Bessi vai se esforçar para mostrar aos futuros soldados a importância de vestir a farda

Amor à farda. Oficial iniciou uma nova etapa na carreira. A partir de agora, vai ajudar na formação dos novos policiais

O capitão da Brigada Militar Oscar Bessi Filho, 48 anos, assumiu, recentemente, uma nova função na Corporação, após três décadas dedicadas ao policiamento ostensivo . Desde segunda-feira, 11, o oficial é chefe da Sessão de Ensino e comandante do Corpo de Alunos da Escola de Ensino e Aperfeiçoamento de Soldados (Esfes) de Montenegro.

Bessi recebeu a reportagem do Jornal Ibiá no seu novo local de trabalho na quarta-feira, 13. A mesa já conta com alguns pertences do policial militar, entre eles a bandeirinha do Brasil de Pelotas, seu time do coração, uma escultura de arame, um quadrinho no qual se lê diversas palavras entre elas família, verdade e filmes. Chama mais atenção, entretanto, o emblema no 5 º Batalhão de Polícia Militar (BPM), de onde o oficial veio.

“Eu nunca tive em outra situação que não fosse batalhão de policiamento em todos esses anos, principalmente por opção minha”, comenta Bessi, lembrando ter recebido convites para atuar na área administrativa. Em todos esses anos de farda, o capitão perdeu as contas de quantas vezes trocou tiros com bandidos, principalmente, quando atuou em Porto Alegre, Canoas e Alvorada. Na época, eram usados revólveres e não pistolas. Em algumas vezes, não coletes a prova de balas para todos.

Entre os fatos mais marcantes está um trágico: a morte de um colega, o soldado Rodrigues, ocorrida em 2000 em Alvorada. “Tive uma série de acontecimentos, até porque trabalhei a minha vida inteira em batalhões, sempre no front, sempre ocorrências de diversos tipos, mas perder um colega do meu lado foi a experiência mais marcante, que não sai da memória”, conta. O caso ocorreu durante um assalto à padaria. Os dois haviam trabalhado 12 horas para tentar prender um abusador de uma escola, quando acabou a jornada, o soldado foi até o local, onde acabou alvejado.

No novo cargo, agora a missão é contribuir para formar profissionais cada vez mais qualificados e, acima de tudo, conhecedores do seu papel. “Quero passar aos novos soldados a importância de entender que para servir uma sociedade é preciso ter plena consciência do que é ser policial militar, do que é vestir uma farda, do que é se comprometer em defender a vida dos outros, a ser um mediador e não um gerador de conflitos, alguém apto a resolver um problema independente de quem esteja envolvido, seja a mais alta autoridade ou a pessoa mais simples.

O capitão é pai de quatro filhos Gabriela Tuane, 25, e Gerônimo José, 26, do primeiro casamento, e João Ernesto, 6, e Joana Aurora, de menos de dois meses, com a vereadora Josi Paz. Eles vão precisar esperar um pouco mais para contar com a presença do pai por mais tempo em casa. Ele poderia ter se aposentado, mas decidiu continuar na ativa pelo amor à farda.

Empolgado com a nova missão, Bessi vai deixar um pouco de lado outra paixão antiga: a Literatura. Já são 14 livros publicados. “Quando me aposentar, aí sim, deixo a barba crescer e viro escritor de vez e mudo de vida”, brinca. Neste sábado, o escritor policial estreia uma coluna no Jornal Ibiá.

O começo
Eu me inscrevi no final de 1989 para o concurso do curso de formação de oficiais e ingressei na Brigada em fevereiro de 1990, como cadete. Então tinha aquela fase de três meses de período probatório e ganhávamos o espadim e de fato nos tornávamos cadetes. Depois teve o curso de quatro anos, no qual eu tive um percalço, um infecção intestinal, perdi o ano, era para ter me formado em 1993 e me formei aspirante em 1994. Na época, era aspirante, segundo tenente, primeiro tenente, capitão. E por aí segui estes 29 anos e uns quebrados.

