Luis Cláudio Flores Vargas, aguarda o rio baixar no Azulã

Alerta. Previsão de cerca de 100mm de chuva nos próximos dias. Desabrigados permanecerão fora de suas casas

“organização da Defesa Civil antecipou a retirada dos moradores antes da enchete”

O trabalho preventivo de levar as famílias de zonas de enchente para o ginásio do Azulão impediu que pelo menos 62 pessoas ficassem ilhadas em Montenegro. As remoções iniciaram no sábado a tarde, antes do rio Caí transbordar e a última família chegou no domingo a noite.
O ginásio foi dividido em pequenas áreas onde os desabrigados dormem e guardam alguns dos poucos pertences que conseguiram recolher. A Defesa Civil providenciou colchões, alimentos e roupas, mas a demanda é contínua.
Faltam roupas para crianças entre 8 e 12 anos, cuecas, meias, calçados e vestuário para adultos, além de material de higiene e limpeza, parto descartável e água potável. Dentre os pedidos de doações estão ainda alimentos não perecíveis, carne moída ou frango.
Os voluntários da Defesa Civil permanecem 24 horas no prédio para ajudar no que for necessário como mediar conflitos. O coordenador Marcelo da Silva tem pernoitado junto às famílias, para receber novos desabrigados. “Na madrugada de segunda-feira, um rapaz não consegui retornar pra casa e recebi ele, forneci colchão e cobertor”, relata Marcelo.
A expectativa é de que o abrigo opere até a próxima sexta-feira (02) em razão da probabilidade alta de chuva nas cabeceiras do rio Caí nos próximos dias. “Deve chover mais de 100 milímetros na Serra. Caso isso não se confirme, amanhã as famílias já deverão estar deixando o abrigo”, projeta.
Ao longo do dia, chegam diversos donativos. Uma empresa local, a LF de Oliveira, doou mesas e cadeiras para as refeições. Já seu Omar e a dona Ivete de Lima trouxeram ainda na manhã de segunda-feira (29) caixas de leite, arroz, papel higiênico. As doações são do grupo de cursilho Nossa Senhora de Salete. “Nosso grupo de cursilho sempre faz doações mensais e decidimos trazer os donativos pra cá neste mês. Já estamos sabendo que precisam de mais ajuda e vamos mobilizar os demais grupos”, afirma o casal.

Histórias de muitas enchentes

Dentre as famílias no Ginásio, histórias de diversas remoções e de conformismo com os alagamentos. A maioria das pessoas mora nos bairros industrial, ferroviário e de zonas ribeirinhas. Seu Luis Cláudio Flores Vargas, 52 anos, veio para o abrigo com a mulher, o filho de seis anos e outro, de apenas nove meses. Nos pés, calça apenas um chinelo de dedo.
Ele conta que quando se mudou para o bairro Industrial até tinha consciências das enchentes, mas o que ele não imaginava é de que com o passar dos anos, as cheias ficassem cada vez mais altas. “Só consegui pegar esse chinelo e as botas do frigorífico onde trabalho. Minha casa ficou ilhada. Até poderia sair de lá, mas não tenho para onde ir”, relata o pai de família.

Vera sofre de hipertensão e precisa de roupas para o filho

Dona Vera Regina Peguerino, de 48 anos, está no abrigo com o marido, três filhos e uma neta. Moradora do bairro Industrial há mais de 30 anos ela nem pensa em se mudar. “Gosto de lá. A vizinhança é boa e nossa casa foi reformada há uns dois anos. Pelo marido até já teríamos mudado, mas se vender lá não compramos em lugar nenhum e a gente vai ficando ali”, revela. Ela sofre de hipertensão e procura sair de casa tão logo comece a alagar na rua.
Os quartos são separados por lonas, as mesmas que a Defesa Civil utiliza para cobrir os telhados quando há queda de granizo. As irmãs

Nem a Bolinha, a cadelinha de Adriana Pinheiro foi esquecida

Deise, 37 anos, e Adriana Pinheiro, 46 anos, juntaram os pertences, os filhos e os cães em uma mesma área. Ao todo são oito pessoas e dois cachorros. “Erguemos os móveis em casa, ensacamos tudo e viemos para cá. A bolinha, nossa cadelinha, não é de rua, não podíamos abandonar ela lá. Também trouxe comida pra ela, paninhos pra higiene e a cordinha dela”, conta Adriana. As irmãs cresceram no bairro Industrial e desde crianças vivenciaram diversos alagamentos. “O pai e a mãe não saíram de lá, ele é teimoso”, relata Adriana.

Deise Pinheiro cuida do sobrinho Miguel que já reclama de frio

Já Deise, acabou voltando para o bairro porque não conseguia mais pagar o aluguel. “É minha primeira vez em abrigo com meus filhos. Como estava com crianças decidi sair de casa. Aqui como banheiro é coletivo, sempre fica uma na porta. Esfriou bastante e meu sobrinho não tem roupas para se aquecer”.

Águas recuam vagarosamente
Fora do Ginásio do Azulão, nas regiões alagadas, as ruas seguem cobertas pela água do rio Caí. No cais do Porto, o acesso à Câmara de Vereadores permanecia submerso e ontem as aulas na Escola de Ensino Fundamental Aurélio foram canceladas. Ontem pela manhã, a rua Àlvaro de Morais ficou totalmente tomada pelas águas até o centro de Treinamento da empresa Tanac. Os carros deram lugar a barcos em trecho alagado na rua Fernando Ferrari, assim como em outros ruas da região.
A rua dos Ciprestes fica longe do rio Caí, mesmo assim algumas casas ficaram submersas. A rua foi virou um grande varal da família Winter. “Tem muitas goteiras na casa onde moro com meus sete filhos. Tive que lavar tudo e aproveitar o sol”, conta a dona de casa Maria Winter.
A aposentada Selma Winter, 74 anos tem uma tábua na janela da cozinha que serve de ponte para uma das janelas da casa nos fundos, onde mora um dos filhos . “O porão da casa dele alagou. Tiramos os móveis, e trouxemos pra cá. Ele mexeu nos fios da luz pra não ficar sem energia em casa e a noite dorme lá com as crianças”, conta Selma. Mesmo quando a água sobe mais, ninguém deixa o lugar. “As vezes tem 15 pessoas aqui dentro. A cozinha vira quarto. Hoje mesmo estou fazendo almoço pra todos”, conta.
Nas últimas 24 horas, o nível do Rio Caí, está diminuindo. O ápice ocorreu às 21h de domingo (28), quando a régua marcava 5,59 metros.

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