A maior parte dos casos de câncer em São José do Sul são tumores de pele. Crédito: reprodução internet

Dos 496 municípios do Rio Grande do Sul, o câncer já é a principal causa morte em 140. Seis deles – Portão, São José do Sul, Salvador do Sul, São José do Hortêncio, Vale Real e Capela de Santana – são do Vale do Caí. Os dados nacionais apontam que em 516 dos 5.570 municípios brasileiros os tumores fatais foram a principal causa de morte. Esta é a conclusão de um levantamento inédito realizado com base em números oficiais do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), de 2015. De acordo com a análise do Observatório de Oncologia do movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), a doença avança e, se seguir assim, em pouco mais de uma década os tumores serão responsáveis pela maioria dos óbitos no Brasil.

Vale Real tem o percentual mais alto na região (52%) com 13 óbitos por câncer no período. Logo após está São José do Sul (39%) e sete casos. Na sequência está Capela de Santana (30%) por 19 óbitos. São José do Hortêncio (29%) está na quarta posição no Vale do Caí com oito óbitos por câncer. Portão vem logo depois (28%) e 62 mortes devido a câncer. A seguinte é Salvador do Sul, onde ocorreram 10 óbitos por câncer (26%).

Os dados mostram que a maior parte das cidades onde o câncer já é a principal causa de morte está localizada em regiões mais desenvolvidas do País, onde a expectativa de vida e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) são maiores. Silvani Maria Kremer, secretária de Saúde, Saneamento e Assistência Social de São José do Sul, concorda que os bons índices de qualidade de vida e a longevidade das populações de cidades menores possa explicar, em parte, esses dados. Ela lembra, porém, quem nem todos esses óbitos por câncer estão ligados a idosos. “Nós temos casos em várias idades, inclusive jovens. Hoje são seis pacientes em tratamento e dois em processo de diagnóstico”, revela. O Hospital Centenário, de São Leopoldo, é a referência nesses casos.

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Apesar dos avanços da medicina, número de casos de câncer segue crescendo

A lentidão para conseguir iniciar o tratamento é outra dificuldade. “Conseguir o encaminhamento é difícil. Agora conseguimos aumentar a cota para encaminhamentos, o que deve melhorar isso”, diz a secretária. A maior parte dos casos de câncer da população são-joseense é de pele em função do contato com sol desde muito cedo pelo trabalho no campo — muitos, sem proteção. O trabalhador rural pode, inclusive, receber gratuitamente o protetor solar desde que encaminhe pedido junto ao sindicato.

Os dados do levantamento foram apresentados na sede do CFM, durante evento que reuniu especialistas em oncologia, autoridades e representantes de pacientes. Para a presidente da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), Merula Steagall, a expectativa é de que o estudo contribua para um melhor planejamento das ações de controle, prevenção e tratamento. “O aumento da mortalidade pela doença aqui está relacionado, também, às dificuldades enfrentadas pelo paciente para o diagnóstico e para o acesso ao tratamento. Diversos tipos de câncer são preveníveis e outros têm seu risco de morte significativamente reduzido quando diagnosticado precocemente”, destacou Merula.

Já Hermann Von Tiesenhausen, 1º secretário do CFM, enfatizou a importância de se discutir o avanço do câncer, especialmente no momento em que os candidatos a cargos eletivos traçam suas prioridades para as Eleições de 2018. “Este diagnóstico revela um grave problema de saúde pública que, a cada ano, assume maior relevância na lista de prioridades dos gestores. Na visão do CFM, é preciso envidar todos os esforços para conter essa epidemia e manter a obediência às diretrizes e aos princípios constitucionais que regulam a assistência nas redes pública, suplementar e privada no Brasil”, disse.

País e mundo

Das 27 unidades federativas brasileiras, 24 contam com pelo menos uma localidade onde o câncer é a principal causa de mortalidade. Alagoas e Amapá foram os únicos estados onde essa situação não aconteceu, além do Distrito Federal, que, por sua característica administrativa, não se divide em municípios.

