Cássia Oliveira
Jornalista, editora
do Jornal Ibiá

Se o que você deseja é uma crítica do filme Coringa, que chegou aos cinemas no último final de semana, pare de ler por aqui. Se você ainda não viu o filme e está fugindo dos spoilers, também é melhor nem começar. Explico a razão. É que não tem como sair da sala escura sem duas certezas. A primeira é a de que Joaquin Phoenix levará o Oscar. A cada crise de riso, conforme a loucura do personagem avança, ele brilha um pouco mais. A segunda é a de que a obra do diretor Todd Phillips é um retrato do drama dos invisíveis.
Uma criança é adotada por alguém com problemas mentais. Mas tudo bem, foi um erro do Estado. Depois, agredida pelo padrasto, ela fica com sequelas psicológicas. Mas tudo bem, sobreviveu. Décadas se passam, o adulto assume um sub-emprego e sobrevive à base de remédios. Mas tudo bem, ninguém o vê. Ele é infeliz, mas não faz mal para ninguém e ainda conta piadas vestido de palhaço pelas ruas. Nada de errado! Seu encontro com a assistente social é então cortado por economia de verbas públicas e ele já não ganha mais seus remédios. Mas tudo bem, quem se importa? Um belo dia, ele perde o emprego e, como se isso fosse a gota d’água que faltava, revolta-se contra a vida em que, nem por um dia, foi feliz e vinga-se da sociedade que jamais lhe deu atenção.
Sim, é o enredo de Coringa. Mas também é a história de vida de muitos invisíveis sociais. O viciado em crack só é visto pela sociedade quando arromba uma casa, rouba algum eletrônico e troca por drogas. O depressivo só ganha importância para a maioria – se é que ganha – quando tenta o suicídio. O adolescente sofre bullying na escola e os pais e os educadores fingem não ver. Tudo bem, todo mundo passou por isso na vida. A criança que cresce num ambiente sem amor só tem seus gritos ouvidos quando já não carece de cuidados, mas sim de punição.
O Brasil está cheio de coringas invisíveis, abandonados por seus pares até que irão explodir e, com violência, devolver à sociedade a marca de dor que esta lhes ofereceu a vida toda. Alguém dirá que a boa índole de uma pessoa deveria se sobrepor a qualquer adversidade. E eu concordo. Deveria. Mas é prepotência demais da sociedade acreditar que sairá impune diante de tantos fechar de olhos. Mundo afora, o filme está gerando polêmica, com pessoas dizendo que ele incentiva manifestações violentas. Sinceramente, não me pareceu merecedor dessa crítica. Prefiro pensar, de forma bastante otimista, que Coringa estimule as pessoas a olhar mais para o outro e menos para si mesmas. E, assim, vejam quem mascara com um sorriso o rosto triste, antes que seja tarde demais.

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