Andressa Kaliberda
Jornalista

Estamos em clima literário em Montenegro e, durante essa semana, uma velha discussão me veio novamente à cabeça: a polarização criada em torno de Dom Casmurro. A obra de Machado de Assis, publicada pela primeira vez em 1899, é considerada uma das mais importantes da literatura brasileira.
Eu li esse livro pela primeira vez aos 11 anos (sim. Eu era uma criança com gostos literários estranhos para a minha idade. Isso, inclusive, foi motivo de discussão da minha psicóloga com a minha mãe). Li o título de Machado de Assis pela segunda vez, aos 17. Embora meu livro preferido seja Memórias Póstumas de Brás Cubas pela genialidade da construção em primeira pessoa desde a dedicatória, Dom Casmurro sempre me despertou um questionamento peculiar.
Desde a pré-adolescência, achei injusta a discussão acerca da possível traição de Capitu ao Bentinho. Nunca pensei que esse fosse o cerne do debate desse livro. Para a minha visão adolescente – e que segue amadurecendo depois de adulta – ao debruçar-se sobre essa questão, o debate ficaria superficial e deixaríamos de pensar em outras questões do livro. A narrativa parte dos devaneios e da leitura que o Bentinho faz sobre a realidade que ele está vivendo. O detalhe é que ele nunca considera a perspectiva da Capitu, do Escobar ou dos outros personagens.
Talvez essa fosse uma das discussões mais interessantes propostas pelo autor: a leitura que fazemos da realidade sem, ao menos, analisar outros pontos de vista. Dom Casmurro ainda permite muitas outras análises sobre relacionamento abusivo, saúde mental e diversas outras nuances. Mas, a polarização em torno da traição – ou não, coloca um cabresto nos leitores e impede de enxergar o mundo à nossa volta. Essa polarização se repete em muitos outros aspectos da vida. Diariamente. Até hoje.
Eu, por exemplo, desde que cheguei no Rio Grande do Sul, em 2015, ouço quase que semanalmente alguém me perguntando se sou gremista ou colorada. Quando falo que sou do Paraná, me perguntam se torço para o Athletico ou Coritiba. Desde as eleições de 2018, me questionam se sou PT ou PSL. E desde os meus 11 anos me perguntam se acho que Capitu traiu, ou não, o Bentinho. E, para todas as questões, preciso fazer uma baita explicação para dar a resposta. Porque não gosto de polarizações e extremismos. Mas, aparentemente, a neutralidade também gera críticas.
Rolando o feed das minhas redes sociais essa semana, me deparei com postagens de dois grupos políticos bem polarizados: favoráveis ao Lula e os que são a favor do Bolsonaro. Ambos criticando o outro e defendendo seu político favorito. Claro que é importante ter opinião política. Mas, mais do que isso, a polarização sem autocrítica leva à superficialização do debate.
Essa eterna dicotomia política, esportiva e em tantos outros aspectos nos impede de enxergar pontos importantes a serem analizados na nossa sociedade. Apontar apenas dois caminhos para o debate leva à radicalização das ideias e à iminência de violência extrema, como já ocorre em tantos locais. Ter posicionamento é, sim, importante. Mas, diferentemente do Bentinho, precisamos considerar outros pontos de vista, outras realidades, e deixar de focar nosso olhar apenas nas nossas convicções. Enquanto estivermos divagando e lendo a realidade por perspectivas superficiais, sem considerarmos novas possibilidades, outros estarão atuando de forma muito mais profunda na realidade, de forma que não nos damos conta da manipulação sofrida – tal como ocorre com nosso personagem literário.

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