Cabeleireira teve sonho de ser modelo interrompido. Entenda a diferença entre a cantada e o assédio

RAQUEL abandonou o sonho de ser modelo para não ter de passar por novo assédio

Como no chamado “efeito dominó”, cada vez mais, mulheres vítimas de assédio sexual estão criando coragem para denunciar seus agressores. Os casos registrados pela imprensa mundial repercutem por todos os cantos e incentivam que mais pessoas relatem abusos sofridos. Porém, é importante saber distinguir o que é assédio e o que é simplesmente uma cantada.

Entre os muitos casos de repercussão, está o da modelo americana Kate Upton. No Twitter, a moça relatou que teve os seios apalpados por Paul Marciano, cofundador da marca Guess. “Ele não deveria usar seu poder na indústria para assediar mulheres sexual e emocionalmente”. Em entrevista à revista Time, a modelo afirma que foi assediada já no primeiro encontro com o americano, em 2010, quando assinou seu primeiro contrato com a marca, aos 18 anos. “Assim que eu entrei com o fotógrafo Yu Tsai, Paul veio até mim, agarrou os meus seios à força e começou a apalpá-los – brincar com eles, na verdade”, disse.

Em outra ocasião, a modelo conta que o diretor criativo da Guess novamente se ofereceu para ir ao quarto dela, mas ela não permitiu. “No dia seguinte, me disseram que eu tinha sido demitida da campanha. Alguém ligou para a minha agência para dizer que eu estava gorda e que não seria necessária no set. Eu fiquei desolada, especialmente porque, até aquele momento, ninguém da Guess tinha sequer me visto.”

Nesse caso, a modelo perdeu uma campanha. Mas em outras situações, o assédio pode significar o fim da carreira. Foi o que aconteceu com a cabeleireira montenegrina Raquel Hegnr, 52 anos. Logo na primeira tentativa de despontar na passarela, aos 18 anos, Raquel teve seu sonho interrompido pela ação do dono da empresa que contratou a agência onde ela começava a trabalhar. “Se eu não saísse com ele pra jantar eu não iria desfilar. Na mesma hora, desisti da carreira e nunca mais quis saber da profissão. Pra mim, ficou marcado. É como se, para seguir a carreira, eu tivesse que obrigatoriamente sair com o chefe”, conta.

Esses são dois exemplos claros de assédio sexual. No entanto, para muitas mulheres, assédio é todo tipo de ação praticada de forma ofensiva para com a receptora, como, por exemplo, um assovio em via pública, ou um comentário sobre alguma das partes íntimas do corpo feminino de forma vulgar.

Entenda o que é assédio sexual perante a legislação

Delegada Cleusa Spinatto

A delegada Cleusa Spinato, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), de Montenegro, explica que, do ponto de vista penal, para ser considerado assédio sexual, o ato precisa apresentar o requisito da subordinação hierárquica. “A vítima tem que ser subordinada seja em emprego, cargo ou função. Se não tiver essa condição, pode ser outro tipo penal, mas ai já não é assedio sexual”, explica.

Conforme a delegada, o assédio sexual é o constrangimento que o superior provoca, valendo-se dessa condição, para forçar a mulher a satisfazer seus interesses sexuais sob pena de sofrer perdas, caso não cumpra o que lhe está sendo exigido. Em muitos casos, são feitas ameaças, como por exemplo, de demissão da mesma, assim como de estragar sua carreira profissional e ela nunca mais conseguir emprego.

Cleusa usa ainda outra explicação para distinguir cantada e assédio. “A cantada é quando o homem tenta, a mulher não quer e ele aceita. Desde que seja respeitada a liberdade da mulher de querer ou não, estamos tratando de uma mera cantada. Se ele não respeitar o não, aí nós vamos ver o que foi praticado. Pode ser uma perturbação ao pudor ou pode chegar a configurar um delito de estupro. Este último não é necessariamente uma relação sexual forçada, ele abrange outros atos libidinosos, como passar a mão, ou constranger uma mulher que não tenha defesa.”

Quando denunciar
A delegada esclarece que o estupro é um crime imprescritível, já o assédio não. Se a vítima demora para fazer a denúncia corre o risco de inviabilizar a penalização de seu agressor. Por isso, quanto mais cedo o caso for levado ao conhecimento das autoridades, mais chances de se fazer justiça. A pena para o crime de assédio sexual varia de um a dois anos de detenção. Devido ao curto período da pena, sua prescrição ocorre em quatro anos.

Diante disso, Cleusa incentiva as mulheres a denunciar o assédio o quanto antes. Contudo, ela reconhece que nem sempre as vítimas encontram coragem para tornar o caso de conhecimento público. “Muitas mulheres acabam não denunciando por medo de se expor.”

“Elogio é uma coisa. Ser vulgarizada é outra”

Para Fernanda Hilgert, 30, sócia da cantina da Fundarte, assédio é a falta de respeito com a liberdade e a autonomia da outra pessoa. Um ato forçado que invade a privacidade alheia. “Acredito que depois do não, tudo é assédio. Qualquer toque sem consentimento é assédio”.

