Na escola onde passou os três últimos anos, o Sinodal, as adaptações já haviam sido realizadas para receber cadeirantes

A história começou em 2014, quando ia iniciar o Ensino Médio, mas escolas públicas não ofereciam acessibilidade

Depois de quatro anos, o garoto que lutou para cursar o Ensino Médio, finalmente irá se formar. Nesta sexta-feira, Wellington Felipe da Rosa, 18 anos, encerra um ciclo de sua vida estudantil, repleta de percalços e negativas. O menino de poucas, mas sábias palavras, e sorriso metálico encerra o Ensino Médio no Colégio Sinodal Progresso.

Parece só a história de mais um garoto comum, mas o caso de Wellington é especial. Aos 14 anos, cadeirante e apto para iniciar um dos períodos escolares mais importantes da vida, ele e a família se viram diante de um obstáculo: a falta de acessibilidade nas escolas públicas estaduais.
Depois de um ano parado, idas e vindas às escolas e muitas esperanças perdidas, uma ação civil pública garantiu que Wellington iniciasse os estudos no Colégio Sinodal Progresso. “Para mim, foi ótimo!”, fala o jovem, em clima de despedida. “O ensino, os colegas… tudo. Vou sentir muita falta daqui”, completa.

Em 2015, quando ele chegou ao Sinodal, a curiosidade, a expectativa e o medo o acompanhavam. Algo que logo foi dissolvido pela receptividade dos colegas. “Aqui fizeram muita diferença. Hoje saio com condições de passar em qualquer vestibular”, afirma. De fato, Wellington já fez a prova seletiva da Unisinos, onde passou em 13º lugar para o curso de Relações Públicas.

Como o estudante conseguiu a vaga no Sinodal por meio de uma sentença judicial, a cada ano ela deveria ser renovada. Em 2017, uma surpresa. O governo decidiu que em junho deixaria de arcar com os custos dos estudos dele e determinou que ele voltasse para uma escola pública. Mais uma vez, começaria a busca por um educandário que oferecesse condições para ele encerrar o Ensino Médio.

“Pensamos assim: foram dois anos e meio de caminhada conosco para agora, no final, ele voltar para uma escola pública”, lembra o diretor do Sinodal, Lorio José Schrammel. “Nós fizemos uma parceira com a família para que a escola assumisse parte das despesas e eles (a família) outra parcela”, explica. Dessa forma, Wellington continuou no Sinodal e agora pode comemorar o término desta etapa.

Para a mãe dele, Adriana Isabel de Brito, o orgulho de ver o filho encerrar este ciclo é grande. “É mais do que merecido por ele, por tudo que ele passou, tudo que lutou e agora está conquistando”, comenta Adriana.

Sinodal, a escola que estava preparada

Lorio José Schrammel

Com a falta de acesso nas escolas de Ensino Médio públicas, a solução foi recorrer ao Judiciário. Em 2015, uma decisão bloqueou valores do governo do Estado para pagamento das mensalidades na escola particular.

“Nós fomos procurados e tínhamos toda a estrutura adequada para acolhê-lo”, lembra Lorio. Naquela época, as turmas onde o jovem seria incluído tinham aulas no térreo, onde fica a maioria dos espaços acadêmicos complementares, como laboratório de informática e biblioteca. Na transição de 2015 para 2016/2017, a escola recebeu um elevador, o que viabilizou todo o segundo piso, onde as turmas de Ensino Médio passaram a ter suas aulas.

Lorio diz que a escola está sempre se adaptando às necessidades de seus alunos. “Nós, se for necessário (e foi necessário) contratamos profissionais para acompanhar os alunos cadeirantes, por exemplo”, afirma. Para o gestor, tanto Wellington quanto os demais alunos fazem com que a escola, como um todo, perceba as necessidades da vida em sociedade. “Todo e qualquer aluno é um desafio e, com todos eles, nós aprendemos”, completa o diretor.

Conheça a história
Wellington tinha 14 anos quando a luta para cursar o Ensino Médio começou. Na época, ele teve garantida uma vaga no São João Batista, mas não pode aproveitar a oportunidade porque não tinha estrutura adequada a sua locomoção.

A Promotoria ingressou com uma ação civil pública contra o Estado, obrigando-o a implementar as condições de acessibilidade num período de 60 dias. Em junho daquele ano, porém, a vaga do estudante foi transferida para o A.J. Renner, mas ele só iria para a escola depois que os banheiros fossem adaptados a cadeirantes e um monitor o fosse enviado para acompanhá-lo diariamente. As obras não aconteceram.

Em 12 de fevereiro do ano seguinte, uma decisão judicial bloqueou valores do governo do Estado para pagamento das mensalidades na escola particular.

O que mudou de lá para cá
Em 2014, Wellington não pode estudar na Escola Técnica Estadual São João Batista por falta de acesso às salas de aula do curso que desejava. Hoje, a realidade da escola melhorou em alguns pontos, mas ainda continua sendo inacessível para os estudantes que precisma ir até as salas de aula dos cursos técnicos.

De acordo com a diretora do educandário, Valéria Rodrigues Graça, a escola consegue receber alunos cadeirantes de Ensino Médio, mas estes só terão acesso ao refeitório, sala de aula e pátio, porque há rampas e banheiros adaptados, mas isso não se repete em todos os espaços. “Para a área técnica, é impossível recebermos alunos cadeirantes. A nossa acessibilidade é muito limitada”, admite.

Já no A.J. Renner, a vice-diretora Claudia Escobar Hendegs afirma que toda escola é acessível e hoje possui estudantes cadeirantes. “A nossa escola é toda acessível. Temos rampas de acesso para salas de aula, sala de jogos, biblioteca, ao ginásio, sala de cinema e espaço externo, além dos banheiros adaptados”.

O Colégio Estadual Dr. Paulo Ribeiro Campos, o Polivalente, da mesma forma, segundo a direção, hoje é todo acessível. “Possuímos rampas de acesso aos espaços e banheiros adaptados”, afirma o vice-diretor Luis Carlos Hummes.

 

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