Herói foi tratado por voluntários, mas não resistiu aos seus ferimentos

Herói. Caso de cão que não resistiu aos ferimentos mesmo após o resgate, causou comoção e mobilização na cidade

O resgate de um cão de porte grande que terminou com o óbito do animal expôs na última semana uma realidade que vem sendo cada vez mais frequente em Maratá: o abandono e maus-tratos de animais. Batizado de Herói, o animal foi encontrado na beira de estrada na localidade de Uricana com uma grande ferida aberta na cabeça tomada por miíase, a popular bicheira. O cão, que faleceu 48 horas após ser tratado, estava ainda desnutrido e desidratado.

Conforme Thuani Flores Braga, o animal foi avistado por um motorista da Prefeitura, que a acionou por conhecer sua dedicação à causa animal. Ciente do caso, ela contou com a ajuda de uma amiga, que buscou o cão e o transportou para ser atendido por um veterinário que atende na cidade. Segundo a voluntária, mais de 300 larvas de insetos foram encontradas nos ferimentos. “A gente acha que ele ficou uns 10 dias em sofrimento.

Quando ele foi encontrado ele não tinha mais forças”, conta. Pelo ferimento, a suspeita do médico veterinário é de que alguém acertou o cachorro com um facão e o cão acabou fugindo.

Thuani observa que foi possível identificar que alguém também passou óleo queimado no animal. A prática é comum no interior e é tida como uma forma de remover bicheiras, mas apenas debilita ainda mais o animal. “O óleo queimado só piora. Ele queima a pele e o corpo do cachorro o absorve, o que acaba intoxicando rins e fígado”, explica a protetora dos animais. A voluntária reforça ainda que a bicheira pode matar um animal e que o tratamento correto deve ser a medicação por um médico veterinário, sem se recorrer a soluções populares. “Existem receitas caseiras, mas quem vai dar essa receita caseira é o médico veterinário. Não se pode jogar qualquer coisa no animal”, reforça Thuani.

Os voluntários suspeitam ainda que Herói também foi atropelado, já que antes de morrer vomitou sangue coagulado, sintoma que pode estar relacionado a uma hemorragia interna. Lavado, tratado e medicado, o animal encontrou carinho e um lar temporário onde recebia atenção dos voluntários que se envolveram no resgate do cão e nas suas últimas horas de vida.

Apoiadores da causa se uniram para amparar o animal mau-tratado. FOTO: Arquivo Pessoal

Apesar de não ter resistido aos sofrimentos pelos quais passou, Herói acabou unindo marataenses que se preocupam com os animais e que, agora, se organizam por meio de um grupo no WhatsApp chamado de “Herói pela causa animal”. Como Maratá não possui uma política pública que verse sobre os direitos dos animais, os voluntários buscarão ajudar outros bichos que se venham a precisar. “Caso aconteça um caso como esse, a gente lança naquele grupo e cada um faz o que pode: um empresta o carro, o outro resgata, o outro abriga, o outro doa dinheiro, o outro compra remédio, o outro sabe fazer curativo”, explica Thuani.

Segundo a voluntária, o grupo já está com uma fila de três gatinhas fêmeas e um machinho para castração. Além disso, eles estão com uma campanha para custear o tratamento de Herói, que teve um valor total de R$ 364,40. Faltam serem pagos R$ 30,00. Quem tiver interesse em ajudar e fazer parte do grupo pode entrar em contato com Thuani pelo número 99848-9723.

Maus-tratos é crime tipificado por Lei Federal
Conforme o Artigo 32 da Lei Federal 9605/98, praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos é crime passível de detenção de três meses a um ano e multa. A pena é aumentada de um sexto a um terço se ocorrer a morte do animal.

No caso de Herói, Thuani acredita que será difícil que o responsável pelo sofrimento causado seja punido. “Os vizinhos não se comprometem. Ninguém sabe de quem é (o cão). Daqui a pouco é um bicho de fora que foi abandonado, tem muito isso aqui em Maratá”, comenta.

A apoiadora da causa animal apela para que as pessoas denunciem para a polícia e façam Boletim de Ocorrência ao se depararem com casos de maus-tratos. “A gente veio a esse mundo para fazer a diferença e não para assistir ao sofrimento de braços cruzados”, reforça.

Como forma de melhorar a situação, Thuani não descarta que o grupo de voluntários se articule para apresentar um projeto de proteção aos animais para a Prefeitura ou Câmara de Vereadores para que no futuro o problema de abandono e maus-tratos tenha uma solução.

“Esse projeto poderia ter, por exemplo, arrecadação de algum tipo de verba para a castração de animais de rua ou de famílias carentes, a instalação de placas em lugares em que eventualmente pessoas abandonem animais”, aponta Thuani.

A voluntária entende que também podem ocorrer campanhas de conscientização para prevenir novos casos. “O que tem que ficar claro é que existe uma lei, que existe punição (para quem abandona e mau trata animais)”, reforça.

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