Cooperativa dos Citricultores está intensificando a construção de novas estruturas para aumentar o tempo de residência do biofertilizante na usina, antes da aplicação

Empresa assumiu que seu biofertilizante é, em parte, responsável pelo odor sentido na cidade

A usina da Cooperativa dos Citricultores Ecológicos do Vale do Caí, a Ecocitrus, recebe diferentes resíduos para dar destinação. Ao invés de descartados no meio ambiente, restos de frigoríficos, indústrias do ramo alimentício, cervejarias, incubatórios, dentre outros, são enviados para a unidade da empresa, localizada no Passo da Serra, em Montenegro.

Lá, eles são processados e originam novos produtos: um biofertilizante que é aplicado em propriedades rurais e impulsiona o cultivo de alimentos orgânicos; e também o biogás que, transformado em energia elétrica, abastece toda a planta da empresa.

Um desses derivados, no entanto, acabou no centro de uma polêmica recente. Embora ressalte que havia outros motivos para o problema, a Ecocitrus reconheceu que a aplicação do biofertilizante líquido originado deste processo foi, em parte, responsável pelo mau cheiro sentido em Montenegro e região entre o final do ano passado e o início deste ano. Mesmo hoje, a situação ainda ocorre pontualmente.

Foram muitas as reclamações e os municípios de Triunfo e Pareci Novo chegaram a suspender a licença da empresa para o uso do produto em propriedades de seu território. Agora, a Ecocitrus trabalha contra o tempo para manter a atividade sem trazer problemas para as cidades.

VOCAÇÃO
A usina foi fundada em 1995 e, desde o início, trabalhou para suprir a demanda de adubos orgânicos a seus sócios e, posteriormente, a terceiros. Por anos, a produção era somente aeróbica e com sistema aberto – o método mais comum em atividades do tipo. Dali saia o biofertilizante sólido, em menor volume. Havia odor, mas o problema era mais local e não tanto nas propriedades onde a aplicação ocorria.

A Ecocitrus decidiu inovar em meados de 2011. Coordenador técnico da empresa, Albari Pedroso conta que foi a partir de visitas a usinas da Europa, principalmente na Alemanha, que a cooperativa percebeu o potencial de aproveitar ainda mais o tratamento dos resíduos que recebia, impulsionando a produção do biofertilizante e ainda aproveitando o gás.

A cooperativa, então, investiu R$ 4,5 milhões em um projeto de Pesquisa e Desenvolvimento em sociedade com a empresa Naturovos e parceria com a Sulgás e a Univates. Nascia o Consórcio Verde Brasil, com o objetivo de adaptar os conhecimentos adquiridos no exterior para a realidade local. Em 2016, após muitos estudos, a empresa pegou os resultados para aplicá-los na prática e em escala industrial.

Nessas mudanças, 80% dos resíduos recebidos na usina passaram para um processo novo, anaeróbico, em rota líquida e em sistema fechado, conduzido dentro de biodigestores e mantendo nutrientes que eram perdidos no sistema aberto. O ganho energético, a partir do gás, também teve início nesta etapa. “Nessa escala e para a tipologia agrossilvipastoril, a Ecocitrus foi pioneira no Brasil”, destaca Pedroso.

Foi com isso que, no ano passado, os primeiros lotes do novo biofertilizante líquido acabaram saindo para a aplicação. Como se constatou posteriormente, eles ainda estavam sem o tempo ideal de estabilidade para uso e com cheiro muito forte. Nas propriedades agrícolas, o produto aplicado acabou gerando o odor que, impulsionado pelo calor da época, se espalhou por toda a região e ainda é sentido em dias abafados.

Adaptações foram necessárias

“Nós estamos aqui, diuturnamente, trabalhando na busca por minimizar o odor”, garante o coordenador técnico, Albari Pedroso. “Nós só pensamos nisso”. Ainda se adaptando às mudanças do processo, as queixas sobre o mau cheiro pegaram a equipe de surpresa e algumas decisões precisaram ser tomadas com urgência. “Foi como trocar as rodas de um carro em movimento”, compara o profissional.

Dentre as medidas, a Ecocitrus cortou quase pela metade a entrada de resíduos para tratamento na usina, principalmente os mais odoríficos. Novos biodigestores, também, estão sendo construídos para que o biofertilizante, ao invés dos atuais 45 dias de residência antes da aplicação, fique pelo total de 100 dias na usina sendo processado em sistema fechado.

“Isso significa que nós vamos conseguir recuperar a pouca fração de gás que ele ainda tem nessa parte final de maturação. Com isso, vamos produzir um biofertilizante completamente estável, maduro e com grande minimização de odor”, prevê o coordenador.

Os três novos biodigestores para tratamento de resíduos têm capacidade para 10 mil metros cúbicos e se unem aos outros três já existentes do projeto original. Com eles prontos, o plano é implantar, ainda, infraestruturas para equalização do produto, com um local específico para mais 60 dias de estabilização e maturação. “É um esforço de engenharia enorme”, aponta Pedroso.

Paralelamente, a equipe conduz pesquisas de métodos que, além do maior tempo de residência, auxiliem a resolver a questão do mau cheiro. “Estamos testando enzimas e microorganismos de diversas origens com foco no odor”, conta. “Temos testes biológicos na área correndo só para a retirada do cheiro.”

Empresa defende a importância do produto
A Ecocitrus não cobra pelo uso, nem pela aplicação do biofertilizante nas propriedades rurais. Associados recebem o produto e aplicam por sua conta; e terceiros também podem procurar a empresa para, neste caso, além de ganharem o material, também receberem a aplicação. A condição é que a propriedade tenha área aberta para a aplicação com veículos pesados.

Albari Pedroso, coordenador técnico do Biogás, e Maique Kochenborger, atual presidente da cooperativa

Quem paga a empresa por isso é quem mandou seus resíduos para destinação na usina. Já está prevista no custo, a aplicação do derivado em propriedades situadas em um raio de 30 a 50 quilômetros da planta. E qual a lógica comercial de doar um produto obtido a partir de tantos investimentos? Estimular a produção orgânica sem o uso de fertilizantes tóxicos.

“Apesar de o produto ter característica de valoração comercial, nós entendemos que a doação é uma maneira de ajudar os agricultores a fazerem a sua conversão para o orgânico, entendendo que, com a produção sem adubos químicos, o resultado do plantio é extraordinário”, define o coordenador técnico da cooperativa. “Nesse momento, nós temos que cativar o produtor.”

Etapa importante do processo, é dentro destes grandes reatores que o produto passa pela estabilização, antes de sair para as propriedades

Em comparação com o produto obtido pelo sistema mais convencional, o aeróbico, a empresa aponta que o novo biofertilizante tem maior retenção de nutrientes, o que dá melhores resultados nas plantações. Tanto que, sem divulgação, é a partir do boca a boca que os agricultores buscam a empresa para receberem o produto. “São ganhos muito acima de 30, 50%”, ressalta Pedroso. “Eles começam a observar o terreno dos vizinhos, o milho com três metros de altura, a fruta bonita. Simples assim.”

Estimando que, em um futuro próximo, o biofertilizante já passe a ser vendido, a Ecocitrus planeja ampliar a produção do item também com foco em impulsionar outro segmento em que atua: o processamento de sucos de frutas. “Nós buscamos triplicar a capacidade produtiva de citros e esse material é fundamental para essa expansão agrícola”, coloca o coordenador. “A agroindústria (que faz os sucos) precisa de três vezes mais produtos e, para isso, precisa de muito produtor. O biofertilizante é necessário para a conversão dessas propriedades e a colocação das frutas no conceito orgânico.”

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