FELIPE Leser, Carlos Batista, Fabrício Fonseca e Miriam Santos: direção defende que essa atitude foi necessária

UTI. Consultas e exames ambulatoriais estão canceladas por tempo indeterminado para assim priorizar a Emergência

No exato dia em que completou seis anos de adesão 100% SUS, o saguão e a sala de espera do Ambulatório do Hospital Montenegro (HM) estavam vazios. No segundo andar, os semblantes da direção eram de preocupação e desânimo. A comemoração deu lugar ao anúncio da suspensão, por tempo indeterminado, das consultas e cirurgias eletivas agendadas através das secretarias de saúde dos municípios do Vale do Caí, fruto de uma crise que compromete inclusive salários.

PACIENTES que já tiverem consulta agendada ainda serão atendidos

Essa atitude representou uma escolha da direção diante do déficit mensal e dos atrasos nos repasses dos governos Federal e Estadual. Desta forma, poderão ser mantidos os atendimentos no Plantão, assim como seus exames, curativos, gesso e cirurgias consequentes. Estão garantidas ainda as interações, UTI e os partos. O diretor Carlos Batista lamentou ter que fazer uma escolha dessas; porém, não era possível manter a estrutura de atendimentos atual.

“Existe uma forma de fazer sem dinheiro?”, questionou, durante entrevista coletiva. Ao lado do diretor financeiro, Felipe Leser, ele salientou que o hospital é filantrópico e fundamental para o Vale do Caí; mas infelizmente, por quatro anos, o Estado não entendeu desta forma.

Tanto que hoje deve R$ 4 milhões 282 mil com atrasados desde agosto, mesmo após sucessivos cortes no contrato original. Dentro deste valor há inclusive verba federal retirada pelo Governo gaúcho. A crise gerou atraso de pagamento aos fornecedores, aos médicos – que não recebem desde julho –, e a incerteza quanto a quitação da folha de pagamento.

“Salários serão pagos amanhã (quarta-feira) até R$ 1.000,00 por colaborador. Estamos em tratativas com o Banrisul para liberar empréstimo via SUS para quitar dívidas com fornecedores, o 13º salário e também os prestadores médicos”, declarou Batista. O diretor Técnico Médico, Fabrício Fonseca, acredita inclusive que, mesmo se o Governo colocasse os repasses em dia hoje, ainda seria pouco provável retomar esses serviços paralisados. “Assim prejudica menos a comunidade. Ou ao menos, aqueles pacientes mais graves”, justificou o médico.

Montenegro pede reunião com secretário
A secretária Municipal de Saúde de Montenegro, Cristina Reinheimer, declarou ontem estar extremamente preocupada com a crise em que se encontra a saúde do município. Ela referia-se especificamente a esse cancelamento dos atendimentos ambulatoriais das especialidades do HM. “Pois não há para onde encaminhar esta demanda de pacientes”, informou.

Através da assessoria de imprensa da Prefeitura, disse ainda que foi solicitada uma reunião de urgência com o secretário Estadual de Saúde, Francisco Paz e com o Diretor de Departamento de Assistência Hospitalar e Ambulatorial, Rogério Sele. Neste encontro Cristina pretende que estejam demais secretários de saúde dos municípios da região do Vale do Caí.

Contrato mensal deveria ser maior
O responsável financeiro do Hospital Montenegro defende que o contrato com o Estado, ao invés de ser diminuído, deveria aumentar. Hoje o ideal seria R$ 4 milhões e 200 mil ao mês, o que na prática representa somente a devolução daqueles R$ 400 mil cortados no ano passado. Essa redução teria sido meramente para economia do Governo; mas que tornou o HM inviável, com um tamanho maior que seu caixa, operando com rotina de R$ 300 mil de déficit a cada mês.

O resultado desta política econômica foi exposto pela gerente de Enfermagem, enfermeira Miriam Santos. Apenas em novembro, 800 consultas ambulatórias deixarão de ser atendidas; e em novembro e dezembro 118 cirurgias eletivas não serão realizadas. Batista encerrou dizendo que tudo isso vinha sendo exposto sistematicamente à imprensa (reportagem do Ibiá edição de 16 de outubro) e aos secretários e prefeitos da região. “Não tem surpresa nenhuma”, apontou.

Em resposta ao Ibiá, a Secretaria de Saúde do Estado disse apenas que não havia sido informada a respeito desta situação. “Este hospital é orçamentado e possui contrato. Portanto, não pode ‘intempestivamente’ suspender serviços, devendo comunicar oficialmente o Estado e não houve comunicado para a SES/RS. Sobre as pendências, estão em aberto duas competências (agosto e setembro) dos incentivos estaduais”, diz a nota enviada por e-mail pela assessoria de imprensa.

O diretor rebateu, garantindo que foi envido um comunicado direto ao secretário Francisco Paz. “Intempestivo é o Estado que não paga o que deve!”, declarou. A reportagem perguntou à Secretaria se ainda nestes dois meses que restam de governo Sartori os repasses seriam colocados em dia, mas essa questão foi ignorada.

Você sabia
– O Hospital Montenegro é um dos 18 que atendem casos de Acidente Vascular Cerebral (AVC) no Rio Grande do Sul. Neste tratamento, apenas uma injeção específica custa R$ 1,7 mil;
– Por mês a instituição realiza 500 internações, realiza 4 mil atendimentos no plantão e registra 114% da capacidade de internação na UTI.

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