Chuva melhorou a situação das variedades futuras, mas ainda é preciso mais. Fotos: Arquivo Pessoal/Jaime Kochenborger

 

A fruta queridinha dos gaúchos esse ano sofreu com as consequências da estiagem no Rio Grande do Sul. Com uma das maiores produções de bergamota do estado – segundo a Emater-Ascar/RS – Montenegro já amarga perda de 50% na sua produção. A chuva da última semana veio em boa hora, mas os danos causados não serão revertidos, foi apenas uma redução de danos aos produtores.
Com aproximadamente 3 mil hectares de citros plantados, cerca de 2.700 são de diferentes tipos de bergamota. E sobre esta terra estão em torno de 800 produtores que tentam de alguma forma recuperar a sua safra.

A extensionista rural agropecuária, Luísa Leupolt Campos, afirma que o principal benefício das chuvas foi evitar que muitas plantas morressem, pois elas já estavam muito murchas. “A chuva foi uma ‘chance’ pras variedades mais tardias tipo a Montenegrina, no que se refere à redução de danos”, comenta. Entretanto, não é só o citros que está sendo afetado. A agropecuária montenegrina sofre perdas significativas, com a cultura do milho lutando contra a seca desde o plantio e confirmando agora uma perda de 60%. Na bovinocultura de corte estima-se queda de 20%; na bovinocultura de leite são 30% e na piscicultura a perda é cerca de 35%. Além disso, pode-se observar as plantas secando pela região.

Expectativa é de que ocorra mais uma boa chuva para ajudar no desenvolvimento do fruto

E estes são índices do levantamento concluído na metade de março, sendo que, segundo Luísa, de lá para cá a situação só se agravou. “A chuva foi benéfica para a planta de maneira geral, porque evita que ela morra”. Porém, a diminuição na disponibilidade de frutas deverá ainda resultar em aumento dos preços para o consumidor, podendo até dobrar o preço da fruta.

Há poucas nuvens no horizonte
O Instituto de Meteorologia Climatempo apontou que no mês de maio duas frentes frias, de forte intensidade, iriam passar pela Região do Vale do Caí, acarretando em dois eventos de chuvas de intensidade moderada a forte. O primeiro previsto ocorreu na última semana; e a segunda frente fria deve passar ainda nesta semana.

Integrantes da Associação de Produtores Rurais de Campo do Meio e Região (Citruscampo) iniciaram a colheita

Mas, como nos meses anteriores, as chuvas para o próximo período não serão frequentes, porém em boa quantidade. “Vale lembrar que não será essa chuva que vai reverter por completo o quadro de estiagem”, comenta a Angela Ruiz, do Climatempo. A extensionista Luisa conta com a confirmação de todas as previsões de maio, pois, ao menos, reduziria a expectativa de danos nas próximas variedades colhidas, como a bergamota Montenegrina.

Alternativas em tempos de seca
Prever um período de estiagem não é possível. Mas se preparar sempre está ao alcance do produtor. Como alternativas para reduzir prejuízos, Luísa indica o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro). Ele garante a exoneração de obrigações financeiras relativas à operação de crédito rural de custeio, e já está sendo acionado pelos produtores.

Além disso, a Prefeitura de Montenegro decretou situação de Emergência Rural, e no dia 9 de maio teve reconhecimento do Governo Federal. Seu reconhecimento federal possibilita socorro financeiro aos agricultores afetados. São benefícios como renegociação de dívidas no setor de agricultura junto ao Banco do Brasil; aquisição de cestas básicas por meio do Ministério da Cidadania; e retomada da atividade econômica de municípios afetados com suporte do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Medidas a médio e longo prazo são as mais recomendadas. Investimento em açudes; estruturas de irrigação; cultivos protegidos, e soluções tecnológicas são algumas das medidas que Luísa recomenda. “Já está crescendo o número de citricultores buscando irrigação dos pomares. Não é a solução, visto que os açudes também estão secando, mas você consegue retardar um pouco isso”, avalia. A Emater também tem atuação em todas essas alternativas, seja auxiliando o agricultor na hora do projeto, seja em sua aplicação.

Para o homem do campo, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural (SMDR) tem realizado atendimentos nesse tempo de estiagem. Segundo o secretário da SMDR, Renato Caiaffo da Rocha, desde dezembro até o momento em torno de 210 famílias já foram auxiliadas devido à estiagem. “Já temos praticamente realizado mil horas máquinas para atendimento dentro do campo para as famílias que estão com problema de falta de água e também já despendemos um montante de recursos que aproxima a 200 mil reais”, diz. “E nós estamos também politicamente monitorando e pleiteando medidas obviamente mais do Governo Federal, para poder atender essa dificuldade do produtor”, declara o secretário.

