O balanço do Projeto Maria e João sem Violência foi apresentado na sala do júri do Fórum de Montenegro

CONTRA A REINCIDÊNCIA. Iniciativa da Cufa acolhe agressores e fortalece vítimas de violência doméstica

O Projeto Maria e João sem Violência é uma iniciativa da Central Única das Favelas (Cufa) de Montenegro, que conta com a parceria da Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher (Deam), Poder Judiciário, Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) e Ministério Público. A iniciativa foi colocada em prática em junho deste ano. Nessa quinta-feira, 19, foi apresentado o balanço dos atendimentos realizados até o momento. No período, dos 83 casos encaminhados, pelo Cejusc ao projeto, 53 foram atendidos.

Mais que números, o balanço apresentou relatos da realidade das mulheres vítimas de violência e de seus agressores. Na prática, o Cejusc faz os encaminhamento de ambos – vítima e agressor – ao Projeto Maria e João sem Violência, e os membros do grupo de trabalho contatam os envolvidos. Alguns recusam a oferta de ajuda, outros nem mesmo são encontrados, mas a maioria tem se mostrado receptiva.

O presidente da Cufa, Rogério dos Santos apresentou os números do Projeto Maria e João sem Violência
Carliane Pinheiro, a Kaká, presidente Conselho Municipal de Defesa da Mulher (Comdim) destaca que o grande objetivo do projeto é evitar novos casos de agressão. “A gente não quer que os agressores cometam nova violência. Se tivermos uma ou 10 reduções de casos, já estamos ganhando. A sociedade sai ganhando”, comenta Kaká.

Para fortalecer as vítimas e acolher os agressores, são realizados encontros quinzenais, os chamados Círculos de Paz. Eles contam com apoio de uma psicóloga que busca identificar a causa da violência. A psicóloga do projeto, Fernanda Klunck, conta que as mulheres são encorajadas a denunciar e ir em frente com as ações para se libertarem da violência. “É interessante acompanhar os dois lados. A gente observa o quanto que a agressividade e a violência são formas de os homens se expressarem. Coisa que eles poderiam expressar de outras maneiras. Eu trabalho formas de solucionar conflitos”, detalha.

Para a juíza Deise Fabiana Vicente, o projeto é fundamental para conscientizar a vítima e também para a responsabilização e conscientização do ofensor. “Também é importante para os encaminhamentos. Muitas vezes, necessita de um atendimento de rede, tratamento, enfim… É necessária essa integração de todos”, comenta a juíza.

Números de atendimentos do projeto entre junho e dezembro 2019
Bairro Quantidade Autor da agressão Vítima
Senai 7 3 4
Panorama 1 1
Estação 3 2 1
Municipal 3 1 2
Imigração 1 1
Centro 6 5 1
Aeroclube 3 2 1
Centenário 1 1
Cinco de Maio 5 3 2
Bela Vista 2 1 1
Santo Antônio 3 2 1
São João 1 1
Santa Rita 2 1 1
Faxinal 1 1
Costa da Serra 1 1
Alfama 2 2
São Pedro 1 1
Rui Barbosa 1 1

Projeto mostra resultados positivos
Durante a apresentação do balanço, o presidente da Cufa, Rogério dos Santos, mostrou exemplos de casos que já mostram resultados positivos. Um deles é de um homem que relatou a Rogério que, antes de ser chamado para participar do projeto, estava planejando a morte da ex-companheira. Ele chegou a comprar uma arma e pensava diariamente nos detalhes de como colocar o plano em prática. Inspirado pelo projeto, ele procurou ajuda psicológica e pediu transferência do trabalho, tudo para mudar de vida e deletar de sua mente a ideia homicida.

Conforme Rogério, inicialmente os homens demonstram resistência ao projeto. Contudo, com o passar dos encontros, acabam mudando de comportamento. “Eles chegam muito constrangidos. Mas muitos acabam desabrochando ao falar”, comenta.

A falta de conhecimento dos homens em relação à Lei Maria da Penha chama a atenção da equipe do projeto. Para muitos, ofensas e pressão psicológica não são entendidos como violência. “Eles acham que só é agressão quando dão um soco ou fazem a vítima sangrar”, diz Rogério. “Não bati nela. Bati no atrevimento dela”, disse um dos agressores ao contar sua briga com a esposa.

Ainda em fase de adaptações, o projeto estuda outras possibilidades de ajuda às mulheres vítimas de agressões. Facilitar o acesso ao trabalho e creche para os filhos dessas pessoas, é uma das metas para um futuro próximo.

Reflexão sobre causas e tipos de violência
Outro dado apresentado no balanço diz respeito aos fatores que geram episódios de violência. E também os tipos mais comuns de violências sofridas pelas vítimas. Homens e mulheres que fazem parte do projeto foram convidados a opinar.

Conforme a psicóloga do projeto, Fernanda Klunck, para eles, discussão, separação, traição, efeito de álcool e alienação parental são os principais motivos que desencadeiam situações de violência.

Já as mulheres relataram que os tipos mais freqüentes de violência aos quais foram expostas são psicológica, física, tentativa de invasão domiciliar, patrimonial, sexual e tentativa de feminicídio.

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