Os brinquedos estão no aguardo da futura dona para serem usados

Moradora do Aeroclube fala da luta para realizar o sonho de ser mãe de uma menina e da angústia causada pela demora

O quartinho dela está pronto. As roupinhas já estão compradas e os brinquedos enfeitam a prateleira. A madrinha também foi escolhida. E o nome, “Valentina”, remetendo à força e à valentia, está definido. Não se sabe, no entanto, quando e se ela vai chegar. Sua futura mãe representa uma das 39.139 famílias na fila de espera por adoções no país. De acordo com o Cadastro Nacional de Adoção, elas competem pelo registro de 8.278 crianças e adolescentes cadastrados no sistema para conseguirem um lar.

Daniela Antunes é a futura mãe da menina que, apesar de existir apenas nos seus sonhos, já tem muito amor esperando. “Eu chego a sonhar com essa criança. Desde o dia em que a gente entrou na fila de adoção, eu escolhi o nome Valentina, que é um nome forte”, conta Daniela. “Quando eu vejo alguma roupinha, eu já compro. Eu sei que é errado, porque eu não sei quando ela vai chegar, mas eu quero ter as coisas que serão dela.”

No futuro quarto da filha, a mãe não deixa ninguém mexer nos brinquedos expostos. “A primeira a brincar tem que ser a Valentina.” O espaço só não ganhou ainda a caminha da criança porque Daniela considera doloroso entrar no cômodo e encontrar o berço vazio dia após dia. Casada, ela já tem três filhos homens, um de 19, um de 16 e um de 7 anos. No nascimento do último, que veio prematuro, complicações de saúde causaram a impossibilidade de gerar novos filhos. O sonho de ter uma menina, então, carregado por anos, parecia que não seria realizado. Daniela chegou a entrar em depressão.

Foi o marido Adriano que sugeriu a adoção. A primeira reação da mãe foi negativa. “Eu disse ‘Adriano, uma adoção, tu sabe que não é simples. Tu tem que correr muito e tu tem que ter dinheiro. Tu sabe que a gente não é rico’”, relembra. O apoio e a força do esposo e da família foi moldando a ideia de Daniela. Ela lembra, até hoje, da fala de uma cunhada que muito a auxiliou na tomada da decisão: “Dani, vocês não são pobres. Vocês têm casa, carro e um nível bom de vida. Faltam as coisas? Faltam. Para todo mundo falta. Mas vocês têm muito carinho pra dar”, disse ela.

Tomada a decisão, muita pesquisa sobre o tema foi feita. Os filhos apoiaram a ideia e a família iniciou o processo. A primeira etapa correu de forma rápida. Em uma ida ao Fórum, Daniela buscou informações e já saiu com o formulário de cadastro. Além das informações básicas, ali o casal colocou o perfil buscado. Além de menina, solicitaram uma criança de até um ano e meio. “Porque eu quero criar do meu modo, para que ela sinta o meu amor”, explica a mãe.

Também foi solicitado que a criança fosse do Rio Grande do Sul, visto que a busca da filha no abrigo é de responsabilidade dos pais e o casal não teria condições de ir para longe. Em cerca de 20 dias, ambos haviam passado pelo oficial de justiça e as avaliações da psiquiatra e da assistente social. Estavam aptos para a realização do sonho. Começou, então, o angustiante período de espera.

“A justiça é muito demorada”

Daniela conta os minutos para a chegada da filha e a realização de seu sonho

O desabafo de Daniela demonstra sua ansiedade por receber a filha e também o temor de que o sonho possa jamais se realizar. Apesar de estar há um tempo relativamente pequeno na fila, quando comparado a outros casos de adoções, a mãe, de 38 anos, revolta-se ao ver famílias já há dez anos na espera, ao passo que existem tantas crianças em situação de abandono no país. “Eu não sei por que tanta demora. Eu não sou novinha. Eu chego a chorar, porque é muito errado. Será que eu vou ter essa criança quando eu estiver com 70 anos?”, coloca.

“Eu vejo em sites. Tem crianças, em Porto Alegre, sendo abandonadas e indo para os abrigos. Aí elas não são adotadas, saem de lá com 15 anos e ninguém as quer. Não é por preconceito. Mas, como que tu vai pegar uma criança que não tem vínculo nenhum contigo? Como é que ela vai me respeitar? Ela foi criada, coitadinha, sem ninguém. Sem mãe, sem pai, sem um abrigo”, aponta Daniela. Em suas pesquisas, ela encontrou, inclusive, um abrigo para fechar em Caxias do Sul, onde existem crianças com o perfil de Valentina. O que fica é sua indignação com a demora deste processo.

“O meu filho pequenininho também está agoniado. Ele disse, esses dias: ‘bah mãe, tanta menininha na rua e minha mana nunca chega’. Tu vê uma criança de sete anos dizer isso e os responsáveis lá não se tocarem”, relata. Empregada doméstica, Daniela sai de seu trabalho toda semana para caminhar até o Fórum e receber notícias do andamento do seu caso. “Eles já enjoaram da minha cara. Só mandam eu esperar. Eu saio de lá cabisbaixa.” Apesar da luta, a mãe afirma que pode morrer tentando, mas jamais desistirá do sonho de ter a sua Valentina.

