No RS, CUFA atende cerca de 7.500 pessoas de forma direta e 45.000 indiretamente

Resistência. No município, a entidade tem trajetória marcada por muito ativismo social e, principalmente, empoderamento negro

“Até ontem eu queria ser o dono da ‘boca’, que era o lugar onde mais via dinheiro. Mas hoje eu quero ser alguém”, recorda o jornalista e coordenador geral da Central Única das Favelas (CUFA) em Montenegro, Rogério Santos, sobre um dos depoimentos mais emocionantes que já ouviu nesses quase 11 anos de trajetória da entidade no município. Para celebrar a data, no próximo dia 8 de setembro, a CUFA realizará uma série de atividades com participações especiais.

Para o coordenador, a data representa o resultado de esforços de vários integrantes e apoiadores. “Nesse período, conseguimos uma certa visibilidade na região e conquistamos parceiros fortes, como DEAM, Poder Judiciário, Ministério Público, CREAS e a imprensa montenegrina”, comemora Santos, que conheceu a entidade através do rapper MV Bill, um dos fundadores da organização conhecida nacional e internacionalmente. “Nos conhecemos durante a Feira do Livro do Colégio Sinodal Progresso, em 2008”, recorda.

Após alguns contatos com representantes da entidade no Rio de Janeiro, onde fica uma das principais sedes no Brasil, e integrantes do Rio Grande do Sul, a caminhada da organização dentro de Montenegro tomou forma e passou a integrar a rede. “A partir disso, começamos um processo de formação com algumas pessoas e definimos em quais locais iríamos atuar inicialmente”, conta Santos, destacando que na época o País enfrentava sérios problemas com os altos índices do uso do crack.

Diante da realidade também presente na cidade, foi a através do projeto “Montenegro Contra o Crack” que a CUFA deu os primeiros passos e iniciou uma trajetória marcada por muito ativismo social e, principalmente, empoderamento negro dentro das áreas periféricas do município. “Foi um trabalho que envolveu toda comunidade e que se tornou um embrião da CUFA”, relata o coordenador. “Tivemos uma redução muito grande dessa questão em Montenegro, além disso, no âmbito cultural, foram realizadas várias atividades. Teve a construção do ginásio no bairro Esperança, estruturação de escolas, entre outros feitos”, disse.

Atualmente, a CUFA atende em torno de 75.00 pessoas de forma direta e 45.000 indiretamente em todo estado. Apesar da falta de incentivo, a entidade tem contribuído para o desenvolvimento social, econômico e cultural das periferias no município. “Conseguimos pouco apoio em nossas iniciativas, pois a grande maioria acredita em projeto social como assistência social, algo que nunca faremos”, enfatiza Santos.

É dentro das periferias de Montenegro que a entidade busca, como um trabalho de forminha, mudar a perspectiva de vida de uma parcela da população muitas vezes invisibilizada, como aconteceu com o menino citado no início da matéria. Através as ações da CUFA, ele se sentiu motivado a concluir os estudos, terminou o ensino médio, fez um técnico e atualmente trabalha em uma grande empresa em Montenegro. “Toda vez que ele me encontra na rua, faz questão de dizer ‘foi graças a vocês [CUFA] que eu me salvei’, então são histórias como essas que resume os 11 anos da CUFA”, disse emocionado.

Rogério Santos salienta a importância de desmistificar a favela como um lugar restrito à violência e à pobreza

Favela como um espaço de identidade
Marcada pelos contrastes sociais e pela ausência do Estado, a favela é quase sempre vista como um lugar de exclusão, violência e pobreza, no entanto, esse estereótipo não corresponde de fato com a realidade. “Compreender a favela como um espaço apenas de violência e criminalidade é restringir as suas características a um único aspecto, o que é errado, já que esses problemas estão presentes em outros espaços urbanos, como acontece em Montenegero”, explica Rogério Santos.

Nesse cenário, um dos objetivos da CUFA é trabalhar a questão do pertencimento/reconhecimento entre indivíduo e a comunidade que ele ocupa. Mas, para isso, segundo o coordenador, é preciso um novo olhar sobre as periferias. “Buscamos virar a chave, trabalhando e amplificando esse potencial, organizando esse sentimento e construindo alternativas práticas para o desenvolvimento econômico da periferia pobre de Montenegro”.

À frente da coordenadoria da juventude em Montenegro, Danielle Araújo destaca a importância da entidade

Mulheres e jovens protagonistas
Desde que iniciou as atividades, a CUFA Montenegro tem desenvolvido diferentes projetos na cidade, alguns permanentes e outros transitórios, como o Cine Periferia CUFA, Projeto Segunda ao Quadrado, Maria Maria, Negro no Vale do Caí, Projeto a Luta de Denis, ações como o Natal Solidário, Palestras e Círculos de Paz na Comunidade Terapêutica Elis Regina e o Projeto Maria e João sem Violência.

Em cada iniciativa são as mulheres e os jovens que protagonizam os espaços mais importantes da entidade, como conta a coordenadora da juventude CUFA Montenegro, Danielle Araújo. “Eu não me identificava como mulher negra, e a CUFA foi o lugar onde eu me vi, entendi a minha identidade, o poder que eu tinha e o dever dentro da sociedade”, relata.

Confira a programação
09/09 às 19h30min
Sarau da CUFA, dedicados a escritoras e escritores, negros, letras de rap, música e vídeos, com Danielle Araújo, Naomi Silveira, professor Giuliano Souza Andreolli (UERGS) e participação do poeta e cantor Bruno Negrão. Ingressos gratuitos e limitados pelo whatsapp (51) 981.110.386.
Local: Mocambo da CUFA, rua Cel Antônio Inácio, 549, bairro Centro.

10/09 às 9h30min
Reunião com parceiros e apoiadores.
Local: Mocambo da CUFA, rua Cel Antônio Inácio, 549, bairro Centro.
11/09 ás 19h30min
Encontro das Pretas “De mãe para filha e de filha para mãe”, com a artista plástica Regina Helena e com a psicóloga Letícia Santos.
Local: Mocambo da CUFA, rua Cel Antônio Inácio, 549, bairro Centro.

12/09 às 15h
Chá “Não soltamos as mãos”, aniversário do Núcleo “Maria Maria” da CUFA Montenegro.
Local: Associação Comunitária da Vila Esperança

Saiba mais
A CUFA (Central Única das Favelas) é uma organização brasileira reconhecida nacional e internacionalmente nos âmbitos político, social, esportivo e cultural que existe há 20 anos. Foi criada a partir da união entre jovens de várias favelas, principalmente negros, que buscavam espaços para expressarem suas atitudes, questionamentos ou simplesmente sua vontade de viver. Tem o rapper MV Bill como um de seus fundadores, e a Nega Gizza, uma forte referência feminina no mundo do rap, conhecida e respeitada por seu empenho e dedicação às causas sociais. Tem ainda o produtor Celso Athayde como coordenador geral.

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