Adriana Tavares Pimental, 48, professora de Língua Portuguesa, diz que o assédio começa quando a sociedade pensa nas pessoas como objetos. “Não somos! Mas gerações cresceram acreditando que uma pessoa sozinha em um bar é uma mercadoria. Ou, ainda, que vestindo-se com roupas mais curtas ou justas está disponível. Visões distorcidas do real. Estas distorções levam a atitudes grotescas de assédio por aqueles que não têm nenhum discernimento da diferença da ‘paquera’ e da ‘agressão’.”

Para Liliane, todo o tipo de constrangimento é um asssédio

Liliane Porto, 33, auxiliar de saúde bucal, concorda com a opinião delas. “Em toda situação em que a mulher se sentir constrangida e coagida perante a ação de um individuo, ela está sofrendo um assédio sexual”, considera. “Receber um elogio respeitoso é uma coisa, ser vulgarizada é outra. Esse tipo de situação ocorre por pura falta de educação”, define.

Por que elas não denunciam?
“Não me manifestei por vergonha, porque a impressão que temos é de que a culpa é nossa”, relata Liliane Porto. Ela revela que já passou por momentos que considerou ser assédio, mas manteve silêncio sobre o ocorrido. Hoje Liliane pensa de forma diferente. “Não podemos ficar caladas. A denúncia é a nossa única arma.”

As amigas Susana Toledo, 27, estudante de Artes Visuais da Uergs, e Fernanda Hilgert partilham da mesma opinião sobre o receio que as vítimas têm em relatar o abuso sofrido. Para ambas, por muito tempo, as mulheres tiveram medo, mas isto está mudando. “Medo de falar, de perder o emprego, de se expor, de ser julgada, de não acreditarem nela”, comenta Susana.

A professora Adriana Pimentel relaciona o receio de fazer a denúncia com os valores passados pelas famílias a suas mulheres. “Elas foram criadas nos moldes machistas e, por muito tempo, acreditaram ter sido culpadas pelo assédio. Acredito que inconscientemente pensam que foram elas as provocadoras de tais atitudes”, conclui.

Uso da hashtag “MeToo” incentiva mulheres a denunciar
Após denúncias contra o produtor americano Harvey Weinstein, acusado de abuso e violência sexual, a atriz Alyssa Milano sugeriu às mulheres usarem a hashtag “MeToo” (Eu também) para contar suas histórias no Twitter. Milano não está entre elas, mas a atriz explicou no Twitter que começou a pesquisa depois que uma amiga lhe deu a ideia para que “as pessoas tenham noção da magnitude do problema”.

A ação surgiu após Tanara ter
conhecimento do caso de violência sexual sofrido por uma menina. Foto:Reprodução internet

A campanha de incentivo às denúncias surgiu há mais de 10 anos, através da ativista Tarana Burke. Conforme Burke, a semente do movimento “MeToo” foi plantada em 1996, quando foi diretora de acampamento. A ação surgiu após ela ter conhecimento do caso de violência sexual sofrido por uma das meninas que frequentava os encontros. A pequena relatou a Tanara que vivia verdadeiras monstruosidades nas mãos do namorado de sua mãe. “Quando você passa por um trauma e encontra pessoas que tiveram experiências similares e mostra empatia um pelo outro, isso cria um laço”, revelou. Foi com esse pensamento que a ativista deu início à campanha.

Tanara diz estar feliz por ver sua ideia ganhando ampla audiência. “Isso não é sobre uma campanha viral para mim, é sobre um movimento”, disse em entrevista à CNN.

Eventos que marcam a onda de protestos contra o abuso

A 75ª cerimônia do Globo de Ouro teve manifestações sobre os direitos das mulheres e reforçou o incentivo às denuncias. Desde o ano passado, vários casos de diretores e produtores assediando artistas vieram a público. Foto:Reprodução internet

O ano começou com uma forte demonstração de repúdio ao crime de abuso sexual contra mulheres. A 75ª cerimônia do Globo de Ouro, em Los Angeles, realizada no dia 8 de janeiro, foi marcada por protestos e discursos contra o assédio sexual e o machismo. Com as atrizes vestidas de preto em solidariedade às vítimas de abuso, a premiação teve um viés mais político e reforçou a nova fase da indústria do cinema nos Estados Unidos.

O tapete vermelho, onde as estrelas apresentam seus looks, criados por estilistas famosos, também foi usado como espaço para falar sobre os direitos das mulheres, reforçar as denúncias sofridas e apoiar movimentos como “Time’s up” (O tempo acabou, em tradução livre) e #Metoo (Eu também).

Um mês após a cerimônia do Globo de Ouro, a Semana de Moda de Nova York teve como grande atração o Desfile #MeToo. A concepção é de Myriam Chalek, diretora de criação da American Wardrobe, que quis usar sua grife como uma plataforma para beneficiar as mulheres.

Deixe seu comentário