Dos 516 municípios onde os tumores matam mais, 80% ficam no Sul (275) e Sudeste (140). No Nordeste, estão 9% dessas localidades (48); no Centro-Oeste, 34 (7%); e no Norte, 19 (4%). Ao todo, estes municípios concentram uma população total de 6,6 milhões de habitantes. Apenas 11 municípios são considerados de grande porte, sendo Caxias do Sul o mais populoso, com quase meio milhão de habitantes. Outros 27 são de médio porte (com população entre 25 mil e 100 mil) e a grande maioria (478) são pequenos municípios, com menos de 25 mil habitantes.

No mundo, o câncer é responsável por 8,2 milhões de mortes por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Aproximadamente 14 milhões de novos casos são registrados anualmente e o organismo internacional calcula que essas notificações devam subir até 70% em duas décadas.



No Rio Grande do Sul, 33,6% das mortes são por câncer

O estudo mostrou que o Rio Grande do Sul é o Estado com o maior número de municípios (140) onde o câncer é a primeira causa de morte. Enquanto em todo o País o índice é de 16,6% do total, no território gaúcho o número chega a 33,6%. Um dos fatores que pode explicar a alta incidência de câncer na região são as características genéticas da população, que pode apresentar maior predisposição para desenvolver o câncer de pele (melanoma), por exemplo. Mas há questões relacionadas aos hábitos de vida, como consumo exagerado de carne vermelha e grande número de fumantes, por exemplo.

Mudança ao longo dos anos
Historicamente, as complicações no aparelho circulatório, especialmente o acidente vascular cerebral (AVC) e o infarto agudo do miocárdio, são responsáveis pela maior parte dos óbitos. Em geral, são doenças associadas à má alimentação, consumo excessivo de álcool, tabagismo e sedentarismo. Contudo, os registros que ficam sob a supervisão do Ministério da Saúde mostram que a incidência de tumores com desdobramentos fatais tem avançado.

Comparando dados de doenças do aparelho circulatório e tumores de 2015 e 1998, por exemplo, se percebe que o crescimento das mortes por câncer foi quase três vezes mais rápido do que daquelas provocadas por infartos ou derrames. As de câncer cresceram 90% no período, de 110.799 pessoas para 209.780 mortes. Já a quantidade dos casos de doenças do aparelho circulatório foi de 256.511 pessoas, em 1998, para 349.642 casos em 2015 em todo o país.

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Merula Steagall, presidente
da Associação Brasileira
de Linfoma e Leucemia. Crédito: reprodução internet

Na avaliação da presidente da Abrale, a mudança nos indicadores desses municípios reflete o novo perfil epidemiológico do Brasil, pois o câncer pode ser considerado uma doença vinculada ao desenvolvimento e à modernização em sociedade. “Dentre as hipóteses que justificam esses números estão: o aumento da expectativa de vida e consequente mudanças genéticas decorrentes do envelhecimento da população; e o comportamento não saudável de milhões de brasileiros, que ainda são adeptos do consumo do tabaco, não realizam atividades físicas, sofrem com os efeitos da obesidade ou se expõem ao sol de forma excessiva e sem proteção”, aponta Merula Steagall.

Para ela, ao contrário de doenças infectocontagiosas, que sugerem a falência do sistema em seu nível básico – com dificuldade de fazer o rastreamento de casos, de ampliar a cobertura vacinal ou de promover medidas com impacto direto na saúde, como ampliação da rede de água e esgoto tratados –, o aumento do número de casos de câncer também pode ter outra explicação. “A melhoria do acesso aos métodos de diagnóstico, o que tem facilitado a descoberta precoce dos tumores”, destaca.

Hermann Von Tiesenhausen,
1º secretário do Conselho Federal de Medicina. Crédito: reprodução internet

Um dos principais problemas, porém, é que apesar da realização de exames diagnósticos tenha melhorado, o tratamento do câncer no Sistema Único de Saúde (SUS) ainda enfrenta muitas dificuldades. “Apesar dos investimentos realizados no controle e tratamento do câncer, o número de estabelecimentos e equipamentos disponíveis no SUS ainda são insuficientes para absorver a demanda crescente”, destacou Hermann Von Tiesenhausen.

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