De acordo com o pesquisador Eduardo Kauer, poucos cemitérios gaúchos possuem obras tumulares como as presentes no de Montenegro

Além da morte.Cemitério preserva as transformações sociais e culturais e é celeiros de expressões artísticas

Histórias, memórias e saudades. Quais sensações e significados traz um cemitério? Repleto de simbolismo, esse é um dos lugares mais procurados no Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, data em que amigos e familiares prestam homenagens aos entes queridos, levando aos cemitérios velas, orações e flores. Nesse período do ano, além do sentimento de nostalgia e, em alguns casos tristeza, o mistério e a incerteza da morte dão espaço para muita cultura e grandes expressões artísticas.

Com uma rica tradição arquitetônica e de paisagismo, os cemitérios se tornaram, ao longo do tempo, verdadeiros celeiros de obras de arte, onde também guardam registros de importantes transformações sociais e culturais. No Cemitério de Montenegro, essas referências e expressões artísticas estão presentes nos diferentes monumentos, lápides e detalhes esculpidos nas dezenas de túmulos no local. Mas nem sempre foi assim. O teólogo e pesquisador Eduardo Kauer, explica que, antes de virar um museu a céu aberto, a beleza e glamour não eram as principais características desse tipo de espaço.

“Quando se instalou a Vila de Montenegro, não havia um cemitério como temos hoje”, conta o pesquisador. “A ocupação era muita dispersa e, muitas vezes, existia apenas uma ou duas casas por quadra. Então, se você tinha um terreno muito grande e falecia algum familiar, era comum enterrar a pessoa no fundo de casa”, acrescenta Kauer, citando também que nesses mesmos lugares eram enterrados vizinhos e pessoas próximas.

A arte tumular impressiona pela riqueza de detalhes e materiais utilizados nas construções

De acordo com o pesquisador, existiram vários pequenos cemitérios na cidade, mas, oficialmente, o primeiro estava localizado onde hoje funciona o Hospital Montenegro. Conforme a expansão da comunidade, o cemitério foi transferido para a Estação da Cultura, depois para os fundos do Jornal Ibiá e, finalmente, no ano de 1904, foi instalado definitivamente no bairro Cinco de Maio.

“Outra coisa muito interessante é que a colonização inicial de Montenegro é de açorianos, ou seja, as ideias dessa população influenciaram na organização da cidade e, mesmo que a gente tenha recebido italianos e alemães mais tarde, o costume desse povo prevaleceu”, revela o teólogo. “Eles sempre sepultam fora da área urbana, então em 1904 o prefeito da época transferiu o cemitério para um lugar onde a civilização não poderia chegar”, detalhe o pesquisador sobre a origem do Cemitério Municipal de Montenegro.

Hoje em dia, quem visita o local deixa muito mais que saudades. Desde os epitáfios gravados nas suntuosas placas de mármores às criativas homenagens com objetos dos sepultados, é impossível não notar a presença da chamada arte tumular ou arte funerária, que associa transformações da moda e movimentos históricos da sociedade e impressiona pela riqueza de detalhes. Essas características se mantêm há séculos, onde reis e famílias mais tradicionais se apropriavam da arte, por meio de obras fixadas em túmulos e jazigos, para ostentar o que seus entes foram em vida. No período medieval, mesmo que de forma mais sutil, esse tipo de arte já era utilizada para homenagear os mortos. Em meados do século XVII, o movimento ganhou ainda mais força a partir do período renascentista.

Sem a cabeça, estátua tumular revela gravidade do problema de depredação do patrimônio histórico e artístico que preocupa os trabalhadores do cemitério

Vandalismo no cemitério ameaça o patrimônio histórico
Com quase três décadas de trabalho dedicado ao Cemitério Municipal de Montenegro, o coveiro Marco Aurélio conta, com pesar, que o lugar já possuiu um número bem maior de obras tumulares, mas devido aos casos de vandalismo, sobraram poucas. “A maioria das estátuas que temos hoje são de mármore italiano, mas já tivemos lindas esculturas de bronze, que foram roubadas há anos”, lamenta o coveiro.

