Sílvia Regina Leite é a única mulher no grupo de açougueiros

As açougueiras de Montenegro provaram ter competência e ganharam a confiança dos clientes onde trabalham

Cada vez mais, as mulheres lutam por igualdade no mercado de trabalho. Embora ainda falte muito a ser conquistado, hoje em dia, a situação evoluiu em relação há poucas décadas. Sílvia Regina Leite, de 52 anos, e Milene da Rosa, 38, são exemplos de pessoas que enfrentaram o desafio e o preconceito para encarar uma profissão na qual os homens ainda são maioria. Ambas são açougueiras. E com orgulho. Depois de superar a desconfiança, agora elas são as preferidas de muitos clientes.

Sílvia lembra que a oportunidade de trabalhar em um açougue surgiu por acaso e nem ela acreditou que fosse dar certo por muito tempo. Na época, ela estava em busca de uma vaga na área de limpeza do supermercado Mombach, do bairro Timbaúva. Foi quando o gerente apostou em seu potencial e a convidou para trabalhar no açougue. “Eu nunca tinha visto uma mulher trabalhar muito tempo em açougue, mas resolvi tentar. Experimentei, gostei e fiquei”, conta.

E já se vão quase 20 anos desde que Sílvia resolveu “tentar”. Ao todo, foram 10 anos de atuação em sua primeira experiência, outros sete no extinto supermercado Natally e, desde que este encerrou suas atividades, a açougueira passou a integrar a equipe do supermercado Via II, da rua Buarque de Macedo. Para ela, não há problema algum em ser a única mulher no grupo formado por seis homens. “A gente aprende a lidar com eles”, brinca. Sílvia acredita que a força física necessária para desossar a carne é a única diferença que existe entre seu trabalho e o realizado pelos colegas. “O serviço é mais pesado. Tem coisas em que a mulher tem seus limites. É puxado”, avalia.

Contudo, ela não tem do que reclamar. “Não trocaria de profissão. Eu gosto de trabalhar. Seja qual for a profissão, a gente tem que fazer porque gosta”. A boa relação estabelecida com os clientes é um dos fatores que motiva Sílvia a seguir em frente na área que escolheu. “No começo, houve preconceito, mas agora eles gostam de ser atendidos por mim. Gosto de lidar com o público. Eles correspondem ao carinho que a gente dá”, comenta.

A açougueira lembra que, na infância, seu pai lhe dizia que ela poderia trabalhar com carnes, porque ela sempre gostou de ajudá-lo nas atividades relacionadas a este ofício. Satisfeita em ter seguido o conselho do pai, já falecido, e de ter conquistado o próprio espaço, ela comemora. “As mulheres estão em profissões que antes eram coisa só de homem”, constata, com muito orgulho.

As açougueiras e suas famílias na hora da compra
Na hora de comprar carne, a família de Sílvia Regina não pensa duas vezes em pedir ajuda para a profissional da casa. “Eles sempre recorrem a mim”, registra a veterana da turma de açougueiros.

Já na casa de Milena, a história não é bem assim. O marido dela, Alexssandro Garcia, 42, também é açougueiro e alimenta uma certa disputa com a “patroa”. “Ás vezes, separo carne pra assar e levo pra casa. Meu marido sempre pergunta por que não fiz um corte melhor ou deixei para que ele fizesse.”

Quando o assunto é carne, a situação na “casa dos açougueiros” conta ainda com uma terceira opinião. Stefani da Rosa, 21, filha do casal, trabalhou como açougueira durante quatro anos, o que lhe dá experiência para discutir com os pais.

“É uma vitória para as mulheres”, avalia Milene da Rosa

Milene da Rosa passou da padaria para o açougue e aprovou a troca

Há seis anos, Milene da Rosa deixou de ser a “moça da padaria” para trabalhar no açougue do supermercado Via II, do bairro Estação. Na época, o estabelecimento ainda estava instalado no bairro Cinco de Maio. “Já fiz de tudo um pouco dentro do supermercado. Fui chefe de padaria por cinco anos, mas, quando o açougueiro estava de folga, eu ficava no lugar dele”, conta.

Na nova fase do mercado, Milene é pioneira no açougue, mas nem por isso mostra algum tipo de superioridade em relação aos 10 companheiros de função. “Eu aprendo com eles e vice-versa. É bem melhor trabalhar só com homens. O pessoal é bem tranquilo”, avalia.

Colega de Milene há três anos, Alessandro de Oliveira, 27, admite que, no início, teve certo preconceito em ver uma mulher fazendo a mesma coisa que ele. Mas, com o passar do tempo, sua opinião mudou. “Eu vi o desenvolvimento do trabalho dela. Ela faz quase a mesma coisa que nós. A única coisa que não faz, é a desossa. Ela faz um bom trabalho”, assegura.

Por muito tempo os clientes também demonstraram desconfiança e resistência em serem atendidos por uma mulher. “Eles achavam estranho. Diziam que nunca viram uma mulher no açougue”, conta. Alguns até pediam que os homens os atendessem. “Eles achavam que eu não entendia de carne”.

Com dedicação e um sorriso no rosto, ela reverteu a situação e conquistou o próprio público. “Me entendo melhor com as pessoas de idade e com as mulheres. Muitas me pedem ajuda pra escolher a carne”, revela Milene. “É uma vitória para as mulheres. Estamos quase alcançando os homens na profissão”, aponta.

Conquistando a confiança e a amizade da clientela

Liberaldo de Souza e Milene da Rosa possuem uma relação de confiança e amizade

O aposentado Liberaldo de Souza, 70, é a prova de que Milene realmente conquistou a confiança e a simpatia dos consumidores. “Eu conheço ela há muitos anos. Ela era a padeira, agora é a açougueira”, exclama, sorridente. Para ele, o atendimento da “amiga” é 100% eficiente. “Eu sabia que ela ia se dar bem. Ela é excepcional”, diz o fã de Milene.

Liberaldo lembra da época em que, mesmo trabalhando na padaria, Milene lhe oferecia um “bom corte de carne” para o final de semana. Além das qualidades como açougueira, o aposentado destaca algo que considera muito importante nas relações estabelecidas entre atendentes e consumidores. “Ela está sempre alegre e sorrindo, não deixa seus problemas interferirem no trabalho. Ela é gente boa”, afirma Liberaldo.

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