Médico deixa o consultório, mas segue trabalhando. Ainda não quer parar de vez. Foto: arquivo Jornal Ibiá

“Há um tempo pra tudo”, reflete o doutor

Há duas sextas-feiras atrás, no dia 12 de fevereiro de 2021, o médico Dirceu Mauch, um dos mais tradicionais da região, teve o último dia de atendimento de seu consultório. Aos 78 anos de idade, o profissional orgulhoso por ter cuidado de tanta gente e por acompanhar o avanço da Ciência em mais de 50 anos de profissão, resolveu desacelerar um pouco.

Um dos eventos onde Mauch foi homenageado pela Unimed. foto: arquivo pessoal

Ainda segue fazendo exames ocupacionais e rotinas fora da parte de assistência na Unimed – parar por completo, ele considera drástico demais -, mas quer ter o tempo extra para se dedicar mais à família e aproveitar um merecido descanso. “Há um tempo para tudo, um tempo de plantar e um tempo de colher. Então, penso que parei num momento adequado”, avalia o doutor, admitindo que a decisão lhe tirou algumas noites de sono (e até alguns quilos).

Com lágrimas nos olhos, Mauch lembra do carinho que recebeu dos pacientes – muitos, cujas famílias estão a seus cuidados a gerações – quando começou a divulgar a decisão. Gente que lhe contatou lamentando a “perda” de seu zeloso cuidador, mas também agradecendo e reconhecendo o momento que é de viver ainda mais a vida e ser feliz. “Foram presentes, mensagens e cartões de uma generosidade tão grande; e acho que não mereço tanto carinho”, confidencia.

Em dezembro, médico foi reconhecido com o título de cidadão brochiense, pelo trabalho que fez em tantos anos dedicados à cidade. Foto: Acom/Câmara de Vereadores de Brochier

Dirceu Mauch nasceu em 1942, em São Lourenço do Sul, mas diz-se montenegrino e brochiense de alma e coração; apaixonado pelos dois municípios que lhe acolheram e onde cresceu na profissão. Formou-se em 1967 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, trabalhou por um ano em Jaquirana, na época uma comunidade interiorana de São Francisco de Paula, e, em 1969, passou a clinicar no Hospital São João, em Brochier, então Distrito de Montenegro. Viveu entre os brochienses até 1984 e, em função dos estudos da filha, veio para Montenegro, onde mora até hoje. “Os dois (municípios), para mim, se confundem porque eram uma coisa só.

Eu me sinto em casa desde que cheguei”, pontua o médico que, no ano passado, foi homenageado com o título de Cidadão Brochiense.


Amor pela profissão e pela comunidade

Olhando para trás, Mauch avalia que, em grande parte, foi por influência da mãe – que atuou na área de enfermagem – que acabou optando pela Medicina. Mas não nega que flertou com outras áreas, como a Educação e o Jornalismo. Hoje, diminuindo as atividades como médico, tem na ponta da língua a profissão que escolheria caso tivesse que optar por algo completamente diferente. “Ia ser guia turístico”, revela, entre risos.

Um “médico da idade da pedra”, como ele mesmo se referencia (e não em sentido pejorativo, é claro), o doutor avalia ter sido privilegiado por poder, ao longo da carreira, acompanhar os grandes avanços da Ciência e, com ela, da própria Medicina. Com isso, lembra e lamenta casos do passado em que acabou perdendo pacientes pela falta de recursos que, hoje, são acessíveis e à disposição para salvar vidas. “Mas foi um privilégio ser da geração que acompanhou esse desenvolvimento todo”, pontua.

Plantio da palmeira na Unimed onde Dirceu aparece com o falecido Dr. Kurt Heller. foto: arquivo pessoal

Atuante na comunidade, Mauch sempre foi além dos atendimentos. Em Brochier, ajudou na construção do Centro Comunitário e participou da organização de festas das comunidades religiosas. Em Montenegro, chegou a presidir o Lions Clube, foi diretor da Associação Comercial e também foi um dos que ajudou a fundar a Unimed Vale do Caí. “Acho que sempre tive esse espírito de, se viver num lugar, ser um cidadão do local”, declara.

Cheio de histórias, pacientes, conquistas e desafios – talvez um dos maiores deles, o de ter sobrevivido a uma infarto em 2008 – o homem que já muito viveu reconhece que a pandemia de coronavírus o pegou de surpresa. “Eis que, de um momento pra outro, nós voltamos cem anos, para quando houve a grande pandemia da gripe espanhola; e um vírus faz esse estrago no mundo. Jamais se previa enfrentar uma situação dessas”, reflete.

Mas sem minimizar o tamanho do desafio, Mauch avalia que, com mais conscientização quanto aos cuidados com a contaminação, a humanidade pode, sim, superar a doença. “Eu tenho uma visão de esperança!”, declara. E é com essa esperança que ele segue para a nova etapa da vida.

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