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Movimento Tradicionalista Gaúcho alerta sobre descaracterização da indumentária ao ser utilizada dessa forma

Bombacha colada
nas pernas, cujo uso está bastante disseminado, causa polêmica e fez MTG se manifestar contra no mês passadoBombacha colada
nas pernas, cujo uso está bastante disseminado, causa polêmica e fez MTG se manifestar contra no mês passado. Foto: reprodução internet

Uma polêmica envolvendo a bombacha tomou conta do Rio Grande do Sul. No último dia 15, através de ofício do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), a discussão teve início. A entidade alertou que o uso descaracterizado da indumentária vem crescendo nos últimos anos, referindo-se às bombachas campeiras ou castelhanas. A principal alteração é o estreitamento da vestimenta nas pernas, conhecida como bombacha “skinny”.
“É uma peça que não sofre evolução. Ela não pode sofrer modismo, porque guarda uma tradição de como era essa peça antigamente”, explicou o presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho, Nairo Callegaro.

De acordo com o peão farroupilha do CTG Estância do Montenegro, Paulo Augusto Vieira Petry, 20 anos, essa discussão já é antiga. “Porém, ainda não tinham decretado nada sobre o assunto. Afirmar que a mudança descaracteriza a indumentária é um argumento falho. A indumentária gaúcha se “descaracterizou” muitas vezes com o passar dos anos. O gaúcho se originou usando o chiripá primitivo, uma indumentária rústica, feita grosseiramente de lã, por não ter outra opção”, argumenta o jovem com base em diversos registros históricos.

Com o passar do tempo, de acordo com Paulo, houve ainda mais mudanças, sendo a bombacha utilizada amarrada na cintura como uma saia, depois entre as pernas, famoso chiripá fralda (ou farroupilha, segundo Paulo), para melhor mobilidade ao andar de cavalo.

“A bombacha surgiu muito depois, pós-guerra Cisplatina. Por sua praticidade e utilidade nas lides campeiras, foi rapidamente difundida pelo meio agropastoril, tornando-se posteriormente parte de nossa indumentária e componente ímpar de identificação cultural. Mas a bombacha como conhecemos, extremamente larga e com favos, foi uma adaptação estética em que, com adornos, foi se tornando parte fundamental da pilcha”, explica o peão.

Utilizá-la mais estreita, conforme Paulo Augusto, é principalmente para adaptar-se a diferentes atividades e estilos de vida. Contudo, ele salienta que a questão toda não se trata sobre o ajuste do artefato adaptado para o dia a dia. Por isso, o tradicionalista defende que é preciso o MTG encontrar o equilíbrio entre o que é totalmente estilizado e o que é apenas questão de adequação ao cotidiano do homem do Rio Grande.

“Trabalho com a agropecuária, tenho experiência em fazendas de produção de gado e posso garantir que estar dentro de uma mangueira repleta de terneiros avançando em ti e escoiceando até a sombra, te faz usar uma bombacha mais grossa e mais justa. Com um pano sobrando na cintura, no primeiro coice de um terneiro a bombacha se engancha na pata, rasga toda e tu termina a lida seminu. É cômico, mas é real”, analisa.

Prenda aprova as diretrizes do MTG

Primeira prenda do Estância do Montenegro, Maria Carolina Bühler de Azeredo acha compreensível que a bombacha seja imposta por normas. Foto:arquivo pessoal

Segundo Maria Carolina Bühler de Azeredo, 18, primeira prenda do CTG Estância do Montenegro, as diretrizes do MTG para a pilcha impõem que a bombacha deve ter a largura das pernas equivalente à largura da cintura.

A jovem acha compreensível que esta confecção seja mantida para que se diferencie, por exemplo, de uma calça normal. “E também para o conforto ao montar a cavalo. Sei disso por experiência própria. Acompanho meu pai, meus irmãos e amigos tradicionalistas que usam tanto para a lida campeira quanto para artística e cultural. Até eu uso bombachas de modelo feminino para andar a cavalo e não acho nada confortável quando muito justas. E, particularmente, acho mais bonitas as de modelo tradicional e as campeiras, que são mais largas nas pernas.”

“Tudo se transformou ao longo dos anos”

Peão farroupilha do CTG Estância do Montenegro, Paulo Augusto Vieira Petry diz que a bombacha mudou com o tempo e seguirá mudando. Foto:arquivo pessoal

“Tudo se transformou ao longo dos anos. Se não, hoje ainda se usaríamos camisas de manga larga e chapéus pança de burro. Se fôssemos levar apenas aspectos históricos, veríamos uma contradição grotesca no Movimento, que limita o uso de bombachas estreitas apenas às mulheres, sendo que essas historicamente nunca usaram trajes masculinos”, desabafa Paulo Augusto.

O jovem argumenta que essa vestimenta também mudou ao longo dos anos. E seguirá mudando, independentemente de regulamentos dos tradicionalistas. Ele relata que com o alerta, o MTG pegou um período da história — que não é estática — para eternizar, como se tivesse parado no tempo.

“A cultura é móvel, a história continua sendo escrita e nossa tradição não é inerente à evolução. O sentido de ser gaúcho, de ter orgulho do seu chão e sua cultura, de valorizar o costume antigo, vai além do tempo. É preciso instruir sobre o porquê do uso da bombacha, o que representa para o povo, o quanto ela fala de nós, e assim plantar um pensamento de preservação cultural. É a isso que o MTG deveria se ater. Valorizar o sentido maior do tradicionalismo e não regrar coisas que vão além do seu alcance.”

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