Nas sessões abertas ao público, inclusive a pessoas de outras crenças, há momentos de agradecimento a Deus e de reflexão sobre a vida e a necessidade de praticar o bem

A crença de que a vida não termina, que o desencarne é necessário para a evolução e que parentes e amigos se reencontrarão são princípios da doutrina

A música suave ao fundo contribui para criar a atmosfera tranquila do lugar, onde o branco predomina. É a cor das cadeiras, das paredes e do banner com uma conhecida frase do médium Chico Xavier: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, é possível recomeçar agora e fazer um novo fim”. O quadro verde se sobressai na parede com a frase destacada “O mundo e Jesus”. No canto esquerdo, o lembrete para o prazo de entrega das doações de alimentos e a lembrança de um dos princípios do espiritismo: a caridade.

Junto ao quadro, sob a mesa coberta com uma toalha branca, as obras de Allan Kardec, que constituem a codificação dessa doutrina. Aos poucos, as cadeiras vão sendo ocupadas. As pessoas chegam sem fazer barulho e permanecem em silêncio, sem quebrar a tranquilidade que marca o ambiente. Por volta das 20h, a sessão começa com o boa noite do presidente da Sociedade Espírita Missionários da Luz, o médium Carlos Alexandre Schröder. Em seguida, todos são estimulados a se concentrarem e a agradecerem a Deus. Alexandre encerra sua fala com um desejo de muita luz a todos. “Que assim seja”, respondem, em coro. Após, é lido um texto, mencionando Jesus como modelo a ser seguido.

Na sequência, inicia a palestra da médium Jane Kuhn, da Sociedade Espírita Amor à Verdade, de São Leopoldo, que fala sobre o livro “Voltei”, pelo espírito Irmão Jacob, psicografado por Chico Xavier. Como quem conta uma história, ela prende a atenção de todos com os fatos vividos por um desencarnado em outro plano espiritual.

A sessão mencionada aqui ocorreu em dezembro e a médium encerra referindo-se a uma prática comum nesse período, de fazer resoluções para o novo ano. “Para mudar o ano, tem que mudar nossas atitudes, ou 2018 será igual”. A reunião segue com momentos de agradecimento e reflexões que estimulam a evolução espiritual e a prática do bem.

O último censo do IBGE, de 2010, identificou um aumento de 65% em dez anos na procura pelo Espiritismo no Brasil. Alexandre acredita que esse crescimento é cada vez maior. E a que se deve esse aumento? “Ao esclarecimento e à consolação que o Espiritismo proporciona às pessoas que estão sedentas de conhecer a si mesmas, de saber por que estão aqui, o que vieram fazer aqui”, responde.

CARLOS Alexandre Schröder, presidente da Sociedade Espírita Missionários da Luz

A crença em vida após a morte e a reencarnação são as características mais conhecidas do Espiritismo. E a “consolação” mencionada por Alexandre se justifica porque o entendimento sobre a “morte” e sua aceitação é mais fácil para quem segue essa doutrina, razão pela qual muitas pessoas buscam o Espiritismo após a perda de alguém querido. Conforme a doutrina, ao desencarnarem, as pessoas passam para outro plano, onde são recebidas por espíritos.

Os espíritas falam em desencarnados, não em mortos, porque acreditam que a vida não acaba, apenas se deixa o corpo físico. Já os que estão na vida terrena são os encarnados.

A evolução do espírito através de várias vidas terrenas
Praticante há 13 anos, Carlos Alexandre Schröder afirma que encontrou no Espiritismo as respostas que buscava para entender melhor os “porquês da vida”, como a razão de sua existência, de onde vem e para que está na Terra. Ele afirma que a fé baseada na lógica e no raciocínio o ajudaram a entender melhor questões complexas que envolvem a alma, o espírito e a existência da vida após a morte. Entre outros aspectos do Espiritismo, ele fala sobre a reencarnação, o sentido de várias vidas e por que até mesmo as crianças passam por dificuldades. Confira a entrevista.

