Dom Paulo na capela da Cúria da Diocese de Montenegro, que foi construída durante seu governo. Foto: Diocese de Montenegro

Homenagem reconhece o grande trabalho e as contribuições feitas pelo primeiro bispo da Diocese local à cidade

O primeiro bispo da Diocese de Montenegro, Dom Paulo De Conto, será homenageado pela Câmara de Veredores de Montenegro hoje, às 18 horas. Uma sessão solene marcará a entrega do título de Cidadão Montenegrino ao bispo emérito, que completou 50 anos de ordenação sacerdotal na última sexta-feira. A iniciativa partiu do vereador Juarez Vieira da Silva (PTB), que é pastor da Igreja Assembleia de Deus.
Paulo Antônio De Conto recorda que sua vocação para ser padre surgiu quando criança. “Eu soube mais tarde que eu e minha mãe poderíamos morrer quando nasci e ela, com muita fé, me consagrou e me colocou nas mãos de Deus para ser padre”, recorda. Ele é o quarto filho entre os 12 que o casal Rosina Francisca Pretto De Conto e Pio Luiz De Conto tiveram.
Dom Paulo sempre sentiu o chamado de Deus e ingressou no seminário aos 11 anos, continuando por 15 anos na formação. “Fui padre pela Diocese de Santa Cruz do Sul, bispo da Diocese de Cáceres, em Mato Grosso, na diocese de Criciúma, em Santa Catarina, e em Montenegro”, afirma. Em uma entrevista exclusiva ao Jornal Ibiá, o bispo emérito fala sobre as mudanças na Igreja, sua vida sacerdotal e do título que recebe da Câmara de Vereadores.

O que mudou na Igreja Católica desde a sua ordenação como sacerdote?
Nestes 50 anos de ordenação sacerdotal, houve avanços referentes a nossa Igreja. Eu era do tempo em que a missa era rezada em Latim. O povo não participava e sim assistia e rezava o terço. O padre ficava de costas para o povo, voltado ao altar. Era algo muito significativo, pois revelava um mistério, algo muito sublime, em que o padre e o povo tinham uma grande intimidade com Deus. Com o Concílio Vaticano II, ocorreu um avanço significativo: a missa num altar onde o padre está voltado ao povo, dialogando sobre a liturgia. Os fieis então não tiveram mais a conotação de assistir e sim celebrar. De expectador, o povo se tornou ativo e participativo liturgicamente, rezando e cantando. O português também veio somar para melhor entender e celebrar. Esse foi o avanço principal da igreja. Os sacramentos foram melhor preparados. Hoje existe uma preparação e motivação, tanto para os pais quanto aos padrinhos, para batizar conscientemente, não somente em um sentido de receber o batismo, mas vivenciar intensamente. No passado, se pensava que o batismo salvava. O batismo, por si só, não garante, mas é garantido quando o batizado torna-se salvador. Salva-se quem for salvador, salva-se quem coloca o batismo em ação. Salva-se quem vive em comunidade e participa intensamente dela.

O senhor concorda que padres e igreja estão mais próximos das pessoas e da comunidade?
A formação sacerdotal visa a aproximação do padre, que é um ministro, e não mais como no passado se dizia “Alter Christus” (outro Cristo). O padre era, às vezes, concebido como superior aos anjos. Essa concepção de Alter Christus permanece, mas hoje o padre é ministro ordenado, animador de ministérios. Isso foi um grande passo que a Igreja deu. O padre é aquele que anima porque todos os fieis devem viver uma igreja ministerial. Todos devem exercer um e outro ministério no dia a dia da igreja. O padre, portanto, é o grande animador de ministérios. Não é aquele que está somente em contato com Deus, mas a partir da palavra Dele e da eucaristia é que anima o povo, estando próximo e caminhando com a sua comunidade.

