Ei, você que ainda não nasceu. Pegue esta garrafa que foi jogada ao mar por este náufrago desta era decadente. Esta garrafa que flutuou por 100 anos pelos incontáveis mares desta vida até as ondas a jogarem aos seus pés. Abra-a e leia a carta que cuidadosamente acondicionei em seu interior. Este náufrago solitário, perdido na ilha de si mesmo, remeteu ao futuro, portanto a você, a história de como soçobrou o barco de 2019 até se espatifar contra as rochas do fim da segunda década do século XXI.
Ninguém passou incólume por este decênio infame, cujo final apoteótico sedimentou, entre outras excentricidades, que o mundo não dá mais voltas posto que é plano; que a Justiça, ao deixar de ser cega e ver o mundo pela primeira vez, deslumbrada, escolheu um lado; e que o ódio é o principal sentimento dos seres humanos. O ódio, que ganhou até gabinete no planalto central do Brasil.
Você, que ainda não nasceu ao ler este bilhete, lembrará que Andy Warhol previu que todo mundo teria, no mundo moderno, pelo menos 15 minutos de fama. O que ele não previu é que estes 15 minutos seriam de vísceras expostas e de macabros sangramentos; o justiçamento das redes sociais, justiça de uma única e irrecorrível instância, de sentenças definitivas, tanto para culpados quanto para inocentes.
Enquanto escrevo para você, meu amigo inexistente, vejo pela janela passeatas instigadas pelos templos doutrinadores contra a arte, livros e professores acusados de doutrinar crianças. Ainda não percebemos que se a arte, livros ou professores realmente doutrinassem, o obscurantismo não estaria no poder.
Enquanto escrevo esta carta que lancei ao mar do futuro, anjos negros se jogam contra as minhas vidraças. Nas ruas, gritam impropérios com suas vozes guturais e me apontam seus dedos de unhas enormes em forma de garras. Vorazes, já devoraram os passarinhos que cantavam no jardim e tomaram seus ninhos. Em breve, terei que escolher entre morrer ou morrer como os meninos pobres e sem futuro de Paraisópolis.
Ah, perdão pelo desabafo deste náufrago de 2019. É que escrever me desalucina, me desnuda, me retira dos subterrâneos, me dá sobrevida. Escrever me descreve para olhos que ainda não veem, mas que vão brilhar, como os seus; escrever me sorri para o futuro, onde avisto possível um novo mundo.
Você ainda não nasceu, mas se está aí em 2119 lendo estas mal traçadas, é porque alguma esperança persistiu e resistiu ao mórbido deste fim de década. Talvez porque, para muitos, a verdade exista e o mundo ainda seja redondo e dá voltas. E podemos nos refazer sobre o desfeito. Talvez porque nosso QI (quociente de inteligência) restaure nosso QH (quociente de humanidade) e possamos redescobrir que não se faz degraus com cadáveres.
Ah, meu amigo inexistente, como eu seria feliz se pudesse ver o prazer e o espanto do seu rosto quando você abrir esta garrafa que navegou uma centúria para dizer-lhe: sim, alguns de nós resistimos ao chamado grotesco dos que davam vivas à morte.
Resta-me imaginar. E lhe imagino!
Encerro esta missiva e jogo-a ao mar para que encontre seu destino: você!
Depois vou à praça para assistir ao linchamento do dia, onde jovens e velhos cantam hinos e louvores enquanto jogam pedras na vítima da vez.
E também para colocar meu pé no primeiro degrau do cadafalso e ver o ódio no sorriso do meu carrasco!

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