O Espiritismo é uma doutrina, uma religião?
Tem o que chamamos de tríplice aspecto: é uma ciência porque estuda a natureza, origem e destino dos espíritos e sua relação com o mundo corporal. É uma filosofia porque trata de um conhecimento frente à razão, ou seja, realiza perguntas dos princípios e causas das coisas, suas origens, as questões existenciais, o que somos, para onde vamos, qual o objetivo das nossas existências e a razão da dor e do sofrimento das pessoas. E tem cunho religioso, mas não tem vestes, não tem liturgias, sacramentos. Não é uma religião nesse sentido de ritos, mas é uma religião no sentido de ligar o homem ao criador através de seus fundamentos, em Deus, na alma, na vida futura, nos ensinos éticos e morais de Jesus com vista aos sentimentos que ele prega, como a caridade, a fraternidade, a solidariedade, o perdão das ofensas, a indulgência e a benevolência.

Pessoas de outras também religiões frequentam o espiritismo?
Nossa doutrina valoriza todos os esforços pela prática do bem, respeita todas as religiões que buscam isso, recebemos pessoas de todos os credos. Recebemos pessoas de várias crenças, algumas inclusive (participam) escondidas porque não querem que outras saibam que estão indo. É frequente vermos católicos, ateus, exotéricos, umbandistas… A doutrina não faz essa distinção, é fiel aos seus ensinamentos, mas não limita a outras crenças, está de portas abertas a pessoas que querem buscar a espiritualidade. Recebemos todos de braços abertos porque valorizamos essa prática do amor, da caridade, da ajuda ao próximo. Tanto que o slogan, não só do Espiritismo mas dos cristãos em geral, é “Fora da caridade não há salvação”. Então não vincula a nenhuma crença específica. Ama-se o ato em si da caridade.

Pessoas que perderam alguém querido tendem a procurar mais o Espiritismo?
Sim, há muitas pessoas que querem esclarecer suas dúvidas, se realmente existe vida após a morte, e aí tivemos um homem-amor – Chico Xavier – que realizou um trabalho missionário nessa área, através da mediunidade por psicografia, onde recebia, através da escrita, cartas atribuídas a entes queridos desencarnados. A doutrina espírita não fala ‘morto’, mas desencarnado, porque morto é algo que não tem vida e desencarnado é um espírito que perdeu o corpo, mas continua vivo no plano espiritual. Essa relação do mundo espiritual e físico é constante, desde que o mundo é mundo, não há um local circunscrito, nós na Terra e ele no céu ou no plano espiritual. Esses mundos se interpenetram pelo pensamento.

Qual o propósito da reencarnação?
A reencarnação visa o aperfeiçoamento do espírito, a evolução, o progresso, para que eles se conheçam e para reparar erros cometidos no passado. Às vezes, as pessoas banalizam a reencarnação, pensando que é só para sofrer e pagar pelo que se fez de ruim no passado. Vem para resgatar isso, mas também para se modificar, para não ter débitos futuros, nas próximas existências, de resgate, reparação e aprendizado para evoluir.

Na visão espírita, qual a razão de crianças sofrerem, seja por problemas graves de saúde ou por viverem em situação de vulnerabilidade?
As crianças que nascem com problemas graves, ausência de uma saúde dita perfeita, a gente olha muito pelo imediatismo do corpo, pela inocência, porque estamos vendo a casca, mas no interior dessa casca (corpo) há um espírito milenar que já fez diversas caminhadas ao longo das existências na Terra ou em outros mundos habitados. Porque Jesus disse, ‘na casa de meu pai há muitas moradas’ – então, dentro desse passado, ela cometeu delitos, cometeu alguns desvios. É o que chamamos de “lei da causa e efeito”, que é uma lei de consequência de nossos atos, atestados por Jesus, quando diz “a cada um segundo suas obras”.