O Brasil no final dos anos 1980, 88, 89, vivia uma turbulência. Era nova Constituição, eleição presidencial que se avizinhava depois de anos de Ditadura, a questão estava ruim. As chances de emprego para nós, jovens, eram muito ruins. O meu sonho de adolescente era o jornalismo. Então, saí de casa, batalhei. Cheguei a entrar na faculdade de direito, não fiz jornalismo, porque tinha o melhor mercado na época. No decorrer do segundo ano do curso, fico o concurso para oficial da Brigada, porque era um curso superior onde tu não pagava, tu era pago. Era uma chance enorme, tanto que a nossa disputa de vagas, o nosso vestibular era pela PUC, era o dobro da Medicina. Foi tipo assim: “cara, eu preciso achar um lugar no espaço porque o espaço está curto”. Eu nem entrei muito por vocação. Depois que entrei no Direito, eu queria ser policial civil, porque tinha uma bronca com traficantes de drogas, por uma questão de adolescência, por pessoas que eu gostava terem se envolvido com esses negócios. Eu achava que se entrasse para Polícia iria combater esses caras. Foi um sonho que realizei, não na medida que gostaria, mas realizei.

Durante o primeiro treinamento militar na Brigada, em 1990. Foto: Arquivo pessoal

Fato marcante
A primeira fase da minha carreira foi lá na região metropolitana Porto Alegre, Alvorada e Canoas. Os 15 anos que vivi lá foram muito mais intensos dos quase 15 aqui, com certeza. Tive uma série de acontecimentos, até porque trabalhei a minha vida inteira em batalhões, sempre no front, sempre ocorrências de diversos tipos, mas perder um colega do meu lado foi a experiência mais marcante, que não sai da memória.

Foi em um assalto a uma padaria em Alvorada. O assalto estava em andamento quando ele chegou, na verdade, para fazer compras com a família dele. Nós tínhamos trabalhado 12 horas juntos naquele dia, éramos do serviço de inteligência e estávamos naquele dia, por uma questão minha até, ele foi voluntário para me acompanhar. Ttínhamos o objetivo de pegar um tarado que atacava uma escola pública lá em Alvorada. E no final, ocorreu esta tragédia já tendo encerrado o serviço todo. A gente tinha trabalhado juntos em Porto Alegre, a mesma idade, uma relação bem próxima.

Renúncias
Convívio familiar, tempo, prazer. O ser humano buscar prazer incessantemente, isso é natural. Porém, no momento em que nos decidamos a uma profissão em que, justamente, tu vai trabalhar quando todos os outros estão comemorando ou festejando, como Natal e Ano Novo, às vezes é meu próprio aniversário e não estou disponível para comemorar com a minha família por estar trabalhando. Este tipo de renúncia o policial militar não pode se impressionar. Tem que saber que os Natais que até então ele passava com a sua família rotineiramente, de repente não vai ter mais.

Nova missão
De serviço público eu já tenho 30 anos e meio, então, no nosso regime ainda em vigor dos policiais militares poderia optar em ir para a reserva, mas eu quero tentar continuar mais um pouco e alcançar algumas coisas, possíveis ou não, dentro da corporação. Talvez uma promoção.

Mas, pelo menos, me permitir experimentar um outro lado da instituição e tentar passar aos novos soldados, principalmente, àqueles que estão chegando agora, que não têm de vida o que eu tenho de Brigada, a importância de entender que para servir uma sociedade é precisa ter plena consciência do que é ser policial militar, do que é vestir uma farda, do que é se comprometer em defender a vida dos outros, a ser um mediador e não um gerador de conflitos, alguém apto a resolver um problema independente de quem esteja envolvido, seja a mais alta autoridade ou a pessoa mais simples.

O policial militar precisa estar ciente disso e ter em mente que vai encarar uma vida de sacrifícios, de renúncias. E, se ele não tiver isso muito junto consigo, não vai ser um bom profissional. A hora de a gente separar o joio do trigo, o bom do mau profissional é aqui na formação. Aqui que vamos detectar quem tem aptidão para ser e quem não tem.

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