Comissão já pensa no futuro pós-estiagem
Diante da crise no setor primário, forças vivas da comunidade estão mobilizadas com foco no momento seguinte à seca. O presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural (Comder), agricultor Ernesto Carlos Kasper, explica que a comissão de elaboração do Plano de Desenvolvimento Rural tem sido aglutinadora de entidades e órgãos públicos para avaliação da estiagem.

Da Secretaria Municipal virão dados norteadores para ações, baseados, primeiramente, no conhecimento das necessidades emergenciais. “Água pra consumo. Como isso está hoje”, referiu Kasper. E neste momento a preocupação está voltada diretamente aos lares, as pessoas, sendo necessário saber onde há poços artesianos e rede d’água domiciliar, e qual o consumo nestas comunidades.

Dentro desta temática, o presidente lembra-se da recorrente alternativa ‘abertura de açudes’; mas que ele classifica como solução para o futuro. “A gente sabe que sempre existe estes altos e baixos. A cada quatro ou cinco anos existe sempre uma tendência de dar uma estiagem”, comenta. E é somente durante estas emergências que esta solução para estocagem de água retorna ao debate.

E Kasper avisa que extração dos lençóis freáticos para irrigação de lavoura é inaceitável. Assim, defende que no cerne destas discussões esteja a consciência em relação ao uso racional e à preservação da água de superfície, onde é imprescindível a intervenção do Poder Público.

De acordo com ele, a chuva auxiliou a mitigar perdas, sobretudo na bergamota Montenegrina, cujos pés estavam sofrendo bastante com o estresse hídrico, mas as perdas das variedades Caí e Pareci já não puderam ser mitigadas. “A área técnica e a gerência da agroindústria da Ecocitrus seguem avaliando, sobretudo a variedade Caí, para planejar os próximos passos do processamento e, acima de tudo, auxiliar os agricultores e agricultoras familiares associados a não perderem tanto sua produção por conta da estiagem”, diz.

Kasper é diretor da Cooperativa dos Citricultores Ecológicos do Vale do Caí (Ecocitrus), onde, independente que o sistema de plantio seja ecológico, seus associados também amargam perdas. E no processo industrial, o primeiro afetado é a extração de óleos essenciais, pois a safra de bergamota verde (raleio) praticamente zerou, dando lugar à luta da árvore para sobreviver.

Com cerca de 120 produtores associados metade da produção deve ser perdida. Segundo declaração do presidente da cooperativa a previsão era de beneficiar 2 mil toneladas da fruta para suco, porém agora não devem conseguir chegar a 1 mil toneladas.

Açudes também estão secos no interior

No campo ainda há esperança
Há cerca de 30 anos na agricultura familiar com produção de citros, Jaime Antônio Kochenborger declara que, com a chuva da última semana, irá ajudar muito na colheita das variedades mais tardias. Mas em outra avaliação, confirma que já contabiliza grandes perdas no seu plantio “A chuva foi muito boa, foi na verdade um volume muito maior que o esperado pelas entidades de meteorologia. Ela chegou um pouquinho tarde para algumas coisas, o que se está perdido não vai se resolver, mas a outra que está no pé e está um pouco mais verde pode dar uma reação”, diz.

Produtor de todas as variedades de bergamotas, Kochenborger relata que aquela que menos está sentindo a estiagem até o momento é a Ponkan. Já a Montenegrina e a Caí serão as mais afetadas. “A Montenegrina está sentindo muito, mas terá um tempo para se recuperar um pouco”, explica.

A desolação fica por conta da Caí, que agora deveria estar no seu estágio máximo de crescimento, mas está muito atrasada. “O que está acontecendo é que a bergamota está rachando muito, ela está se abrindo, porque foi bastante chuva e ela absorve essa água e começa a crescer e estourar, a gente sabia que ia acontecer, mas é mais uma quebra”, fala.

Inclusive, Jaime relata que assim que choveu fruteiros já começaram a procurar a fruta para o comércio, porém o desenvolvimento demora para ocorrer. “Em tempo normal a gente começa a colher a Caí em abril, mas praticamente começamos a colher depois da chuva”.

Entre as alternativas para melhorar a produção, apontadas por Jaime, está a irrigação, mas que necessita de uma boa estrutura financeira. “Eu, pelo menos, não tenho pra irrigação. Até cheguei a molhar com pulverizador, mas o problema é a quantia de água. Não se tem a quantia de água pra molhar o quanto ela [bergamota] precisa, a gente está fazendo um paliativo”, diz.

Esse ano a safra de Kochenborger, principalmente da Caí, seria o dobro do ano passado, porém a expectativa agora é de colher 40% do que colheu em 2019. “Em termos de seca, nos últimos anos, não foi assim. A última seca grande que a gente teve nesse sentido deve fazer uns 14 ou 15 anos”, fala.
“Essa chuva que deu foi muito bem vinda e muito esperada, mas ela só ameniza, não resolve os problemas. A chuva vai ter que ter uma certa sequência para se normalizar”, completa Kochenborger.

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