Mauch nasceu no município de São Lourenço do Sul e se formou pela UFRGS

Dirceu mauch,o quarto médico mais antigo da cidade, fala sobre a sua trajetória

Os cabelos ralos e a barba branca contrastam fortemente com a energia, a firmeza da caminhada e a segurança da argumentação. Difícil acreditar que o homem à nossa frente tem 77 anos. Apesar da idade e de já ter infartado, o médico Dirceu Mauch é, ele próprio, beneficiário de uma Medicina que avança diariamente em novas descobertas e permite a prevenção das doenças, ampliando e qualificando o tempo de vida. Tudo é muito diferente da época em que ele transformou o jaleco branco em uniforme e auscultou seus primeiros pacientes, no fim dos anos 60.

Hoje é o Dia do Médico, data adequada para contar a história de quem salvou muitas vidas e deixou seu nome gravado na história de centenas de famílias. Nascido em 1942, na localidade de São João da Reserva, município de São Lourenço do Sul, Dirceu Mauch tornou-se médico dos montenegrinos em 1969, quando passou a clinicar no Hospital São João, situado no então distrito de Brochier. Formado em dezembro de 1967, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, trabalhou por um ano em Jaquirana, na época, uma comunidade interiorana de São Francisco de Paula.

Quando olha para trás, Dirceu acredita que a opção pela Medicina foi fortemente influenciada pela mãe. Ela havia sido enfermeira na juventude e contava muitas histórias do dia a dia no hospital, o que despertou seu interesse. Antes de fazer a escolha, porém, também cogitou a carreira militar, especificamente, na Marinha. Ainda houve um tempo em que pensou em ser professor e até mesmo jornalista. “Na época da faculdade, dava aulas noturnas de Matemática e Ciências num curso de Madureza. Era uma espécie de EJA, para jovens e adultos”, recorda, lembrando que também tinha facilidade para escrever e falar em público.

A migração para Brochier não foi planejada. A “irmã” Odila, da ordem religiosa que administrava o hospital de Jaquirana, foi transferida para cá e convidou o jovem Dirceu, que a considerava uma espécie de segunda mãe, para clinicar no hospital São João. Naquele tempo, a Previdência Social tinha outro formato e o atendimento médico aos agricultores se dava através do Funrural. A casa de saúde era referência para Montenegro e seus distritos neste programa e precisava de um profissional para a prestação dos serviços. “Eu vim, acertei tudo com a direção e me mudei em questão de dias”, explica.

Com o tempo, Mauch foi conhecendo a região, estabelecendo relações pessoais e construindo amizades. Em 1972, passou a exercer, paralelamente, a função de médico perito do Instituto Nacional de Seguridade Social (o antigo INPS) e, no mesmo ano, participou da fundação da cooperativa médica Unimed Vale do Caí. Em 1984, mudou-se para Montenegro, foi presidente do Lions Clube e, em 1988, integrou a comissão organizadora do Montenegro Festa e Festa. Mesmo aposentado, continua atendendo em seu consultório e é, hoje, o quarto médico mais antigo em atividade. Mauch é casado desde 1968 e tem três filhos.

Relação de confiança e comprometimento
Tanto em Jaquirana quanto em Brochier, Dirceu Mauch foi o único médico da comunidade, o que construiu relações marcadas pelo binário confiança-compromisso. De um lado, os pacientes acreditavam muito no trabalho do profissional e o “doutor” sentia-se fortemente comprometido com a população. “Era comum ser chamado para fazer atendimentos fora de hora, aos sábados, domingos, à noite. Às vezes, virava a madrugada”, recorda.

Mauch é enfático ao dizer que, há 50 anos, o médico era mais próximo do seu paciente. “Hoje o contato é mais superficial, até porque, naquele tempo, eu cuidava da criança, dos pais e do vovô, da família toda, o que produzia um elo muito forte. Hoje, com as especializações, há médicos para tudo”, pondera. “Quando eu comecei, os médicos sabiam um pouco de tudo. Hoje, eles sabem muito de quase nada”, compara.

O profissional sugere, porém, que haja maior esforço no sentido de preservar o humanismo. “As decisões médicas não podem ser baseadas apenas em exames, em tecnologias e em algoritmos de inteligência artificial”, alerta, lembrando que, às vezes, o paciente já melhora durante a consulta, simplesmente porque conseguiu ser ouvido com atenção.

Homenagem
O dia 18 de outubro foi escolhido como o Dia do Médico em homenagem ao nascimento de São Lucas, o protetor dos profissionais dessa área. São Lucas foi um dos seguidores de Jesus e, segundo a tradição, escreveu um dos livros dos Evangelhos e o livro de Atos dos Apóstolos. Nestes textos, contou muitas histórias de Cristo, inclusive algumas das muitas curas e milagres que presenciou. São Lucas estudou Medicina em Antioquia (atual Turquia), e foi chamado pelo apóstolo Paulo de “amado médico” na epístola aos Colossenses. É considerado patrono dos médicos desde o século XV.

Um século de descobertas
Durante o século XX, os cientistas produziram avanços na Medicina com os quais nossos antepassados sequer tinham condições de sonhar. Veja alguns deles:

– O escocês Alexander Fleming investigou substâncias para matar as bactérias causadoras de infecção. A partir do mofo que se formou acidentalmente em uma experiência que fazia, em 1928, ele descobriu a penicilina, o primeiro antibiótico.

