Colocamos na ponta do lápis as principais despesas do dia a dia e seus valores em 2016, 2017 e 2018, para mostrar que o poder de compra das pessoas vem caindo

O mês ainda está na metade e o salário já está acabando? Embora o governo diga que não, parece que seu dinheiro tem cada dia menos valor? Custos fixos com combustíveis, energia elétrica, luz, água e telefone estão crescendo e sugando seu poder de compra? Você não está sozinho. Bem-vindo ao time daqueles que não conseguem entender os índices do governo e percebem que o dinheiro na carteira desaparece cada vez mais rápido.

O ano de 2017 fechou com uma inflação oficial de 2,95% no Brasil – um índice abaixo do esperado pelo governo, que havia fixado o piso da meta em 3%. Foi a primeira vez que algo do tipo aconteceu. A inflação de 2016 também já havia surpreendido. Ela fechou em 6,29% – dentro da meta, entre o piso e o teto – mas apresentando o menor índice dos três anos anteriores. Em 2018, o acumulado da inflação até setembro estava em 4,53%. Os dados são todos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que acompanha as oscilações.

A manicure Maria Lisete da Silva precisou fazer vários ajustes em casa

Por que é, então, que quando colocamos as despesas e custos de nossa casa na ponta do lápis, parece que os preços aumentaram muito mais do que isso? A manicure Maria Lisete da Silva, de 42 anos, também quer saber. “A gente vê a alta em tudo, principalmente na comida, no transporte e na gasolina. Eu ando muito de ônibus”, conta. “Aí tu tem que segurar. Eu vinha pra trabalhar e almoçava fora, agora eu trago meu almoço de casa. Também pesquiso muitos os preços.”
O Jornal Ibiá foi fazer as contas e buscar uma explicação para tudo isso.

Andar de ônibus ficou quase 17% mais caro
Quem usa o transporte público em Montenegro, uma vez por ano, leva o baque dos reajustes tarifários, que normalmente ocorrem entre junho e julho. As tabelas oficiais indicam que o preço das passagens de ônibus leva em conta custos com pessoal, combustível e manutenções, dentre outros.

E não é a Viação Montenegro – como muitos pensam – que estabelece os valores. As tarifas das linhas urbanas são definidas pela Prefeitura e as intermunicipais, por órgãos do Estado. A variação média de preço, no período de 2016 a 2018, passou dos 17%, o que vem pesando bastante no bolso dos usuários. Confira:

No táxi, valores estão sem reajuste desde 2015
Os taxistas não têm reajustes de preços desde 2015. O que mais influencia a decisão – apesar do aumento de custos, como o do combustível – é a concorrência, principalmente a dos aplicativos de transporte e motoristas particulares. Cada município tem seus valores definidos pela categoria, conforme as características e os custos do lugar. Os nossos são os seguintes:

Variação da gasolina chega a quase 23%
O mais polêmico item da lista, a gasolina comum, teve variação média de 22,82% em seu valor pelos postos de Montenegro. Como esclarece o Sindicato Intermunicipal do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes do RS (Sulpetro), o preço na bomba leva em conta a cobrança das refinarias, o valor gasto pelas distribuidoras com transporte e demais insumos, além das margens de lucro de cada membro da cadeia, até chegar no consumidor final. Há, ainda, a carga tributária federal, com destaque para o PIS e o Cofins, que tiveram reajuste durante o período analisado; e a carga estadual, com o ICMS, que também passou por ajuste.

Aumento no gás de cozinha passa dos 30%
Também combustível, o gás de cozinha envasado, de 13 quilos, aumentou bastante a despesa das famílias montenegrinas. O valor da Petrobras – a primeira da cadeia do produto – corresponde a 25% de seu custo para o consumidor final. 20% são tributos federais e estaduais e ainda há o custo com a distribuição e a revenda do produto, englobando transporte, envasamento e funcionários envolvidos em todo o caminho percorrido até os nossos fogões. Confira a média, em Montenegro, no período entre agosto de 2016 e julho deste ano:

Corretor de imóveis afirma que valor dos aluguéis se manteve estável
No que se refere ao valor do aluguel de residências, o mercado se manteve estável entre 2016 e 2018. Essa é a análise do corretor Rodrigo Sartori Rocha. Ele explica que, para estabelecer o preço de aluguel, é levado em conta o tipo da casa, o tipo de obra, a metragem, a localização, o material empregado, dentre outros fatores.

