Queridinho do montenegrino, o pão francês é um dos itens que deve subir com o alta do Dólar. Perspectiva é de alta de 14% no trigo até abril. FOTO: JAIR ARAÚJO: AGÊNCIA AL

Entenda como a crise global do novo coronavírus está impactando a nossa economia

No mundo todo, indústrias parando, importações e exportações prejudicadas, empresas perdendo valor e moedas desvalorizadas. A orientação para que a população fique em casa, evitando aglomerações e contendo o contágio do novo coronavírus vem esvaziando muitos estabelecimentos e centros comerciais.

Ainda vai demorar para que se consiga ter noção de todas as perdas na Economia ocasionadas pela pandemia, mas muitos impactos já são sentidos. E se engana quem pensa que os prejuízos atingem só o bolso dos grandes empresários. As consequências são bastante reais e pesam na vida de todos, em diferentes níveis.

Qual a lógica do Dólar alto e das quedas na Bolsa de Valores – Nesta segunda-feira, a Bolsa de Valores brasileira (B3) acionou o “circuit breaker” pela quinta vez em seis pregões, algo que nunca havia ocorrido na história. Esse é um mecanismo de parada das negociações por determinado período de tempo, pensado para acalmar os ânimos quando as perdas atingem níveis alarmantes. Em resumo, as empresas que negociam ações na Bolsa estavam perdendo tanto valor que foi preciso parar tudo para o mercado respirar e voltar a uma certa “normalidade”.

Juntas, as organizações da B3 perderam R$ 1,008 trilhão em valor de mercado neste ano, até a primeira semana de março, ainda antes do pico da crise. As perdas maiores são da Petrobrás e da Vale. Mas empresas muito próximas do montenegrino negociam ações na Bolsa. São exemplos Braskem, CCR, Bradesco, Banrisul, JBS, Lojas Americanas, Magazine Luiza e Natura. Perder valor é preocupante. No mínimo, põe em risco novos investimentos e a geração de mais emprego e renda.

Vários fatores influenciam essa desvalorização da Bolsa e isso se repete em vários países. A maioria deles, impacto da pandemia do novo coronavírus. Com suspensão de viagens, empresas suspendendo atividades e as importações e exportações prejudicadas, os investidores tendem a tirar seu dinheiro da Bolsa, receoso de perdas. E isso está diretamente atrelado ao Dólar, que, nesta semana, atingiu um novo recorde nominal: passou dos R$ 5,00.

O Dólar é a moeda oficial dos Estados Unidos e quase todas as transações internacionais são feitas usando ele. Essa variação de quantos reais são precisos para comprar um Dólar segue a lógica da oferta e da procura. Ou seja, quando há muito Dólar circulando no Brasil, o valor da moeda desce; quando há pouco Dólar circulando no Brasil, o valor sobe. É a segunda opção que temos visto recentemente.

Se as empresas de fora estão deixando de investir na Bolsa de Valores brasileira, então menos Dólar está sendo injetado na nossa Economia. Com o coronavírus, também há queda nas exportações e redução de turistas estrangeiros, o que também diminui a oferta da moeda estrangeira por aqui, elevando seu valor em relação ao Real.

E há também questões internas que estão impactando o câmbio já há alguns meses, ainda antes da doença. É que o governo federal está com uma política de corte de taxas de juros que já atingiu patamares históricos. Com poucos juros, o brasileiro tende a pegar mais dinheiro emprestado e, em tese, injetar recursos na Economia. Por outro lado, o investidor de fora que pensa em aplicar seu dinheiro no Brasil pra fazê-lo render não verá vantagens no negócio. Assim, há menos Dólar entrando.

Tensões políticas e lentidão na agenda de reformas do governo também são fatores que estão influenciando o câmbio. O Banco Central até tenta controlar a situação, comprando Dólar quando há muito em circulação, para subir o preço; ou vendendo para fazer o preço cair, o que vem sendo feito ultimamente. Não tem sido muito efetivo.

Dólar alto vai impactar o valor dos alimentos
Mesmo quem não tem ações ou não pretende viajar para o exterior deve sentir o impacto da alta do Dólar no Brasil. É que parte relevante dos produtos que consumimos é importada ou tem alguma relação com produtos importados. Eletrônicos, como celulares, computadores e tablets são exemplos do que deve encarecer. Mas a consequência mais imediata e difícil de fugir está no preço dos alimentos.

Empresário varejista em Montenegro, César Augusto Hoerlle, já se prepara para o que está por vir. “Nas próximas semanas virão os aumentos”, declara. O que pesa, além de frutas importadas e azeitonas, são os derivados de trigo, matéria prima que chega ao Brasil cotada em Dólar. Entra aí o pão, as massas e os biscoitos. Os moinhos e as indústrias já estão deixando claro aos supermercados locais que o encarecimento vem. “Enquanto eles estão com o estoque antigo, eles estão conseguindo fazer o mesmo preço”, explica José Augusto Mombach Friedrich, também empresário do setor na cidade. “A partir do momento da compra do trigo, com esse Dólar alto, eles vão ter que repassar. Estão falando num primeiro reajuste de 7% e pode vir um segundo reajuste de mais 7%”.