Ele também coleciona histórias do lugar, como a de um forte raio que atingiu uma árvore. “Faz cerca de um ano que caiu essa descarga elétrica aqui, mas foi a primeira vez que isso aconteceu”, disse o funcionário, mostrando a força do raio no tronco queimado. “Na semana retrasada, aconteceu um sepultamento durante um temporal que deixou todo mundo apavorado por conta dos raios e trovões, e eu só me lembrando do caso da árvore”, recorda.
Quando questionado sobre o que mais gosta em seu trabalho no cemitério, ele dispara “a tranquilidade”, destacando que, por outro lado, o vandalismo é o que mais lhe preocupa no local. “Acontece muito de pessoas entrarem aqui e quebram as coisas só por quebrarem, como também, casos de crianças que atiram pedras nas fotos dos jazigos, dá pena de ver a situação”, revela o coveiro.

Jacob Renner – Foi um grande empresário, responsável por um dos maiores empreendimentos de fiambres do Rio Grande Sul, o Frigorífico Renner, instalado às margens do Rio Caí, em Montenegro. O filho, Antônio Jacob Renner, era empreendedor e político, fundador da Lojas Renner, uma das mais importantes redes gaúchas de vestuário

Além da arte, cemitério guarda histórias imortais
No Cemitério Municipal de Montenegro, além de diferentes obras tumulares, a população também encontra figuras e personalidades que, cada um a seu modo, contribuiu para a história da cidade, do Estado e até do Brasil. Entre eles, está o túmulo do empresário Jacob Renner, figura que teve forte ligação com o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul no século 19 e início do século 20.

Natural de Feliz, a família Renner mudou-se para Montenegro onde iniciou um negócio de fabricação de banha no ano de 1894 e, mais tarde, se transformou no Frigorífico Renner, um dos maiores empreendimentos de fiambres do Rio Grande do Sul – instalado na margem do Rio Caí. Mas esse não foi o único integrante da família a ter notoriedade. O filho, Antônio Jacob Renner (1884-1966), foi um empresário e político brasileiro, fundador da Lojas Renner, uma das maiores redes varejistas gaúchas de vestuário.

Ivon Costa – Foi um dos mais importantes nomes do Espiritismo no Brasil, contribuindo decisivamente com sua palavra esclarecedora no sentido de dinamizar a difusão da Doutrina Espírita

Outro túmulo muito importante é do médico Ivon Costa, considerado um dos mais importantes espíritas do Brasil, que contribuiu decisivamente para a difusão da doutrina no País. Natural de Minas Gerais, ele nasceu no dia 15 de julho de 1898 e faleceu em 9 de janeiro de 1934, com 35 anos de idade.
Antes da trajetória no Espiritismo, o mineiro foi seminarista, entretanto, quando faltavam poucos dias para a sua ordenação sacerdotal, constatou-se que ele não possuía certidão de batismo. Diante da confusão estabelecida pela falta do documento, Ivon desistiu de seguir a carreira eclesiástica e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou e se diplomou em Medicina. Era notável poliglota, falando perfeitamente o francês, inglês, alemão e espanhol.

Após passagens por países da Europa, dentre eles Portugal, França, Espanha, Holanda, Bélgica e Luxemburgo, Ivon retornou definitivamente ao Brasil no ano de 1932, passando a residir em Porto Alegre, onde clinicava gratuitamente. Em todos os lugares por onde percorria, deixava sementes da Doutrina dos Espíritos.

O lugar também guarda histórias como a do Capitão Francisco Fontoura do Prado, considerado Herói da Revolução. Ele foi morto durante o Combate de Cafundó, na atual localidade de Vapor Velho, durante a Revolução de 1923. Após o conflito, o corpo foi resgatado por antepassados da família Piqueres, que fizeram o sepultamento em Montenegro.

Curiosidades
-Cemitério Municipal de Montenegro, no local onde é hoje, foi registrado em 1904;
-Com uma área de aproximadamente 10 hectares no bairro Cinco de Maio, o Cemitério de Montenegro é dividido em três diferentes áreas: católico, evangélico e municipal;
-O primeiro túmulo pertence a Adão Luis Kauer, filho da antiga proprietária Elisabetlha Kauer, que vendeu o terreno para a Prefeitura, na época, sob a condição de que fosse reservado uma determinada área para sua família, localizado no centro do Cemitério Evangélico;

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