Natasha Marques mostra aonde a água chegou

Após quatro anos de macrodrenagem finalizada, Arroio São Miguel transborda e problema retorna

Água no joelho, móveis sendo molhados e esgoto transbordando. Essas foram algumas das adversidades que moradores da Vila Esperança passaram na madrugada do último domingo, 6. Com a forte chuva que ocorreu no município, o Arroio São Miguel, que passa à margem do bairro Senai, transbordou e causou inundações nas vias públicas.

O problema ocorria frequentemente no bairro, quando haviam fortes chuvas, porém no final de 2016 as obras de macrodrenagem do Arroio foram finalizadas, e a promessa era que a água não entrasse mais nas residências. “Moro nessa casa há 16 anos e sempre entrou água aqui dentro. Faz uns quatro anos que não tinha entrado ainda, desde que arrumaram os encanamentos não tinha mais dado água aqui dentro”, conta a dona de casa, Natasha Marques, de 28 anos.

Acordados pela sogra durante a madrugada, Natasha e a família só conseguiram erguer a geladeira. Todo o resto estragou com a inundação. Foi um trabalho árduo desde a madrugada até a noite de domingo. Segundo a jovem, o marido passou o dia tentando escoar a água da casa e contabilizar os danos. “Meus filhos foram pra casa da minha sobrinha, porque a gente ficou da 1h da madrugada até o outro dia com a água cheia e gelada”, explica. Cama, cobertas, roupas, e alimentos foram perdidos, mas graça à ajuda de uma rede de solidariedade, grande parte já foi recebido.

Inscrita há 16 anos no programa da Secretaria de Habitação, Desenvolvimento Social e Cidadania para receber uma moradia, ela lamenta não ter sido contemplada ainda. “A gente fica apreensivo, com medo de entrar água de novo. A gente tem que ficar meio esperto, acordado, pra não acontecer de novo”.

Conquistas perdidas

Moradora da Rua dos Sinos, Vitória dos Santos, de 24 anos, nunca havia passado por uma inundação tão grande e relata que até ratos chegaram com a água. “Alguns estavam vivos, outros mortos e alguns meu marido matou”, diz. Com uma menina de dois anos, a dona de casa se viu obrigada a ir para a casa da irmã enquanto o companheiro continuou no imóvel do casal.

A água chegou até o meio da geladeira na casa de Vitória. Ela ressalta, porém, a agilidade em consertar o problema. “O bom é que já tomaram uma atitude de arrumar o bueiro, esse já é um bom começo pra não acontecer, porque ninguém tem condições de comprar tudo de novo pra dentro de casa.

Ao lado da casa de Vitória, Eloísa Oliveira, 44, passou pelo mesmo problema. “Quando a gente viu já estava cheio de água, não deu tempo de levantar nada porque a água já estava na beira do colchão”, explica. Há seis anos no local, essa foi a primeira vez que teve a sua casa invadida por uma inundação. “Deu uma tristeza, já pensou, tudo custa dinheiro, o pouquinho que a gente tem ainda perde”, lamenta.

Terezinha de Lourdes Pereira, de 55 anos, além de se preocupar com a inundação ainda teve suas telhas e tijolos quebrados pelos granizos da noite. Com tudo alagado, ela conta que o sentimento era de impotência. “Veio aquela enxurrada, as telhas começaram a levantar, e tu vai aonde com criança? Eu tenho uma com 13 anos”. Até o momento a família ainda não recebeu doações, e espera que na próxima chuva a casa seja poupada.

Terezinha de Lourdes teve a casa inundada e telhas quebradas

Para ajudar as famílias, doações podem ser feitas na a Secretaria Municipal de Habitação, Desenvolvimento Social e Cidadania – na rua Cel. Apolinário de Moraes, nº 1.705. Mantimentos também podem ser doados através da Central Única das Favelas (Cufa) de Montenegro pelos números (51) 98184-4018 e (51) 99609-9049 ou pelo email: cufars.montenegro@gmail.com.

Descarte incorreto
Na tarde de quarta-feira, 9, a reportagem do Jornal Ibiá esteve nas ruas atingidas da Vila Esperança, e equipes da Prefeitura Municipal estavam atuando na limpeza dos dutos e galeria. Segundo os funcionários, sofá, carrinho de criança, pneu de carro e panelas foram alguns dos itens retirados do local.

Equipes da Prefeitura estiveram no local para desobstruir os canos

O descarte incorreto do lixo é outro problema recorrente na beira dos arroios da cidade, e que dessa vez causou essa grande inundação. Sem ter para onde escoar, a força da água chegou a levantar uma tampa de cerca de 2 mil quilos em um dos dutos do local. A recomendação é que, para que alagamentos, não ocorram novamente, todo o lixo seja descartado corretamente.

Eventualmente o município conta com o Dia do Descarte Correto. O último foi no dia 7 de agosto. O próximo deve ocorrer no final deste mês, sem data definida ainda. Fique ligado nas redes sociais do Jornal Ibiá para não perder a oportunidade.

O processo das obras
As obras do Arroio São Miguel foram aprovadas em 2013, pelo programa PAC1, a fundo perdido. O município não precisaria devolver os valores ao Governo Federal. O valor na época foi de R$ 4.190.001,23. As obras iniciaram em novembro daquele ano, com a limpeza das margens e o desassoreamento do leito, mas foram paralisadas pouco tempo depois.

Em 2015, foi retomada a canalização, que foi então dividida em cinco etapas. O projeto sofreu reajustes e teve uma redução de valor estimada em 11%, fechando com o custo de R$ 3.695.782,52. Após o desassoreamento e a abertura das laterais do arroio, foram feitos muros de gabiões, um tipo de estrutura produzida com malha de fios de aço recozido e galvanizado, em dupla torção, amarradas nas extremidades e vértices. Eles são preenchidos com seixos ou pedras britadas.

A previsão inicial para finalizar as obras era junho de 2016, porém a intervenção foi concluída totalmente apenas em dezembro. Com a obra entregue, outra iniciativa que fez parte do processo de recuperação do arroio foi o plantio de mudas de árvores nativas em suas margens.

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