– Em 1953, o físico britânico Francis Crick e o bioquímico americano James Watson descrevem a estrutura em espiral dupla da molécula de DNA, que transporta as informações genéticas codificadas quimicamente para a transmissão das características hereditárias. A tecnologia está revolucionando a indústria da saúde, do modo como os negócios são feitos à forma como os pacientes são tratados.

– Em 1954, cirurgiões de Boston (EUA) realizam o primeiro transplante de órgão, um rim. Na ocasião, acreditava-se que a única forma de contornar a rejeição seria a partir do transplante entre gêmeos idênticos.

– Para obter imagens do corpo humano em três dimensões, por volta de 1972 ,os cientistas desenvolveram exames tomográficos axiais computadorizados. Por meio de um computador, combinam várias imagens de raios X que, juntas, criam um retrato tridimensional.

– Em 25 de julho de 1978, nasceu a inglesa Louise Brown, o primeiro “bebê de proveta”. O óvulo foi fertilizado fora do útero, usando esperma do pai. Passada a fase inicial de desenvolvimento, o óvulo foi reimplantado no útero da mãe.

– O médico americano Robert Jarvik desenvolveu um coração artificial. Em 1982, fez o primeiro implante. O paciente viveu 112 dias.

– Em 1997, cientistas do Reino Unido, anunciaram o nascimento da ovelha Dolly, uma duplicata gerada a partir de células mamárias de sua mãe. Provava-se aí a viabilidade da clonagem para produzir novos órgãos humanos.

– Em abril de 2000, a empresa Celera Genomics ganhou a corrida e concluiu antes do governo americano o sequenciamento do genoma humano, em um exercício que custou bilhões de dólares e envolveu milhares de cientistas por 8 anos.

Tecnologia: ressonância magnética permite diagnósticos mais confiáveis hoje

“Tenho a convicção de que sou um médico da Idade da Pedra”
A Medicina mudou muito desde que Dirceu Mauch passou a clinicar, há mais de 50 anos. Na época, predominavam as doenças infecto-contagiosas, como sarampo, coqueluche, tétano, difteria, a desnutrição, a anemia e as gastrointerites. “Em Jaquirana, cheguei a enfrentar um pequeno surto de varíola”, lembra o profissional. A maioria destas patologias desapareceu ou teve sua incidência drasticamente reduzida, graças à vacinação em massa e à melhoria das condições sanitárias. A multiplicação dos antibióticos também facilitou os tratamentos, aumentando a longevidade da população.

Como consequência, hoje são mais comuns nos consultórios as doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão arterial, diabetes; as cérebro-vasculares, como infartos e AVCs; doenças pulmonares; doenças neurodegenerativas, como Parkinson, Alzheimer e outras demências; e os variados tipos de câncer. “Hoje também se trata muitas enfermidades que são fruto de acidentes de trânsito e da violência interpessoal”, observa Mauch.

Se o perfil dos pacientes mudou, também é verdade que as ferramentas de diagnóstico foram aperfeiçoadas e multiplicadas, o que torna o exercício da Medicina mais fácil agora. “Tenho a convicção de que sou um médico da Idade da Pedra”, afirma Dirceu, rindo. Quando iniciou, os principais instrumentos de avaliação eram a “Anamnese”, ou seja, o interrogatório do paciente; e o exame físico. “Os médicos formados há 50 anos foram muito mais treinados para fazer exame físico, que consiste em apalpar, olhar, auscultar, percutir”, garante.

Mauch caracteriza o arsenal tecnológico à disposição do médico, na época, como “paupérrimo”. O Raio X era o grande recurso de imagem que se tinha, em equipamentos com desempenho muito inferior aos que estão disponíveis hoje. “Dava basicamente para diagnosticar fraturas”, explica. Não existia ecografia, tomografia, ressonância magnética. A endoscopia era feita com tubo rígido. “Era quase como engolir espada”, brinca.

Diante de tantas limitações, eram comuns as chamadas “laparotomias exploratórias”, que consistiam basicamente em abrir o abdômen para ver o que tinha lá dentro. “Hoje se faz uma laparoscopia, uma incisão mínima para inserir uma câmera e verificar o interior do organismo. O médico abria e, se encontrasse algo, como um tumor, por exemplo, tinha de resolver na hora. Não havia como fazer exames complementares. As decisões tinham de ser instantâneas”, compara. Nesse aspecto, a evolução é notável.

A universalização da tecnologia
Os avanços tecnológicos na Medicina são importantes, mas podem estar comprometendo a capacidade de diagnóstico dos profissionais. Segundo Dirceu, hoje, às vezes o médico pede tantos exames laboratoriais que os resultados chegam a causar confusão. “Primeiro se pede exame e depois se conversa com o doente, quando se conversa”, critica.

Do alto de sua experiência, Mauch acredita que tão importante quanto investir grandes somas em novos tratamentos e sistemas de diagnóstico, é estender o que já existe a um maior número de pessoas. Muitas vezes, o custo do medicamento para apenas aliviar os sintomas de uma doença rara em um único paciente seria suficiente para curar dezenas e até centenas de pessoas que continuam morrendo de enfermidades mais simples, como a desnutrição.

“Filosoficamente e eticamente, seria mais interessante universalizar o que já existe do que continuar aplicando fortunas em procedimentos caríssimos e que atendem a poucas pessoas. Investir na saúde, na prevenção, não dá lucro. O lucro está em tratar a doença. É uma lógica que precisa ser invertida”, defende o profissional.

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