Com os bordados, o projeto proporciona um momento especial entre moradores a partir de mediações artísticas

Na Vila Esperança, projeto nasce do vínculo entre Uergs e CUFA

Linhas, cores, sombra e muita escuta. A Villa Esperança, no bairro Senai, conta com o Projeto Bordado Livre na Praça, uma iniciativa que une arte e terapia em um único lugar. Resultado de uma ação de extensão da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) com a Central Única das Favelas de Montenegro (CUFA) e o Núcleo Maria, Maria, os encontros acontecem todas as sextas-feiras (com sol) na pracinha da comunidade, e seguem até dia 13 de dezembro.

Durante o encontro, a dona de casa Elinita Santos aproveitou para reunir a família toda no projeto

No extenso tecido cru espalhado pelo chão sob a sombra das árvores da praça, pessoas de diferentes idades vão dando vida a um processo onde cada ponto traçado expressa um pouco da história e vivência de cada um. De acordo com a professora de Artes Plásticas da UERGS, Carmem Capra, além de aproximar a universidade da comunidade, a proposta busca proporcionar um momento especial entre moradores, mediado pela arte. “A ideia é produzir arranjos entre pessoas, momentos de convivências, escuta e conversação através desses encontros”, explica Carmen, uma das responsáveis pelo projeto. “Essa é uma localidade muita acolhedora, então faz sentido que isso aconteça aqui, nesse lugar e nesse espaço”, acrescentou.

No segundo encontro do grupo, conforme o tempo foi passando, alguns desenhos surgiram lentamente no pano descrito pela professora como “superfície de contato”, onde cada pessoa foi deixando sua marca de forma espontânea. “Nós temos aqui a menininha desenhando, algumas mulheres bordando enquanto outras fazem crochê e vai aplicando, ou seja, é algo que acontece de forma bem orgânica”, destacou a professora. “É só chegar e conviver”.

Coordenadora do Núcleo Maria Maria, Carliane Pinheiro, a Kaká, destaca a importância do projeto para comunidades como a Vila Esperança. “Infelizmente temos uma escassez muito grande de atividades nas periferias da cidade, então tudo que temos é mais voltado para o Centro”, lamentou Kaká. “Quando eles [Uergs] vieram com esse projeto, foi muito bom porque veio ao encontro da proposta do Maria-Maria, já que temos as Marias, mães, as filhas e netas que participam do grupo”, salientou.

Apesar de não ter restrições quanto à idade e gênero, elas e as crianças são maioria no projeto e isso tem um motivo, como explica a Kaká. “Na periferia, as pessoas têm uma carga de horário muito grande de trabalho, como acontece na época da colheita da bergamotinha, quando muitos pais trabalham até 10 horas por dias. Com isso, muitas donas de casa e seus filhos ficam sem atividade em uma parte do tempo”, disse a coordenadora.
“Se você tem um núcleo que acolhe essas mulheres e crianças, é muito importante, principalmente quando falamos em um espaço de diálogo, onde elas podem ser ouvidas, compartilhar suas histórias e experiências de vida”, reiterou Kaká, sobre o processo de empoderamento feminino que se constroi durante os encontros do projeto.

Tecido como elo de convivência
Sentada em uma cadeira integrada ao círculo ao redor do tecido cru, estava a dona de casa Elinita Santos, 67. Moradora da Vila Esperança há 33 anos, ela conta que o Projeto Bordado Livre na Praça é uma espécie de terapia. “Eu não vejo o tempo passar, é tão bom”, disparou a moradora, que aproveitou o encontro para reunir a filha, netas e genro. “Eu gosto mesmo é de fazer fuxico [técnica artesanal com tecidos], mas, se precisar, faço crochê também”, revelou a dona de casa.

Saiba mais
Quando? Todas as sextas-feiras. Em caso de chuva não haverá encontro
Período? 4 de outubro a 13 de dezembro
Horário? Das 15h30min às 17h30min
Local? Praça do bairro Senai, rua Juvenal Alves de Oliveira. Próximo do colégio Ciep

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