Como o senhor avalia o pontificado do Papa Francisco?
Vemos com muita alegria a sucessão papal. O Papa Francisco surpreende os nossos dias com simpatia, sorrisos e um coração bom, sensível e compreensível. Homem que vive e transmite a caridade, que é o essencial no evangelho. É admirado por todos, inclusive por outras religiões e credos. Nós nos sentimos muito felizes em ter o Papa Francisco no governo da Igreja.

Quais eram as suas expectativas quando o senhor chegou a Montenegro? Foram atendidas?
Estava muito bem como bispo em Criciúma. Ao ser nomeado o primeiro bispo da Diocese de Montenegro, eu fiquei surpreendido com o pedido do Papa e aceitei prontamente. Eu nada sabia e conhecia sobre a Diocese que iria assumir, mas vim com muita alegria. Na minha posse, com a presença do Núncio Apostólico, representante do Papa no Brasil, de bispos, do clero e de grande número de pessoas das paróquias de toda a Diocese, eu assim me manifestei: “De hoje em diante, a Diocese de Montenegro terá um nome que muito significará na sua caminhada. De hoje em diante, se chamará ‘Diocese da Alegria’”. Hoje fico surpreendido como o povo encarnou, vive e divulga que são da Diocese da Alegria. Com essa expressão, fui me adaptando e, juntamente das equipes e conselhos diocesanos, foi possível ter um bom fundamento espiritual, pastoral e administrativo. Em pouco tempo, a Diocese se tornou grande, conhecida e reconhecida pelas outras do Rio Grande do Sul. Hoje eu vejo, entregando o cargo para o bispo Dom Carlos, uma Diocese bonita, tranquila, cheia de entusiasmo e todos muito felizes.

O senhor é da cidade de Encantado. Por que resolveu continuar residindo em Montenegro?
Ao ficar emérito, aos 75 anos, todos os bispos entregam o cargo ao Papa. Embora eu tivesse diversos convites, especialmente de Criciúma, em Santa Catarina, decidi permanecer na Diocese onde por último servi, que é Montenegro. Procurei preparar o ambiente e hoje resido em uma casa de propriedade da Diocese, bem próxima do ambiente diocesano. A partir da residência em Montenegro, eu procuro caminhar com o Bispo titular, auxiliando na Diocese, marcando presença junto aos padres e seminários. Como Bispo Referencial, permaneço ajudando os padres do Rio Grande do Sul, além dos Bispos Eméritos. São 22 no estado, e visito cada um deles. Sou solicitado para pregar retiros a padres em todo o Brasil. O fato de residir em Montenegro e estar com capacidade para servir e ajudar tantas pessoas que necessitam me faz feliz.

Como recebe a homenagem da Câmara de Vereadores?
A partir da terra natal, que é Encantado, e nas dioceses por onde passei, tenho recebido títulos em homenagem pela minha presença nos mais diversos locais. A Câmara de Vereadores de Montenegro decidiu também dar um título, que recebo e não olho para mim. Eu até penso que nem é meu, pois se refere à própria Diocese, à presença e ao trabalho realizado nos 32 municípios que compreendem o governo diocesano de Montenegro. É uma honra, não para mim, mas para o povo diocesano.

A homenagem partiu de um vereador que é pastor evangélico. Como o senhor recebe isto?
Vejo com alegria e simpatia. O meu coração sempre olhou com muito carinho para as pessoas que seguem outras denominações de igreja. Meu coração sempre foi ecumênico e agradeço o fato do título, aprovado por todos os vereadores, partir de um irmão da Assembleia de Deus. Todos somos irmãos. A pior coisa que existe é o egoísmo e o desprezo que se dá para pessoas e até para religiões, porque o mais importante é aquilo que Jesus fala em Mateus 25: No juízo final, todos nós seremos julgados pela prática da caridade, e a salvação um teste para aqueles que têm paz, bom relacionamento, boa vivência, vivência em comunidade e que tenham praticado amor a Deus e ao próximo.

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