Normalmente as famílias também sofrem com essa condição das crianças…
Todas as pessoas que estão vinculadas e passam pelas experiências em conjunto, têm algo a resgatar, ou a aprender que não fizeram no passado, ou que contrariam algum débito no passado, fazendo a outro aquilo que estão passando agora. Isso é uma lei de consequência dos atos: passarem o que fizeram os outros sofrer. Mas longe de ser uma vingança divina, essa é uma plantação que nós mesmos fizemos e estamos colhendo agora.

Passagem a outro plano não é igual para todos
No desencarne, a passagem do espírito depende de sua evolução. “Dependendo do grau de consciência, do adiantamento no entendimento da vida espiritual, vão para o espaço condizente com essa consciência”, explica Alexandre Schröder. Ele acrescenta que a doutrina espírita ensina que céu e inferno são um estado de consciência e não locais delimitados. Alexandre explica que a mentalidade de uma pessoa com comportamento muito materialista, baseado nas paixões terrenas, na imoralidade, no ódio, no orgulho e nos vícios atrai um espaço condizente com essa situação. “É o chamado Umbral, uma zona purgatorial. Não é um local para ficar por toda a eternidade. Ele vai ficar ali até o momento em que expurga as energias negativas que contraiu pelos seus pensamentos e ações”, explica. “Quando ele desperta, faz uma súplica, vêm espíritos amigos, de espaços espirituais elevados, e o resgatam para que tenha outras chances de entender e praticar o que não assimilou na sua existência”, acrescenta.

Alexandre afirma que há pessoas com mais dificuldades de aceitar que desencarnaram, por serem menos evoluídas espiritualmente. Às vezes, podem ficar algum tempo no plano terreno sem entenderem o que ocorreu e agindo como se ainda estivessem “vivos”. Ele acrescenta que essa situação desarmoniza o meio, podendo prejudicar tanto aquele que fez a passagem como aqueles que estão encarnados. “É como uma pessoa querer viver no fundo do mar, não vai conseguir porque não é o seu ambiente”, compara.

Caridade verdadeira
O Espiritismo defende a prática da caridade, da humildade e do amor ao próximo e, seguindo a lei de atração, fazer coisas boas atrai energias positivas. “O bem em ação movimenta energias que atraiam coisas boas e modifiquem nossos destinos, pois a lei divina não é implacável, ela é maleável”, observa Alexandre Schröder. Ele explica, porém, que isso não deve ser confundido com “negociata”, pois de nada adianta praticar boas ações pensando em ter retorno.

O médium afirma que agir dessa forma pode ser um primeiro passo, mas a evolução espiritual só ocorre com atitudes realmente altruístas, visando proporcionar o bem a outra pessoa. “A caridade não pode ser calculada nem ostentada”, acrescenta.

Qual a diferença entre espírita e espiritualista?
“O espiritualista crê em vida após a morte; o espírita também crê, mas segue a doutrina codificada por Allan Kardec”, responde o presidente da Sociedade Espírita, Alexandre Schröder. Ele acrescenta que o espiritualista estuda, vai às sessões no centro, mas não é fiel às obras básicas do fundador da doutrina espírita porque agrega outros conhecimentos.

Alexandre afirma que os espíritas também podem saber sobre outros ensinamentos, mas devem ter consciência de que nem tudo lhes convêm. “Falamos muito na fé raciocinada, pois vários episódios de guerra no mundo foram feitos por fanatismos religiosos. Falamos de passar tudo pelo crivo da razão antes de aceitar”, resume.

Atendimento a espíritos e a encarnados
No centro espírita, há sessões abertas e encontros fechados dos médiuns. “Há auxílio através das reuniões mediúnicas, onde, se alguém está passando por obsessão espiritual, ou seja, sendo influenciado por alguma entidade, é atendido espiritualmente, e o desencarnado é atendido em uma reunião mediúnica, que é privativa”, esclarece Alexandre Schröder.

