Vida. Montenegro ainda tem locais onde poços e caminhão-pipa garantem o abastecimento

Água potável é saúde! Mas você sabia que em Montenegro ainda há comunidades do interior aonde ela não chega? Uma realidade que é sanada por poços artesianos particulares ou comunitários ou pelos antigos poços cavados, e ainda por caminhão-pipa. Neste momento, Faxinal, Bom Jardim e Muda Boi lutam para concluir a implantação ou ampliação no abastecimento através de extração do solo.

Não ter água encanada é a história de vida das cerca de 100 famílias das vilas João XXIII e Morro do Barreto, na parte do Faxinal do outro lado da BR-470. Ali, somente a captação particular permite matar a sede. Todavia, a água não é límpida e no Verão fica escassa, obrigando a recorrer ao vizinho ou chamar o caminhão da Prefeitura. Enquanto isso, no topo do Morro dos Barretos, o poço comunitário perfurado em 2017 espera por conclusão.

Rubem Viana mostra que a água de seu poço cavado há 24 anos no chão da localidade de Faxinal é límpida

Este é um dos locais onde uma parceria entre Corsan e Prefeitura retomou os projetos e criou a esperança de abastecimento no primeiro semestre. O vice-presidente da Associação de Moradores do Bairro Faxinal, Everton Cesar Baum, o “Alemão”, lembra que esta luta iniciou em 2010, após a Corsan avisar que não era lucrativo cruzar a rodovia para atender aquele número de casas. Com um dossiê em mãos, ele explica que o teste de vazão feito agora definirá a potência da moto-bomba necessária.

A informação é fundamental para a RGE puxar a rede trifásica ao Morro, permitindo que a Prefeitura conclua o projeto de instalação e distribuição.
“Se tivermos água este ano ainda, já estaremos felizes”, declarou, definindo o Verão como limite aceitável. É na estação mais quente do ano que o Faxinal sofre com racionamento e torneiras secas. Para evitar isto, Alemão já cavou três poços na propriedade, todavia concorda que o sabor não é agradável. “Nem diz teste (de pureza) para não saber”, brincou.

Maria não quer ver vizinhos com sede
O poço antigo no Bom Jardim tem 60 metros de profundidade e enche uma caixa de 10.000 litros, sendo acionado conforme o nível do reservatório. A manutenção da rede é

Maria cedeu um pedaço do terreno para o novo poço do Bom Jardim

responsabilidade unicamente da associação de moradores, inclusive a contratação da empresa que faz o tratamento com cloro. As 114 famílias têm um limite de 15 m³, ou 15.000 litros, por mês, mediante taxa de R$ 25,00. Cada metro ultrapassado acresce R$ 3,00 à conta, mas os excessos são raros.

O novo poço tem 104 metros de profundidade e, ao contrário do antigo, está na parte alta e fará a distribuição por gravidade. Ele será possível graças à doação do saudoso Lecindo Luiz da Silva e sua esposa Maria Nedir. A idosa de 77 anos recorda que não precisaram pensar muito para ceder um retângulo na propriedade. “Deus me livre que faltasse água para o pessoal”, comenta, sendo que também sofre com a escassez.

Corsan está sendo parceira do Município
Os testes de vazão e de potabilidade estão sendo realizados pela Corsan (foto ao lado) atendendo pedido da Prefeitura de Montenegro, com interlocução da vereadora Josi Paz (PSB). O chefe da unidade local, Lutero Fracasso, lembra que este tipo de serviço no campo não é responsabilidade da autarquia, mas das cidades. No entanto, ela já realizou as perfurações dos três poços comunitários que estão sendo testados em março.

O teste de vazão verifica quantos litros de água podem ser extraídos por hora e por quanto tempo ao dia, pois ela deve ser moderada para não comprometer as vertentes. Ou seja, o nível não pode ficar abaixo do olho da vertente, sob risco de contaminar e obstruir a vazão. Já o exame de pureza verifica se aquela água está dentro dos padrões, conforme normas legais vigentes.

