Por diversas horas do dia, moradores ficam sem água corrente em suas residências
Juca mostra o poço que já foi perfurado, mas que ainda não foi colocado para funcionar

Falhas no abastecimento ocorrem por diversas horas do dia há mais de mês

Chega o Verão, aumentam as temperaturas e, consequentemente, cresce o consumo de água. Em muitas comunidades esse ciclo não afeta muito o dia a dia das pessoas – com exceção em períodos de seca –, mas não é o caso de Muda Boi, no interior de Montenegro. Lá, mais de 150 famílias sofrem com o desabastecimento de água porque o único poço artesiano em funcionamento na localidade não dá conta da demanda.

Assim, é comum que parte da comunidade fique desabastecida por diversas horas por dia. “Água é aquele esquema: vai tomar banho, não tem. Para fazer comida, não tem”, comenta o agricultor Cláudio de Souza Franco, 50 anos. Para não ficar sujo ao meio-dia quando retorna para casa para almoçar, ele tira o excesso da sujeira com a água que sobra da máquina de lavar roupas.

Franco estoca em tanque a água que foi usada pela máquina de lavar roupa para poder reaproveitá-la

“Eu tomo banho de bacia”, conta o produtor de carvão Homero Azevedo, 59 anos. Morando há anos na comunidade, ele diz nunca ter presenciado situação semelhante. “É difícil. Faço reservas de água quando dá”, revela. Por situação semelhante passa José Inácio Frank, o Juca, 57 anos. “Tomo banho de caneca”, afirma.

Sua inconformidade com a situação também se dá pelo fato de que sua mulher, Eva Terezinha de Almeida, 65 anos, doou para a Prefeitura um pedaço de 16 m² de sua terra para que um novo poço fosse perfurado na comunidade. Já fazem três anos da doação do terreno e da abertura do poço, que foi feita pelo governo estadual, e até agora nada dele ser colocado para funcionar. “É um sufoco”, lamenta Eva sobre a situação vivida.

A atendente administrativa Gilmara da Rocha Rosa, 31 anos, diz que a situação do desabastecimento se repete há mais anos. “Água é algo que a gente necessita. Não se vive sem (água)”, reforça. Ela cobra, ainda, que seja providenciado o abastecimento das caixas d’água da comunidade por caminhões-pipas.

As constantes interrupções no abastecimento fazem com que aqueles que possuem poço artesiano próprio sejam referência entre os vizinhos. É o caso de Silvia Franco Ribeiro, 31 anos, e sua família. “Os vizinhos buscam água de litro e de balde”, conta. “É complicado. Em 2017 foi aberto um segundo poço para dar conta (da demanda) e, até agora, nada (dele entrar em funcionamento)”, salienta.

Vazamento na rede agravou situação no final de dezembro

Como é comum em localidades do interior, o poço artesiano e a distribuição de água na localidade são de responsabilidade da própria comunidade. Nesse caso, a entidade responsável é a Associação Comunitária de Muda Boi. Cada família paga R$ 4,00 de taxa e R$ 1,50 por metro cúbico consumido. “Quanto eles têm alguma necessidade, precisam de algum auxílio, eles pedem para a Prefeitura”, comenta o secretário de Desenvolvimento Rural do Governo Carlos Eduardo Müller, o Kadu, Alexandre Both.

Por causa dos problemas no abastecimento, banhos acabam sendo tomados com água armazenada em baldes ou bacias

Segundo Both, a situação na comunidade foi agravada no final de dezembro por conta de um rompimento na rede. Inclusive, essa ocorrência foi relatada em ofício assinado em 23 de dezembro de 2020 pelo então prefeito Carlos Eduardo Müller, o Kadu, para um questionamento feito pela Defensoria Pública do Estado (DPE) sobre o tema.

No documento é relatado que a situação do problema de fornecimento de água foi informada à Prefeitura pelo presidente da associação, João Paulo Orth. Ele mesmo acionou a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) para fazer o serviço de identificar o local do vazamento. Localizado o local do rompimento, o Executivo disponibilizou uma retroescavadeira para que a associação efetuasse os reparos necessários.