Ele explica que os passes individuais normalmente são realizados por dois ou três médiuns que ficam em volta da pessoa e, com as mãos sobre ela, fazem uma oração de irradiação de energia mental, considerando o pedido ou necessidade de quem recebe o passe. Alexandre esclarece que não há mediunização (termo que os espíritas consideram mais apropriado que incorporação) nesse momento. Se o médium percebe a presença de um espírito durante o passe, procura ajudá-lo se for necessário, mas sem recebê-lo.

As reuniões fechadas são realizadas por médiuns experientes que se colocam à disposição e os mentores – que são espíritos de luz – levam os espíritos que tenham necessidade, ou estão influenciando alguém. “Para serem esclarecidos e encaminhados das trevas da ignorância para a luz de Jesus”, acrescenta Alexandre. Na sociedade espírita que ele preside, paralelo a essas reuniões, nas tardes de terça-feira, são realizados atendimentos às pessoas em outra sala. “O atendimento é para quem está no meio físico e quem está desencarnado”, resume. Ele observa ainda que há espíritos que vão para o centro acompanhando pessoas nas sessões abertas e são atendidos nas reuniões fechadas.

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O espiritismo é baseado nos cinco livros codificados por Allan Kardec: O livro dos esepíritos; O livro dos médiuns; O evangelho segundo o espiritismo; O céu e o inferno; A gênese

Colônias espirituais – poderiam ser comparadas a cidades em um outro plano, para onde são levados os espíritos desencarnados para que se desliguem completamente da vida terrena. Nesses locais, há estudo e trabalho para que se sintam úteis, evitando que não tenham uma razão na vida. Esse trabalho inclui a “reparação espiritual”, tendo acesso a sua consciência e, como se fosse um telão mental no qual é passado um filme da sua última existência, percebem o que fizeram e o que poderiam ter feito. Nessa hora, observa Alexandre, entendem que é preciso voltar, pois ainda falta muito para evoluir.

Relação com amigos e familiares – Pensamentos e laços afetivos mantêm as pessoas com vida terrena ligadas àqueles que já desencarnaram. Por isso, aquela saudade ou lembrança repentina de alguém ou fato ocorrido com uma pessoa que já desencarnou pode significar que essa pessoa está enviando boas energias ou até mesmo visitando seus parentes ou amigos que continuam na vida terrena. Essas “visitas” seria uma espécie de bônus a espíritos merecedores, conforme sua atuação no plano espiritual, por estarem agindo com disciplina, estudando e servindo ao próximo, uma vez que os espíritos também se ajudam.

Pensamento – “O pensamento é o veículo entre os encarnados e desencarnados”, define Alexandre. Desta forma, assim como as pessoas sentem saudades e oram por quem já fez a passagem, os desencarnados também sentem saudades e oram por aqueles que estão na vida terrena. Por ter essa convicção de que não existe a separação eterna que a morte pode representar em algumas crenças, mas que os laços afetivos continuam e que haverá reencontro em outro plano, os espíritas têm mais facilidade de aceitar o desencarne, ou a “morte”. Alexandre salienta, no entanto, que isso não significa que os espíritas não sintam a passagem de uma pessoa querida, mas que a certeza de que aquilo não é o fim, de que a pessoa será recebida em outro plano e terá o atendimento necessário por outros espíritos, ajuda a passar por esse momento.

Corrente de rentenção – Se uma pessoa está muito doente, é comum que seus amigos e familiares desejem e até rezem para que ela se recupere. Ela melhora, mas desencarna repentinamente. Alexandre esclarece que, se de fato chega a hora dela desencarnar, a pessoa fará a passagem. Nesses casos, conforme o dirigente, essa “mobilização” das pessoas dificulta o trabalho dos mentores que vieram buscá-la, formando uma “corrente de retenção”. Por isso, esses espíritos de luz mandam uma “energia vital” para que ela melhore, o que faz com que as pessoas se tranquilizem e se desevinculem mentalmente daquela que precisa desencarnar e os mentores possam desligar os laços que a unem à Terra.

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