Advogada explica como funciona o processo e defende mudanças na legislação atual

A ADVOGADA Daiana Carollo aponta os fatores que levam à demora na fila de espera pelas adoções

Com especialização em Direito de Família, a advogada montenegrina Daiana Carollo explica que o processo de adoção, como aconteceu com Daniela, tem início com o pedido de habilitação junto do Cadastro Nacional de Adoção. Essa petição é remetida ao juiz da Infância e Juventude, iniciando os trâmites. O posterior encaminhamento da criança, após avaliada a família e colocada na fila de espera, vai depender do perfil solicitado e da disponibilidade do Cadastro, que é nacional.

“O perfil escolhido poderá ser alterado durante a espera, na tentativa de ampliar o interesse, pois a maior procura é por crianças com até cinco anos de idade, sem irmãos e sem doenças crônicas”, ressalta a advogada, a exemplo da menina buscada pela mãe Daniela. De acordo com a profissional, nem todas as crianças presentes em instituições de acolhimento estão diretamente aptas para a adoção. Elas somente estarão liberadas para isso após um processo de destituição do poder familiar, quando a sua família biológica perde, de fato, o poder sobre ela.

É aí que está um dos principais fatores para a demora nas filas da adoção. “O Judiciário quer esgotar todas as possibilidades de incluir a criança/adolescente na família biológica, para, somente depois, liberá-la para a adoção. Porém, nesse período, anos vão se passando, por causa dos trâmites processuais e a criança/adolescente vai crescendo naquele meio social que era para ser provisório”, aponta Daiana. “É de extrema importância e necessidade ocorrer diversas mudanças no procedimento para a adoção. Em especial, sobre a destituição do poder familiar.” Há, atualmente, um Projeto de Lei que procura alterar alguns pontos dos regramentos atuais.

Em entrevista recente ao Jornal Ibiá, a juíza da Segunda Vara e do Juizado da Infância e Juventude de Montenegro, Deise Fabiana Lange Vicente, ressaltou que não necessariamente todos os processos de adoção são demorados, sendo dada prioridade, sempre, à proteção da criança e do adolescente.  Ela indicou que, após ocorrida a destituição, a criança é encaminhada para adoção. Nesta fase, são priorizadas as famílias do Cadastro Nacional que aceitem grupos de irmãos, quando é o caso. O vínculo afetivo, segundo ela, é verificado caso a caso.

Após o destaque de uma criança para a família, acontece um período de apresentação, entrevistas e convivência entre as partes para que, então, seja concedida a guarda provisória. “Após, a equipe técnica continua acompanhando a criança/adolescente e os adotantes, realizando visitas periódicas e avaliação, para, então, o juiz proferir uma sentença de adoção e determinar a lavratura do novo registro de nascimento, com o nome da nova família”, explica a advogada Daiana.

De sua experiência na área, a profissional aponta que o perfil mais comum de famílias buscando adotar na região é o de casais heterossexuais que, por motivo de saúde, não puderam ter filhos.

SAIBA MAIS
De acordo com o Cadastro Nacional de Adoção:
– existem 39.139 famílias pretendentes na fila de adoção. E 8.278 crianças e adolescentes disponíveis;
– dentre os pretendentes, 53,18% têm alguma restrição quanto à raça da criança;
– 7.524 só aceitam filhos brancos. 2.849 crianças e adolescentes são brancas;
– dos que buscar adotar, 19,41%, querem o filho com até 3 anos de idade, mas só 4,49% das crianças aptas à adoção têm até 3 anos.
– Apenas 41 futuros pais aceitam adolescentes de até 17 anos. 604 deles, com essa idade, aguardam a adoção.

Uma criança que fez toda a espera valer a pena

O CASAL Ezequiel e Tâmara celebra cada dia ao lado da filha como uma vitória, depois de um longo período de espera

A filha mais nova do casal Ezequiel e Tâmara Krahl entrou para a família quando já tinha um ano e meio de idade. Foram três anos e oito meses na fila de espera pela adoção. O sonho de adotar sempre foi compartilhado pelo casal. Quando Tâmara engravidou do primeiro filho e descobriu-se que este era um menino, estava decidido: iriam adotar uma menina.

A mãe lembra que, na consulta com a psicóloga no processo de adoção, estava grávida de oito meses de seu menino. No caso dela, o processo de habilitação, ainda antes da fila, levou quase um ano. Chegaram, nesse tempo, a comprar alguns presentinhos para a futura filha, mas não quiseram fazer um enxoval completo, pois ainda não sabiam a idade da criança que iria chegar. No perfil de solicitação, os requisitos eram: uma menina; de zero a três anos de idade; do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná ou São Paulo; podendo sofrer de alguma doença tratável.

Ciente da realidade de famílias que passam muitos anos na fila de espera, o casal considera que o requisito da possível doença possa ter facilitado o encaminhamento da filha após os quase quatro anos. “No começo, a gente até se revolta com a demora. Aí, quando a gente parou de pensar naquilo, chegou o oficial de justiça no serviço dela (da Tâmara) para perguntar se a gente queria”, lembra Ezequiel. Segundo eles, o envolvimento com a criação do outro filho diminuiu a angústia da espera.

Por cerca de 20 dias, correu o período de visitas no abrigo onde a menina se encontrava. Em julho de 2015, a filha passou a morar com os novos pais. Há cerca de um ano, veio a adoção definitiva. Ezequiel e Tâmara recordam que o período de adaptação não foi fácil, visto que a filha já estava acostumada ao ritmo e à realidade do abrigo. Com o tempo, as coisas melhoraram. Hoje, saudável e muito apegada ao “mano”, a menina finalmente tem um lar cheio de amor e carinho para chamar de seu.

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