Além disso, o documento cita que um poste de luz foi instalado em 22 de dezembro pela secretaria municipal de Viação e Serviços Urbanos para que a associação possa pedir a ligação de luz para colocar em funcionamento uma nova bomba para puxar água para as caixas d’água.

Solução definitiva ainda é impasse
São diversas as possibilidades para que a comunidade de Muda Boi não sofra com o desabastecimento de água. No entanto, nenhuma delas aparenta ser uma solução imediata.

Segundo Both, para colocar em funcionamento o poço artesiano perfurado em 2017 é preciso que um terreno seja doado para que seja construída a torre onde ficará o reservatório de água. No entanto, conforme o presidente da associação comunitária, há dificuldade em conseguir essa doação. “Corremos atrás o ano inteiro (2020) e não conseguimos”, conta.

Existem duas caixas d’água de 10 mil litros cada na comunidade.
População pede que abastecimento também seja feito com caminhões-pipa

João Paulo defende que a Prefeitura reforce a estrutura das torres já existentes e coloque, ao menos, uma caixa d’água maior no local. No entanto, conforme o secretário de Desenvolvimento Rural do Governo Kadu, isso não seria possível porque os suportes são dimensionados para caixas de 10 mil litros. Além disso, se fosse feito algum trabalho envolvendo as caixas d’água e suas estruturas de sustentação seria necessário cortar o abastecimento por completo por alguns dias. “Aí seria pior o problema, ficaria sem água mesmo”, aponta.

A atual Administração Municipal entende que é preciso apenas de um motor e a canalização para promover a distribuição da água através do novo poço artesiano, resolvendo assim a escassez e ampliando a oferta para outras seis famílias.

Outra possibilidade é repassar a responsabilidade pelos cuidados com o abastecimento e os poços artesianos para a Corsan. “Até estive pensando, mas vai ser muito difícil os moradores aceitarem por causa do preço”, destaca João Paulo. Esse é o mesmo ponto destacado por Both: o aumento na taxa caso a estatal assumisse o fornecimento de água na comunidade.

Enquanto isso, a solução encontrada pela direção da associação comunitária é fechar os registros que liberam a água para a rede durante a noite e madrugada, permitindo que os dois reservatórios de 10 mil litros cada sejam abastecidos e depois. Às 5h os registros são reabertos.

Secretários estiveram na comunidade
O secretário Geral, Vladimir Ramos Gonzaga, e o secretário de Desenvolvimento Rural, Ernesto Kasper, foram na quinta-feira, dia 7, até Muda Boi verificar a situação de perto. O vereador Valdeci Alves de Castro (Republicanos) acompanhou o encontro com os moradores. Gonzaga e Kasper ouviram os relatos da comunidade e observaram as dificuldades enfrentadas. Os representantes da Administração Municipal reconhecem a necessidade de resolver o problema com agilidade. “Nós vamos imediatamente fazer um levantamento dos custos e buscar a viabilização de uma solução rápida”, garantiu Kasper.

Representantes da gestão Zanatta estiveram reunidos com moradores na quinta-feira

Um dos pedidos ouvidos foi o de uma promessa feita pela gestão anterior: providenciar o abastecimento das caixas d’água também com um caminhão-pipa. Inclusive, no ofício enviado pelo Governo Kadu à DPE é informado que a Prefeitura buscava orçamentos para abertura de processo emergencial de contratação de caminhão-pipa para abastecer a comunidade. No entanto, a secretaria municipal da Fazenda informa que no governo anterior, encerrado em 31 de dezembro de 2020, não chegou a ser aberto processo para a contratação de caminhão-pipa.

A nova gestão constatou que a Prefeitura possui um veículo que, em tese, poderia ser usado para abastecer a comunidade. Contudo, no passado, o tanque foi contaminado pelo transporte de água de um dos lagos do Parque Centenário, o que tornou seu uso para fornecimento do produto para consumo humano impossível.
Mais tarde, como medida corretiva, o tanque foi revestido com fibra de vidro, mas o secretário municipal de Viação e Serviços Urbanos, Neri de Mello Pena, o Cabelo, que recém assumiu o cargo, não localizou nenhum laudo confirmando que ele está novamente em condições de transportar água potável.

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