Friedrich avalia que, se não antes, os reajustes vão acontecer até abril, mas nem tudo repassado ao consumidor final. “A princípio, a indústria deve segurar um pouco do aumento; porque eles repassando tudo, os produtos devem ficar muito caros e ela não vai conseguir vender”, coloca. “Já, nós, supermercadistas, vamos ter que dançar conforme a música. Não temos essa força para não fazer o repasse”. Na medida que for, subindo os derivados da matéria prima, sobem os custos das refeições dentro e fora de casa. O trigo importado pelo Brasil vem, principalmente, da Argentina.


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Empresariado acompanha a situação com preocupação

Karl Heinz Kindel, presidente da ACI Montenegro e Pareci Novo

Montenegro tem muitas empresas que trabalham com exportação. John Deere, JBS e Ecocitrus são bons exemplos. Em tese, Dólar alto significaria um produto mais valorizado, o que seria vantagem para as organizações. Mas o impacto do coronavírus na Economia vai além da moeda estrangeira. “As vendas ficaram prejudicadas em volume e provavelmente em preços, neutralizando qualquer vantagem do aumento da cotação”, explica o presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços (ACI) de Montenegro e Pareci Novo, Karl Heinz Kindel.

Na situação atual, o mercado, no geral, não é comprador. Dados da Fiergs mostram que as exportações gaúchas caíram 29% no primeiro bimestre, em comparação com o mesmo período do ano passado. Também há queda grande nas importações: 35,1% no segmento de rolamentos e engrenagens; e 23,5% nas peças para veículos automotores, as duas maiores reduções. A tendência, para março, é de perdas ainda maiores.

Kindel declara que o empresariado vem acompanhando os desdobramentos da pandemia com preocupação. Com a Economia muito ligada à confiança e ao otimismo, “qualquer ameaça ou instabilidade afugenta o investidor”, coloca.

O impacto também chega ao comércio. No Centro de Montenegro, calçadas e vagas de estacionamento vazias na tarde desta terça-feira davam sinais de esvaziamento. Com pessoas instruídas a evitarem aglomerações e a ficarem em casa – medidas necessárias para conter o contágio – as entidades que representam a categoria já estimam perdas.

“É necessário pensar em medidas para viabilizar a recuperação econômica dos setores afetados e evitar impactos negativos sobre o emprego e a renda”, declarou o presidente do Sistema Fecomércio-RS, Luiz Carlos Bohn, salientando que, por hora, as medidas de prevenção são prioridade.

Seguindo as orientações dos órgãos de saúde, muitas empresas estão estimulando que os funcionários que tenham atividades que possam ser realizadas de casa (home office) não compareçam. É o que ocorre, por exemplo, nas empresas do Polo Petroquímico.

De acordo com o diretor administrativo do Comitê de Fomento Industrial do Polo, Sidnei Alves dos Anjos, também é grande a restrição de viagens de funcionários já desde os primeiros desdobramentos da doença. “Foi uma das primeiras coisas que foram desaconselhadas. Toda viagem só vai acontecer se tiver uma discussão prévia e tiver muito alinhada e segura”, ressalta. Ele diz que não há parada de atividades; e garante que estão todos acompanhando as orientações dos órgãos competentes.

Governo lançou novas propostas para conter impactos da doença
No fim da semana passada, dentre as medidas lançadas pelo governo para minimizar o impacto do coronavírus na vida da população, estava a antecipação, para abril, da primeira metade do 13º salário dos aposentados e pensionistas do INSS. Agora, o Ministério da Economia lançou novo pacote emergencial, prevendo a antecipação também da segunda parcela para maio.

O pacote prevê, ainda, reforço do Bolsa Família, antecipação do abono salarial para junho e valores não sacados de PIS/Pasep sendo transferidos para as contas do FGTS de forma que possam ser sacados.

O governo também vai se abster da cobrança de alguns tributos, adiando o pagamento do FGTS pelas empresas por três meses e reduzindo pela metade as contribuições para o Sistema S dentro deste mesmo período.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgou que as instituições financeiras estão comprometidas em negociar e prorrogar dívidas de clientes pessoas físicas e pequenas empresas para os contratos vigentes em dia.

Todas são propostas voltadas a garantir que algum dinheiro seja injetado na Economia mais cedo, minimizando as consequências da crise e, em tese, fazendo as coisas andarem um pouco melhor. Mas é preciso atenção para que o cidadão não saia correndo para os bancos retirar esse recurso.

Com a pandemia, o gerente da Caixa Montenegro, Tito Livio Fauth Filho, conta que os atendimentos seguem normais. Mas como a agência é um lugar fechado e com aglomeração de pessoas, a orientação é que o cliente busque atendimento pelas ferramentas digitais, sempre que possível.

Hoje, até mesmo o Fundo de Garantia por rescisão pode ser transferido via aplicativo, sem a necessidade da ida presencial do trabalhador até a unidade.

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