cidade ou não: se o rio subir acima da cota de 11m no Caí é certo que passará da calha em Montenegro. “Aquela água toda vem para cá e passa a [rua] Álvaro de Moraes”, finaliza. (SV)

Defesa Civil solicita doações para os atingidos
Com mais uma enchente do Rio Caí, Defesa Civil de Montenegro pede para que a comunidade estenda a mão e faça doações às famílias atingidas alocadas no ginásio Azulão, junto ao Parque Centenário. Ontem, até por volta das 18h, a estrutura comportava 59 pessoas de 19 famílias, mas a qualquer momento podem chegar mais pessoas tiradas de casa pelo rio.
Por conta disso, alimentos não-perecíveis, produtos de higiene e limpeza são bem-vindos para quem perdeu quase tudo. Há muitas crianças, então o coordenador da Defesa Civil Municipal, Marcelo Silva, acrescenta que quem puder passar adiante um brinquedo, em bom estado, para os pequenos será motivo de muita felicidade.
Todo o material recebido é triado por servidores municipais e voluntários. O ginásio Azulão está aberto 24h por dia. E quem precisa de ajuda basta entrar em contato com a Defesa Civil pelo telefone 153. No Azulão, uma estrutura está pronta para auxiliar os necessitados. A última medição do Rio Caí, na Tanac, é de 5,58 m, às 20h de domingo, mantida a tendência de subida. (SV)

 

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