Diversificada, a propriedade também tem criação de gado e plantação de acácia

Conhecemos uma das últimas produções montenegrinas de cachaça à base de cana-de-açúcar

Na década de 70, Montenegro chegou a ter mais de 60 alambiques funcionando em seu território. Era cachaça de qualidade e que não acabava mais. Porém, o tempo passou e isso foi se perdendo.

Enquanto a produção dos estabelecimentos, à base de cana-de-açúcar, demandava mais mão de obra e bastante tempo de fermentação, surgiram as cachaças industrializadas, fabricadas rapidamente e com menor custo. Essa novidade acabou encolhendo o mercado.

Para tristeza dos apreciadores, a grande maioria dos alambiques foi fechando, ano após ano, e um dos poucos sobreviventes, hoje, é o de Rubi Ivan Müller, na localidade de Sobrado. A propriedade foi adquirida há mais de um século, já com as instalações – originalmente construídas por descendentes de italianos – , pelo alemão Jacob Haubert, bisavô de Rubi.

“Aí veio meu avô, veio o meu pai e chegou a minha vez. Com sete anos, eu já estava lá dentro, tirando bagaço do engenho. Eu fiz a minha vida ali”, conta ele, hoje com 78 anos de idade. Além do alambique, a vida no interior foi construída, também, com plantação de mato e produção de gado de corte.
Saudosista, Rubi ainda lembra de todos os clientes que tinha quando a cachaça “Lorde” – depois nomeada sugestivamente de “Quero Mais” – saía do seu alambique para ser comercializada na cidade. Era um sucesso só. “Tinha muita saída”, recorda o produtor.

Siegfried, filho de Rubi, mostra como funciona a extração da garapa da cana, feita no engenho

Hoje, além das dificuldades de mercado, o peso da idade também não permite que a produção siga na mesma escala do auge da cachaça montenegrina. Mesmo com a ajuda do filho Siegfried, Rubi já diminuiu a área plantada de cana – diretamente atingida pelas geadas e a ação do gado criado na propriedade – e produz apenas para vizinhos e amigos que lhe fornecem a matéria prima.

Da branca ou da amarela? É só escolher!
Seu Rubi Müller conta que, em uma época, o teor alcoólico da cachaça produzida em sua propriedade era de 20%. “Mas aí o pessoal tomava e ficava tudo bêbado logo. Então a gente baixou”, recorda. Com um equipamento graduador – ou, no caso do experiente produtor, no olho mesmo, a partir da espuma criada – o produto sai com graduação de 18%. Mesmo assim, como dizem os jovens, a bebida não é para os fracos.

Tudo começa, mesmo, é com a cana-de-açúcar, que, apesar de sofrer com as geadas, tem a melhor safra no inverno. Ela é cortada e levada para ser moída no engenho, que, ali, só pode funcionar na parte da noite.

Isso porque, quando o equipamento é ligado, o cheiro doce da cana moída logo atrai indesejáveis abelhas – que são criadas, aos montes, na região, e que atrapalham a operação. Hoje, a máquina funciona com motor, mas, há anos atrás, era um burrinho que, amarrado, ficava dando voltas pela estrutura e fazia tudo funcionar.

Do engenho, então, é extraída a garapa – um líquido da cana, que desce por um encanamento até o prédio do alambique. Ela fica em torno de cinco dias fermentando até estar pronta para ser fervida em uma caldeira, num processo que dura cerca de cinco horas.
Dali, ela sai em forma de vapor e ganha um “choque” de água fria, retornando à forma líquida, como cachaça. Ocorre um reprocessamento e, depois, é hora de passar o produto para as pipas que, na propriedade, ficam em um prédio separado. “Quanto mais tempo ficar na pipa, melhor fica a cachaça. Ela fica envelhecida”, explica Rubi.

Pelo padrão, ele diz que o ideal é que o produto fique “descansando” por um total de cinco anos. A cor e o sabor da cachaça obtida, dali, vão depender justamente do tempo e do tipo de madeira da qual as pipas são feitas.

“Nós temos das madeiras cabreúva e grápia”, conta o filho, Siegfried Valdir Müller, de 51 anos. “A cabreúva solta mais resina e deixa a cachaça amarela. A outra pipa é mais curtida, aí a cachaça continua branca. Essa branca o pessoal usa para botar em fusão, fazer curtida com jabuticaba e outras frutas, e também para fazer caipira. Já a amarela é para quem gosta de degustar ela pura.” Tem para todos os gostos.

Agricultura Mais
O Ibiá está viajando pelos quatro cantos do município para conhecer mais sobre a diversificação da agricultura e da pecuária montenegrina. Com o projeto “Agricultura Mais”, conhecemos diferentes atividades e também muita gente bacana. Tudo será mostrado aqui – na edição impressa e no portal do jornal – a cada terça-feira. Vem conhecer com a gente um pouco mais da nossa Montenegro!

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