Rocha indica que uma casa com dois a três dormitórios em bairros como o Rui Barbosa ou o São João custam entre R$ 1 mil e R$ 1.500,00 mensais para o morador.

Conta de luz subiu muito mais do que a inflação
O preço da conta de luz varia por uma série de fatores. Além dos impostos estaduais (ICMS) e federais (PIS e Cofins), são cobradas taxas de iluminação pública e adicionais por bandeira tarifária – sistema criado em 2015. Entrada de novas usinas no sistema de abastecimento, aumento no nível de intercâmbio de energia entre regiões, redução de consumo, pouca ou muita chuva e a necessidade de acionamento de usinas movidas a combustível fóssil são todos fatores que interferem.

É dali também que sai o pagamento da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), um fundo de responsabilidade das distribuidoras que financia programas como o Luz para Todos, e subsídios, como os descontos para quem usa energia na irrigação. Para a análise, o Ibiá usou como base o valor pago numa residência que, no mês, consome média de 200 kilowatts/hora (kWh/mês).

A água também sobe todo ano para o usuário
O valor da água é calculado anualmente. De acordo com a Corsan, a tarifa é atualizada usando uma cesta de indicadores que visa assegurar o equilíbrio econômico-financeiro da estatal. Em seu site, a Companhia explica o reajuste como “necessário para a manutenção dos serviços de água e esgoto com qualidade e responsabilidade”. Usamos para a análise a seguir, as contas de uma residência montenegrina com três pessoas, que consome 18 metros cúbicos de água por mês. Acompanhe os valores médios:

Variação nos alimentos é grande e inconstante
Acompanhar a escalada no preço dos alimentos em Montenegro é complexo. As variações são diárias e há diferença de estabelecimento para estabelecimento. O período, a safra, o clima, a localização do varejo e a distribuidora contratada são algumas das variáveis de preço acompanhadas. A tabela abaixo foi composta a partir dos encartes publicitários publicados pelas lojas no Jornal, em diferentes períodos. Há altos e baixos.

Neste meio tempo, Salário Mínimo teve variação de apenas 8,41%
Com tudo subindo, o Salário Mínimo também foi ajustado. De 2016 para 2017, ele aumentou R$ 57,00, indo de R$ 880,00 para R$ 937,00. De 2017 para 2018, o aumento foi só de R$ 17,00, com o valor passando para R$ 954,00. No período, a variação foi de 8,41%
Os percentuais são fruto, justamente, dos índices da inflação do período. Para o cálculo, leva-se em conta essas variações, junto do resultado do Produto Interno Bruto do país nos dois anos anteriores. Como o valor do Salário Mínimo interfere nos benefícios pagos aos contribuintes – o INSS é um bom exemplo – estima-se que cada R$ 1,00 de aumento no salário gere um incremento de cerca de R$ 300 milhões nas despesas do governo.

Afinal, então, que inflação é essa que estão anunciando?
É comum que a inflação que as pessoas sentem no bolso seja maior do que o índice oficial. Não quer dizer que há fraude na divulgação. Em sua página, o IBGE explica que o índice é calculado com base em uma extensa cesta de produtos – são mais de 400, que vão desde o tomate até o aparelho celular, por exemplo.

Mas cada item tem um peso diferente, que leva em conta a importância dele na despesa das famílias. O impacto da baixa dos alimentos no índice da inflação é muito maior do que o da baixa dos veículos, por exemplo. Foi o que ocorreu em 2017, quando, em muitas partes do país, mercadorias como o feijão e o arroz tiveram queda no preço.

A cada ano está mais caro viver no município de mais de 64 mil habitantes

É importante ressaltar a lógica por trás da inflação. Se ela sobe, quer dizer que alguns itens ficaram mais caros. Se, no mês seguinte, ela sobe novamente, mas em um percentual menor, não quer dizer que o item não subiu. Quer dizer que ele seguiu subindo, mas em uma velocidade menor. Quando os valores caem, aí o que ocorre é a chamada “deflação”.

Esse percentual é utilizado como um controle do mercado nacional e das relações do consumo. Com base na inflação, é feito o ajuste do Salário Mínimo e diversos outros cálculos. Mais perto, pode-se exemplificar com a alíquota do Imposto Predial Territorial Urbano, o IPTU. Com o índice fechado em 2016, este imposto municipal foi ajustado em 7,16%. Com a baixa inflação de 2017, o ajuste para 2018 foi de 1,94%. Tudo tem interferência direta no nosso bolso.

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