A Companhia dispõe de apenas duas equipes para realizar este serviço em todo o Estado, portanto, não há prazo para a conclusão. Lutero reitera que a Corsan não é obrigada a trabalhar em locais que não recebem sua rede de abastecimento. “É uma parceria para auxiliar o Município”. Com recursos do Fundo de Gestão Compartilhada em Montenegro, também já adquiriu 10.000 metros de tubulação de 60 milímetros e três reservatórios de 20.000 litros para completar os projetos.

Faxinal tem água de pureza duvidosa, racionamento e falta é constante
A qualidade da água usada hoje pelos moradores do Faxinal é uma dúvida. Em que pese não haver registro de ocorrências de saúde. E, em 2016, um teste feito pela Prefeitura teria dado negativo, conforme recorda a florista Nara Cristina da Rosa Sudoski. Ela acredita que a água do poço artesiano da família à beira da rodovia é a melhor. Todavia mostrou que no fundo das garrafas guardadas na geladeira surge um resíduo da decantação.

Água do poço artesiano de Nara fica amarelada com a decantação

“Se deixar parada de um dia para o outro fica um amarelo no fundo”, confirma. Seus vizinhos têm mais azar, pois veem uma película fina acumular rapidamente sobre o líquido. Rubem Viana, 61 anos, confirma, revelando que abandonou os dois poços artesianos que perfurou. “Sai cristalina, mas depois fica com ferrugem”, descreve. Então segue usando a água do poço cavado há 24 anos, que não tem cheiro, gosto ou cor.

Os resíduos encontrados em alguns poços comprovam que é hora de colocar água tratada na comunidade. Essa qualidade afeta tarefas simples do cotidiano, tornando, por exemplo, impossível lavar uma roupa branca. “E as máquinas de lavar estragam muito por falta de pressão”, recordou a mãe de Nara, Lucia da Rosa, de 72 anos. Especialmente no alto do Morro, onde foi perfurado o primeiro ponto de captação da comunidade, o esgotamento das fontes naturais obrigam o racionamento da água.

Parte alta do Bom Jardim sofre com a falta
No Bom Jardim e no Muda Boi a situação pode ser considerada um pouco melhor, pois essas comunidades, com cerca de 100 famílias cada, têm poços comunitários em funcionamento. Agora o pedido é para potencializar as redes. No ano passado, o Estado inclusive perfurou novos poços, mas que a Prefeitura ainda não colocou em funcionamento.

Letícia e o pequeno Enzo Griebeler conferiram que de fato o fluxo ficou mais fraco ao meio-dia da última quarta-feira

Waldemar Antônio Helfer, 73, presidente da Associação Comunitária da ERS-411 do Bom Jardim, classifica a vazão do curso d’água aberto em 1998 como “fraco”. A região cresce rapidamente, inclusive com o projeto de um condomínio, e pede que a capacidade seja dobrada. É habitual as torneiras ficarem fracas em horários em que os moradores estão em casa, como ao meio-dia e nos finais de semana.

Já no topo da lomba, na divisa com Costa da Serra, ficam sem água. A cabeleireira Roseli Silveira da Motta, 38, instalou duas caixas d’água, uma de 250 litros exclusiva para a cozinha. “Sábado aqui nunca tem água”, comenta, pois é quando as famílias estão em casa e colocam a limpeza em dia. A escassez é mais aguda no Verão, quando as máquinas de lavar nem podem ser ligadas.

Helfer mostra o sistema de aplicação gradual de
cloro que garante qualidade da água no Bom Jardim

O mesmo acontece na sua vizinha da frente, Letícia Griebeler, 19, que aprendeu a usar o líquido de forma moderada. “Quando meu marido chega do trabalho no caminhão, lá pelas 10 da noite, algumas vezes não tem água para o banho”, diz, ao lembrar que Michael Bilhar já teve que recorrer ao chuveiro da sogra, em outra comunidade.

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